Nagham, a ginecologista das mulheres violadas pelos militantes do Daesh

| 7 Mar 21

Para as mulheres que sobreviveram ao Daesh, as suas palavras são a primeira voz que as leva finalmente a conseguir contar a destruição que as atingiu. Submetidas a escravidão sexual, a voz da médica Nagham Hawzat Hasam junto das mulheres yazidis é o primeiro passo para o processo para a cura.

Nagham Hawzat Hasam, a ginecologista yazidi a escutar uma vítima do Daesh: estas mulheres estão “destruídas como se fossem uma cidade bombardeada.” Foto © Claire Thomas/UNHCR-ACNUR

 

Desde 2014, a médica ginecologista Nagham Hawzat Hasam, 42 anos, já ouviu mais de 1.200 mulheres sobreviventes do Daesh contarem atrocidades impensáveis. E usa sempre a mesma palavra para definir o estado psicológico daquelas que ouve: destruídas. Destruídas como se fossem uma cidade bombardeada, destruídas como se fossem uma casa após um terramoto. Às mãos impiedosas dos seus carcereiros, essas mulheres tiveram de viver o que para muitas outras pessoas seria quase impossível de contar.

Tudo começou quando o Daesh conquistou Mossul, no Norte do Iraque e ameaçou os yazidis, que o grupo terrorista considerava “adoradores do diabo”: na fé yazidi, de origem zoroastriana, Deus perdoa um anjo rebelde. Razão suficiente para os militantes do grupo Estado Islâmico (EI)/Daesh, ameaçarem os yazidis que não se convertessem ao seu modo de entender o islão.

Cerca de três mil pessoas acabaram assassinadas a sangue frio e 7.000 mulheres foram raptadas como despojos de guerra. Outro meio milhão de yazidis fugiram das suas casas em poucas horas.

Nagham Hawzat Hasam, 42 anos, também yazidi, vivia em Bashaaqa, a cerca de 15 quilómetros de Mossul: “Quando o EI veio para nos exterminar, eu estava no hospital a trabalhar. A minha família veio avisar-me que tínhamos de fugir imediatamente.”

Juntamente com milhares de yazidis, Nagham caminhou durante dias até chegar a Dohuk. Essa viagem mudou a sua vida para sempre. “Nos primeiros dias fui visitar famílias no campo de refugiados para ver se precisavam de cuidados médicos. Muitos tiveram de ir a um hospital. Lembro-me da primeira vez que fiquei paralisado pela dor. Vinte dias depois, soube que duas jovens conseguiram fugir das milícias e chegar ao acampamento. Estavam totalmente traumatizadas e não confiavam em ninguém. Confiaram em mim porque sou uma mulher, sou médica e sou yazidi”, diz Nagham.

As histórias de horror físico e emocional que sofreram e ainda sofrem essas mulheres justificam, por isso, que a médica use a palavra “destruídas” para descrever como estão. São pessoas que viram filhos, netos ou maridos a serem assassinados. Depois, passaram a ser usadas como escravas sexuais, passando de mão em mão.

“Uma delas veio ter comigo e perguntou-me: ‘Ainda sou um ser humano?’”, recorda Nagham, que nunca mais deixou a sua nova missão desde então.

Mas nem todas são apenas histórias terríveis e também há “renascimentos”. Nadia Murad, a jovem yazidi a quem foi atribuído o Prémio Nobel da Paz em 2018, foi a primeira a conseguir contar publicamente a violação que sofreu às mãos das milícias do Estado islâmico.

“Nadia chegou ao acampamento de Dohuk depois de fugir do cativeiro em Mosul. Os terroristas do EI torturaram-na, queimaram-na com pontas de cigarro e violaram-na”, recorda a ginecologista. Nadia Murad conseguiu superar o trauma também graças a um programa que permite às sobreviventes yazidis serem tratadas na Alemanha e tentar reconstruir as suas vidas.

“Em Estugarda ela tornou-se a activista dos direitos humanos conhecida em todo o mundo. No seu livro, inclui uma dedicatória para mim. É uma das melhores coisas da minha nova vida”, diz Nagham, que fundou a ONG Hope Makers for Women (Trabalhadores de Esperança pelas Mulheres) e trabalha há muito tempo com o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).

 

“Estiveste no pior lugar do mundo.
Agora estás viva e ouvir a tua voz é fundamental.”

Nagham Hawzat Hasam, médica ginecologista yazidi do Iraque, que acompanha as mulheres vítimas do Daesh. Foto © Claire Thomas/UNHCR-ACNUR

 

A ginecologista não tem especialização em psicologia, mas terá identificado uma forma de chegar às vítimas do Daesh. “Não posso dizer que tenho uma terapia. Dirijo-me a elas como se fizessem parte da minha família. Chamo-lhes ‘minha irmã’ com ternura, porque sinto realmente que pertencem à minha história. Tento transmitir-lhes a bondade, a sensação de que sempre fizeram parte da minha vida. E também insisto em como têm sido corajosas.”

Nagham diz a muitas dessas mulheres: “Estiveste no pior lugar do mundo e tiveste a coragem de escapar. Agora estás viva, e ouvir a tua voz é fundamental.”

O trauma é tão profundo que por vezes precisam de meses para começar a falar, conta a médica. Na sua já larga experiência, a médica identificou as três fases psicológicas pelas quais passam as sobreviventes: “O primeiro grande problema é que nas mãos do EI perderam a fé na humanidade. Passaram a acreditar que qualquer pessoa pode tornar-se brutal e sádica.”

Quando começam a confiar a sua história a Nagham, as mulheres vítimas dão o primeiro passo. “O segundo obstáculo é o terror que sentem quando pensam que os milicianos do Daesh cumprirão a sua promessa de voltar para as levar e matá-las, bem como ao resto da família. É por isso que tento sempre transmitir-lhes que está tudo acabado e que podem recomeçar.”

Para muitas, no entanto, é impossível esquecer: o trauma continua presente e recordam-no com frequência, o que conduz a uma instabilidade psicológica grave. Nesses casos mais graves, o acolhimento de Nagham’s não é suficiente e torna-se necessário o tratamento psiquiátrico.

Nessas situações, a solução é uma mudança de vida completa, sendo as mulheres dirigidas para um centro específico para fazer terapia de acordo com as suas necessidades. Uma estratégia possível graças a acordos humanitários com países como a Alemanha, França, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, ao abrigo de programas também apoiados por agências como a Organização Internacional para as Migrações.

“Se regressar a casa depois do cativeiro significa não saber para onde ir porque a família foi exterminada e o único horizonte é um campo de refugiados onde não é possível trabalhar e encontrar a sua própria identidade, elas rapidamente se apercebem que há poucas opções para as sobreviventes”, explica Nagham. Mas no estrangeiro “estas mulheres podem recuperar a sua saúde física e mental e encontrar um emprego e um lugar no mundo”.

Na Alemanha, por exemplo, a médica conheceu uma paciente que tinha perdido o marido e cinco filhos. “Em Dohuk ela estava em lágrimas. Na Europa, foi capaz de sorrir novamente.”

Em mais de 200 cadernos, Nagham tem registadas dezenas de histórias, entre as que têm mais impacto sobre ela. Provavelmente, irá publicar várias delas. Até porque escrever é também uma terapia: “Às vezes também me sinto partida, como elas. Vou para casa, para o meu quarto, deito-me na cama e passo assim dias inteiros. Muitas vezes choro. Choro por elas e por mim. Quando acabo de passar mentalmente as suas histórias, como um filme de terror, estou pronta para escrever.”

A mãe da médica ajuda-a por vezes a aliviar a sua própria dor, repetindo à filha as mesmas palavras que ela usa com as mulheres que acompanha: “Ela diz-me que sou corajosa, que estou a fazer um trabalho útil e que estas sobreviventes me dão a força para continuar.”

Nagham não esconde a sua fragilidade. Ao longo da entrevista repete o muito que sente falta da vida em Bashaaqa antes da invasão do Daesh: vivia numa boa casa, podia ir às compras com amigos, sem preocupações, ou passar o tempo livre a ler um livro ou a ver um filme. “A nossa vida foi aniquilada. Tenho sorte em ter uma casa de tijolos, mas muitas pessoas vivem em tendas. A comunidade internacional não deve esquecer-nos. Não posso esconder a minha raiva perante o que aconteceu, especialmente quando me apercebo de que o EI deixou duas mil crianças órfãs. Ainda não compreendo o mal que nós, que sempre respeitámos aqueles que têm uma fé diferente da nossa, temos sofrido. À noite rezo ao nosso Deus, um Deus bondoso que ajuda pessoas em tempos difíceis como eu, como as mulheres que me falam de violência desumana. E rezo para que a bondade possa reinar mais uma vez nas nossas vidas.”

 

[Texto adaptado do artigo publicado em Donne Chiesa Mondo (Mulheres Igreja Mundo), suplemento mensal do L’Osservatore Romano, Fevereiro de 2021.]

 

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