Eis o título de um livro, tão provocador como o seu ousado conteúdo, posto nas livrarias pela Paulinas Editora.
Filomeno Lopes, nascido na Guiné-Bissau e a viver em Itália, publicou esta obra com um prefácio à edição portuguesa (do cardeal Tolentino Mendonça), um prólogo (de Leonardo Boff), um preâmbulo (de Marcos Carvalho Lopes) e ainda um posfácio (de Patrícia Godinho Gomes).
Trata-se de uma carta aberta aos jovens de Itália (e do resto do mundo), alertando-os para a realidade do racismo, propondo caminhos de ultrapassagem desta frontal violação dos direitos humanos. São onze os pequenos capítulos em que esta obra de reflexão se divide. Com uma ironia que se lhe reconhece, explicando o conceito de racistas amadores, Filomeno sugere: “Se quereis ser racistas, pelo menos tentai sê-lo seriamente, informando-vos adequadamente, mas sobretudo estudando atentamente o fenómeno, e ouvindo a voz, o grito das vítimas passadas e presentes deste cancro da história europeia e mundial” (página 49). Ou seja, pelo menos não tenham atitudes racistas, sem aprofundarem o que é o racismo, não sejam racistas sem saberem o que isso significa e o impacto que o racismo teve na história e continua a ter na vida de muita gente…
O autor nasceu na Guiné-Bissau, é jornalista da Rádio Vaticano e doutorado em Filosofia e Ciências de Comunicação Social. Publicou já várias obras sobre a filosofia africana como Filosofia em Volta do Fogo (2001), Filosofia Sem Feitiço (2004), E Se a África Desaparecesse do Mapa Mundo? – Uma reflexão filosófica (2009), Da Mediocridade à Excelência: reflexões filosóficas de um imigrante africano (2015), Filodramática: os Palop, entre a filosofia e a crise de consciência histórica (2019) e Non Amo i Razzisti Dilettanti (2020), versão original da obra agora publicada em Portugal.
As convicções antropológicas de Filomeno Lopes vêm constantemente ao de cima: “somos todos corresponsáveis pelas vidas uns dos outros; todos guardiões das nossas vidas na História, mas ninguém é dono ou dona da vida dos outros” (55). Pois “o país em que vivemos é como o Jardim do Éden que somos chamados a guardar e a construir, dando o melhor do nosso carisma e dos nossos talentos” (60).
As raízes da humanidade e a reescrita do dicionário

Crianças africanas: “Apagai, para sempre, as palavras Negro/a, Preto/a, de cor, da vossa gramática da e convivência cultural humana.” Foto © Tony Neves
O autor, africano, há muito tempo a viver em território europeu, não aceita que se cultive um individualismo que mata ou segrega. No capítulo “Da ‘noite’ do ‘nós outro/as’ à aurora do ‘nós somos juntos”, recorda que, “na África, Amadu Hampaté Bá avisa que cada idoso que morre é uma biblioteca que arde” (83). E conclui: “se, então, seremos capazes de cultivar este ‘nós somos juntos’, se conseguirmos amar-nos como simples seres humanos unidos, seja pela mesma origem, dignidade e destino, seja pela mesma vocação ineludível de conviver com a vida, enquanto estamos na viagem que nos levará para além da morte, e então, diz-nos Roberto Mancini, estaremos salvos” (92).
O racismo trespassa o tecido social em todos os quadrantes do planeta. Há, por isso, uma luta a levar por diante, a começar pelo combate a certos dicionários. Pede: “Somos seres humanos para todos os efeitos. Apagai, para sempre, as palavras Negro/a, Preto/a, de cor, do vosso vocabulário e gramática da política saudável e convivência cultural humana. Ou, se decidirem permanecer racistas, pelo menos não sejais racistas amadores” (117).
Ao abordar o tema da Negritude e a sua batalha cultural e política, conclui: “não existe nada de patriótico na defesa de um crime contra a humanidade como o racismo. Um patriota ama e luta para fortalecer, no seu país, as mais altas virtudes da dignidade humana, não para trazê-las de volta à institucionalização da imbecilidade confundida com o progresso ou com a liberdade” (146).
Há um longo caminho a percorrer rumo a uma humanidade onde todos contam por igual, onde as pessoas veem reconhecidos os seus direitos e dignidade de humanos. Por isso, Filomeno Lopes escreve no último capítulo: “o sofrimento alheio, sobretudo o das vítimas do racismo, costuma a ser subestimado em Itália e em muitos outros países da Europa ocidental e oriental. Este já não suscita indignação nem entre cristãos, quase encontra uma espécie de resignação ou, pior ainda, de endurecimento na indiferença globalizada. Eis o que é a mundialização da indiferença, denunciada com rigor e lucidez pelo Papa Francisco’ (163).
O racismo mata

Crianças num bairro periférico do Lobito (Angola): ‘O racismo mata, porque desumaniza, torna invisíveis os visíveis, transforma seres humanos em fantasmas e tira qualquer possibilidade de comunicação e de interação”. Foto © Tony Neves
Patrícia Godinho Gomes, também da Guiné-Bissau, a residir no Brasil, defende que, “para falar sobre qualquer assunto, é preciso conhecer, ler, estudar e refletir. Não se pode mais ser ‘amadores’ nas questões sérias e fundamentais da vida. E o racismo é um problema fundamental do nosso tempo” (168). Denunciando os efeitos perversos das mentalidades e práticas racistas, atira: ‘O racismo mata, porque desumaniza, torna invisíveis os visíveis, transforma seres humanos em fantasmas e tira qualquer possibilidade de comunicação e de interação” (169).
Leonardo Boff, conhecido nome da Teologia da Libertação, apela à comunhão das pessoas como essência do ser humano e caminho de felicidade. Diz que “todo o esforço do autor é mostrar aos jovens os grandes valores das culturas africanas, especialmente ao redor do conceito de Ubuntu: “eu sou eu através e contigo; eu sou porque nós somos; a vida é sempre com os outros; o ser humano é o remédio do outro ser humano’. É o ser juntos, a comunhão do ‘nós somos’ que funda a ‘comunhão de destino” (12).
O cardeal Tolentino Mendonça, no prefácio à edição portuguesa, resume: ‘o caminho que o nosso autor segue é aquele traçado por Mandela, mostrando como o cancro do racismo se infiltrou na sociedade devido aos ‘mestres’ que, consciente ou inconscientemente, ensinaram a odiar. Mas a inversão deste devastador sentimento, tornado cultura da exclusão, é possível e necessário. Filomeno Lopes dirige-se diretamente às crianças e aos jovens de hoje com palavras sentidas, incitando-os a refletir sobre o fenómeno do racismo: ‘o meu objetivo com este texto é fazer com que nenhum de vós possa continuar a dizer ’eu não sabia’” (página 6).
Não amo os racistas amadores, de Filomeno Lopes
Paulinas Editora, 2024
176 páginas, €12.50
Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), congregação de que é membro.










