Não, a História não se repete

| 8 Abr 2022

criança ucraniana sofrimento guerra foto depositphotos

Não, a História não se repete, mas a dor e o sofrimento das pessoas que vemos nas imagens que todos os dias entram em nossas casas, esses, sem sombra de dúvida, são os mesmos de outras guerras e de outras épocas. Foto © Depositphotos.

 

 

A História não tem um progresso retilíneo. Como escreveu Reis Torgal na “Carta a um jovem investigador” publicada em 2021, é mais adequado aceitar a ideia de um progresso em espiral que “nos leva a considerar que o processo civilizacional tem recuos e avanços, passando por pontos idênticos, mas estruturalmente diferentes”. Nesta perspetiva, ganham especial sentido as frases “Aqueles que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo”, do humanista espanhol George Santayana, ou «A História não se repete, mas rima […]. Temos de continuar a relembrar as manobras erradas do passado, para não as repetirmos», da escritora canadiana Margaret Atwood.

Contudo, a realidade difícil que hoje se vive faz-nos refletir que tão mau quanto o desconhecimento do passado é a sua utilização ideológica para alimentar ambições, ressentimentos e jogos de poder, construindo narrativas saudosistas pelas quais se procura legitimar o recurso à guerra. O discurso proferido pelo dirigente russo dias antes do início da invasão da Ucrânia é disso um bom (e assustador!) exemplo. Passando em revista a história recente da Rússia, Putin ajusta-a, à custa de enviesamentos, erros e imprecisões, à medida das suas ambições políticas e militares, procurando reacender ressentimentos e trazer de volta realidades de épocas passadas.

A dissolução da União Soviética em 1991 – que Putin considerou ter sido “a maior catástrofe geopolítica do século XX” – foi o culminar de um complexo processo iniciado em 1985 por Mikhail Gorbachev, enquanto secretário-geral do Partido Comunista. Com o fim daquela que foi uma das superpotências do século XX, encerrou-se um capítulo da história da Europa e do Mundo dominado pelo confronto de dois blocos hostis, o americano e o soviético, “numa forma de guerra inédita para a qual [foi] necessário inventar um nome, mais exatamente uma imagem, a da guerra fria”, como escreveu no início da década de 1970 o historiador francês René Rémond.

Em 1945, com o fim da 2ª Guerra Mundial, a derrota da Alemanha e dos seus aliados originou a perda de influência dos Estados do centro da Europa e alargou a área de influência da União Soviética, deslocando para oeste a fronteira entre o Leste de dominação comunista e o Ocidente liberal e democrático. Uma deslocação que tivera já início em setembro de 1939 com a invasão da Polónia pelas forças de Estaline e a sua divisão ao abrigo das cláusulas secretas do Pacto Germano-Soviético. Seguir-se-ia a guerra na Finlândia entre 1939 e 1940, a denominada “Guerra de Inverno”, reveladora de uma inesperada fragilidade ofensiva do Exército Vermelho face à empenhada resistência finlandesa, que culminaria na cedência de território à União Soviética, e a ocupação, em 1940, dos Estados Bálticos – Estónia, Letónia e Lituânia – e da Bessarábia.

A partir de 1947, a nova ordem internacional centrou-se na existência de dois blocos representados militarmente pela NATO – constituída em abril de 1949 – e pelo Pacto de Varsóvia – formado em maio de 1955. A Europa dividia-se e as potências mundiais – EUA e URSS – mediam forças.

A Áustria, contudo, ocupada pelas quatro potências aliadas (EUA, Reino Unido, França e URSS) enquanto país derrotado na 2ª Guerra Mundial (foi anexada à Alemanha nazi em março de 1939), não integrou nenhum dos blocos. Pelo Tratado do Estado Austríaco assinado em 15 de maio de 1955, logo após a formação do Pacto de Varsóvia, esses países aceitaram pôr fim à ocupação, recuperando a Áustria a sua independência como país livre, soberano e democrático, na condição de não aderir a nenhum dos blocos militares então constituídos. Uma condição imposta pela União Soviética para assegurar que aquele país do centro da Europa não viria a integrar a NATO.  Geograficamente situada entre o bloco soviético (Checoslováquia e Hungria), o bloco ocidental (Itália e Alemanha), a Jugoslávia, que a partir de 1961 integra o Movimento dos Países Não Alinhados, e a neutra Suíça, a Áustria manteve-se neutral ao longo de toda a Guerra Fria.

Com a dissolução da União Soviética em 1991, verifica-se um reposicionamento dos países no xadrez político europeu e mundial. Enquanto o Pacto de Varsóvia chegava ao fim, a NATO alargava-se no Leste europeu, passando a contar nas suas fileiras com países que até então tinham integrado a União Soviética ou a sua área de influência – República Checa, Hungria e Polónia (março de 1999), Estónia, Letónia, Lituânia, Bulgária, Roménia, Eslováquia e Eslovénia (março de 2004). Um alargamento que foi entendido pela Rússia como um ameaçador crescimento da militarização americana junto à sua fronteira, deteriorando as suas relações com os países da comunidade euro-atlântica.

É neste contexto geopolítico que a neutralidade da Ucrânia assume especial relevância na política de defesa e segurança da Rússia. Como refere David Martelo, militar e historiador, num artigo intitulado “Cortinados geopolíticos”, a Ucrânia foi, tal como a Áustria no final da 2ª Guerra Mundial, um país vencido, só que da Guerra Fria e, como tal, restringida nas opções que tomou aquando da sua independência em 1991. É nesta perspetiva que se poderá entender a neutralidade consignada na Declaração de Independência aprovada em 24 de agosto desse ano. Conforme sublinhou Teixeira Fernandes (Público, 21 jan. 2022), “A neutralidade permanente é uma alternativa em circunstâncias geopolíticas adversas, quando não é viável (ou tem riscos elevados) uma aliança com uma grande potência que garanta efetivamente a sua segurança. O objetivo é claro: manter-se fora dos conflitos e interesses contraditórios das grandes potências para garantir a sua segurança, estabilidade e independência”. No caso da Ucrânia, a geografia assim o justificava, situada entre a Rússia – de que a separa uma longa linha de fronteira de mais de 1900 quilómetros – e o oeste europeu.

A prometida neutralidade da Ucrânia revelou-se, no entanto, difícil de compatibilizar nos anos seguintes com a necessidade deste país se afirmar no xadrez político europeu. Uma afirmação difícil, pelo facto de se ter mostrado incapaz de definir uma política externa consistente, como sublinhou Viktoria Potapkina em 2010, no artigo “Ukrainian Neutrality: Myth or Reality?”. Se, por um lado, se aproximava da União Europeia e da NATO, por outro, os estreitos laços históricos, culturais e económicos com a Rússia justificavam um desejo nostálgico de continuar a ligação a esse país.

Contudo, os acontecimentos de 2014 – o afastamento do presidente Viktor Yanukovych, após ter cedido à pressão de Moscovo para não assinar o acordo de associação com a União Europeia, a anexação da Crimeia pela Rússia, a rebelião na região de Dombas, no leste da Ucrânia, maioritariamente russófona, com o apoio daquele país – aproximaram a Ucrânia da União Europeia e da NATO de uma forma mais determinada. A tensão entre a Rússia e a Ucrânia agravou-se.

Perante a recusa do Ocidente em aceitar as exigências apresentadas por Moscovo em dezembro de  2021 – a garantia do não-alargamento da NATO a mais países do Leste europeu, a retirada de tropas e equipamentos estrangeiros dos países que se tornaram membros dessa organização militar nos alargamentos de 1999 e 2004; o deslocamento para posições mais afastadas da Rússia dos sistemas de mísseis de longo e médio alcance; e a renúncia dos EUA a toda a cooperação militar com a Ucrânia e outros antigos países soviéticos que não são membros da NATO –, a Rússia iniciou em 24 de fevereiro a invasão da Ucrânia, alegando a necessidade de “desmilitarizar e desnazificar” este país. Para o Presidente dos EUA, o objetivo de Putin é o de restabelecer a zona de influência da União Soviética.

Desta guerra de desfecho imprevisível, é apenas certo que a Europa e o Mundo não voltarão a ser o que eram. A invasão da Ucrânia pela Rússia marca o fim de uma época e o início de uma outra sobre a qual se levantam muitas interrogações. Não, a História não se repete, mas a dor e o sofrimento das pessoas que vemos nas imagens que todos os dias entram em nossas casas, esses, sem sombra de dúvida, são os mesmos de outras guerras e de outras épocas.

 

Isilda Monteiro é professora da Escola Superior de Educação Paula Frassinetti e investigadora do CITCEM (Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória») vocacionado para a investigação no domínio das Humanidades.

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