Nagorno-Karabach

| 11 Dez 20

“Olho para o mapa: Nagorno-Karabakh é uma torre no jogo de xadrez travado entre russos e turcos. Os arménios não passam de peões”. Mapa reproduzido de Communia

 

1. A história

“We reach way back” é uma frase dita por um descendente de arménios no filme Ararat, de Atom Egoyan, quando está a ser interrogado por um polícia de um aeroporto canadiano – e é nessa frase que penso ao ter de decidir onde começar a história de Nagorno-Karabakh, que de novo tem sido notícia pelas piores razões.

Começar talvez no século V a.C, quando naquela região coexistiam vários povos – autóctones, arménios e nómadas? Ou quando Artsakh (Nagorno-Karabakh) se tornou uma das províncias da antiga Arménia, séculos antes da nossa era? Ou no século IV d.C., quando já eram arménios praticamente todos os habitantes da região, e São Gregório – que tinha convertido o país ao cristianismo, o que se tornou uma peça fundamental da identidade arménia – ali fundou o mosteiro de Amaras?

Em todo o caso, Nagorno-Karabakh tinha uma posição central no reino arménio quando, na passagem para o século V, Mesrop Mashtots instalou no já centenário mosteiro de Amaras a primeira escola da língua arménia que utilizava o alfabeto por ele criado. Foi portanto nessa região que, há mil e seiscentos anos, se deram os primeiros passos para escrever a Bíblia em arménio, outra peça fundamental do reforço da identidade arménia para se distinguir dos outros povos que coexistiam e se moviam sobre o mesmo espaço geográfico.

Ao contrário da maior parte do território da antiga Arménia, dilacerado e repartido pelos vizinhos ao longo de uma violentíssima História, os príncipes arménios de Artsakh conseguiram relativa autonomia em relação a cada uma das potências ocupantes: mais de mil anos de jogos de cintura com árabes, mongóis, persas, otomanos, iranianos, russos. Artsakh é, por isso, muito mais que uma região de população maioritariamente arménia: é o milenar oásis de segurança com o qual sonharam tantos arménios obrigados a viver como estrangeiros na terra que era a sua desde tempos imemoriais.

No início do século XIX Artsakh é anexada ao Império Russo, e passa a ser conhecida pelo nome russo: Nagorno-Karabakh. Algumas décadas mais tarde o novo ocupante cria uma unidade administrativa que une esta região a outras dos actuais Azerbaijão e Arménia, diluindo as antiquíssimas fronteiras dos principados arménios e dando origem a novos movimentos demográficos e fluxos económicos.

Já em 1905 há tentativas por parte da maioria arménia de Artsakh para se separar da restante região. Aparentemente o vice-rei russo aceitou esse plano, mas nada foi feito para o pôr em prática. Em finais da Primeira Guerra Mundial, a região é disputada pelo Azerbaijão e pela Arménia, dois novos países que estão em processo de desenho de fronteiras. No âmbito da reorganização geopolítica do momento, os britânicos decidem entregá-la ao Azerbaijão por motivos estratégicos, porque precisam deste país para conter o avanço dos bolcheviques. Mas, perante o recrudescer dos conflitos cada vez mais incontroláveis, decidem afastar-se daquele cenário, deixando arménios e azeris entregues ao poder de decisão das suas próprias armas.

Em Março de 1920 os azeris respondem violentamente a mais um ataque dos arménios: toda a população arménia de Shushi é massacrada e o bairro é incendiado. O exército arménio entra em cena, e é criada a república arménia de Nagorno-Karabakh, que terá uma vida curta. Entretanto os bolcheviques chegam à Arménia e, para conseguir apoio popular, prometem-lhe os territórios das antigas províncias arménias: Artsakh, Nakhitchevan e Zanguezur. O próprio chefe bolchevique azeri escreve um manifesto celebrando a vitória do poder soviético na Arménia e a entrega daqueles territórios a esse país. Mas Estaline decide o contrário, e em Julho de 1921 entrega Nagorno-Karabakh ao Azerbaijão com o estatuto de região autónoma. A sua população conta, à época, com 92% de arménios.

Durante todo o período soviético arménios e azeris conviveram em boa paz. De facto, o regime não lhes dava outra hipótese, porque desde o princípio impôs violentamente a supressão dos nacionalismos, quer matando quer deportando muitos milhares de pessoas – que o diga o poeta Charents, cuja fidelidade à cultura arménia foi paga com a tortura e a própria vida, que o digam o compositor Chatchaturian e o realizador Parajanov, que durante muito tempo foram considerados criadores soviéticos. Mas quando chegou a perestroika, os antigos conflitos nacionalistas voltaram a emergir com toda a violência.

Nagorno-Karabakh aproveitou os novos ventos para se proclamar uma república soviética autónoma, equiparável aos dois países vizinhos. De um lado e do outro houve erupções de violência entre civis, e numerosos massacres. Os arménios que viviam no Azerbaijão fugiram para a Arménia e para Nagorno-Karabakh, e os azeris que viviam entre os arménios (só em Nagorno-Karabakh eram cerca de quarenta mil, sensivelmente um quarto da população total) fugiram na direcção oposta. Uma catástrofe humanitária: centenas de milhares de desalojados de ambos os lados da fronteira. Após o colapso da URSS, a esmagadora maioria da população de Nagorno-Karabakh decide em referendo a favor da independência. Começa a guerra de Nagorno-Karabakh, que – com a ajuda da Rússia – permitiu a ocupação de vastas áreas envolventes daquele território, e terminará em 1994, sem que o país seja reconhecido pela comunidade internacional.

 

2. O xadrez político e o direito internacional

O brilho nos olhos da Chagig, quando me disse em 2014 em Yerevan, que tinha de ir a Nagorno-Karabakh: porque era “como a Suíça”.

Diz-se que Deus, quando criou o mundo, deixou o território da actual Arménia para o fim. Quando lá chegou deu-se conta de que já só tinha pedras no saco. Que havia ele de fazer? Virou o saco, e deixou cair as pedras sobre aquela terra.
“Como a Suíça”: as montanhas, o verde dos vales, a água – recuperar para a Arménia um pouco do que Deus prodigalizou aos outros.

Olho para o mapa: Nagorno-Karabakh é uma torre no jogo de xadrez travado entre russos e turcos. Os arménios não passam de peões.

Assistimos à celebração de Quinta-feira Santa na catedral de Nagorno-Karabakh. No altar alinhavam-se vários soldados descalços, e o famoso arcebispo Pargev Martirosyan curvava-se perante eles e lavava cuidadosamente os seus pés.

Horas antes tinha-me dito que o próprio Jesus afirmara que tínhamos de lutar para nos defender. A minha interpretação dessa passagem do Evangelho de Lucas (22:36) é bastante diferente, mas isso, de facto, pouco interessa quando estou perante um povo que resiste ao processo da sua própria eliminação na terra que há milénios lhe pertence. Seria puro cinismo sugerir a estes cristãos, neste momento, que “ofereçam a outra face”.

Na época Obama, alguns Estados dos EUA e um da Austrália aprovam resoluções a reconhecer a República de Artsakh, e pressionam o seu governo federal a dar passos nesse sentido por respeito ao direito de autodeterminação dos povos. Em 2015 a Arménia dá sinais políticos de querer aproximar-se de Nagorno-Karabakh.

Em 2016 recomeçam os ataques, e o Azerbaijão recupera pequenas parcelas do seu próprio território, que os arménios tinham conquistado na guerra dos anos 1990, e que servia como faixa de segurança em torno da Artsakh histórica. Em 2019, o novo primeiro-ministro arménio afirma na capital, Stepanakert, que “Artsakh é Arménia. Ponto”.

Em 2020, no actual contexto de jogos de poder, a Turquia apoia abertamente o Azerbaijão para retomar a guerra, e envia mercenários sírios. Desta vez, a Rússia não vai em socorro dos arménios, tanto mais que não está muito certa sobre a fidelidade do novo primeiro-ministro Nikol Paschinian. Por sua vez os EUA estão demasiado ocupados com o umbigo do Trump. A União Europeia assiste consternada, como de costume. Ao fim de algumas semanas, o Azerbaijão recupera os territórios perdidos nos anos noventa, e conquista a estratégica Shushi. O acordo para pôr fim ao conflito prevê a instalação de dois mil soldados russos na região.

Em suma: milhares de mortos depois, o Azerbaijão recupera boa parte do seu território, a Turquia conquista poder no contexto internacional, a Rússia instala soldados no Cáucaso.

Ganharam todos – excepto os arménios.

Muitos dizem que a República de Artsakh se constituiu à revelia do Direito Internacional, e por isso não merece reconhecimento. Mas eu pergunto: que Direito é esse que permite a potências estrangeiras pôr e dispor do território, e do destino do povo que o habita há milhares de anos?

 

Helena Araújo é coautora do filme ARtMENIA e autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado.

 

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