Não ao arame farpado do ódio: o grito do Papa num discurso “fora da caixa”

| 3 Dez 21

Ao partir de Chipre, este sábado, 4, rumo à Grécia, o Papa Francisco deixa uma sementeira rica de desafios e imprevisível quanto aos frutos. Do segundo dia da visita fica a denúncia dos novos “campos de concentração” de migrantes e o grito contra o arame farpado do ódio. Indo das palavras aos atos, com ele levará 50 refugiados que o acompanharão para Roma.

 

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Na catedral ortodoxa de Nicósia, Francisco ouviu atentamente o patriarca Crisóstomo II. Foto © Ministério do Interior da República de Chipre.

 

 

O dia começou cedo. Na catedral ortodoxa de Nicósia decorreu o encontro com o Sínodo, a mais alta instância da Igreja Ortodoxa local. Aí, o Papa ouviu atentamente o patriarca Crisóstomo II fazer uma denúncia acutilante das violências que disse virem a ser praticadas pelas autoridades turcas, desde 1974, na parte ocupada da pequena ilha, com impactos grandes no património material e imaterial do religioso. A ajuda que pediu ao Papa nesta causa não teve resposta (e talvez não fosse o local para a ter), ainda que o desafio tenha sido lançado. Por sua vez, Francisco recordou a origem apostólica comum das duas igrejas cristãs (com os apóstolos Paulo e Barnabé), e desafiou os ortodoxos a “gestos de ousadia” na busca da “comunhão” eclesial.

Ainda da parte da manhã, num estádio da capital, milhares de pessoas celebraram a eucaristia com o Papa, num dia em que se evocava S. Francisco Xavier e o evangelho recordava o episódio da cura de dois cegos que, juntos, seguiam Jesus e que, quando curados, foram anunciar “o que viram”. Sobre este anúncio de Jesus, e num contexto em que os católicos são minoria, o Papa aconselhou: “Não se trata de proselitismo (por favor, nunca façamos proselitismo), mas de testemunho; nem dum moralismo que condena (não, não façamos isto), mas de misericórdia que abraça; nem de culto exterior, mas de amor vivido. Encorajo-vos a prosseguir por este caminho.”

À tarde, decorreu outro ponto alto da visita, com a oração ecuménica com migrantes, na igreja paroquial da Santa Cruz de Nicósia. Chipre, apesar de ser uma ilha, é tida pelo país que mais migrantes recebe – e das mais diversas proveniências. Nucleares foram os testemunhos de quatro jovens de diferentes continentes, que serviram, de resto, como leitmotiv do discurso do Papa que, naturalmente, soube por antecipação do seu conteúdo.

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A oração ecuménica com migrantes, na igreja paroquial da Santa Cruz de Nicósia, foi um dos pontos altos da visita. Foto © Ministério do Interior da República de Chipre.

 

O discurso de Francisco tocou os temas habituais nestas circunstâncias, sublinhando facetas de cada um dos jovens que haviam falado. Como é típico do Papa, foram vários os incisos no texto pré-distribuído. Porém, já na reta final, aconteceu algo que é invulgar: Francisco, como que insatisfeito com o que havia dito, ao terminar, juntou os papéis e continuou a falar. E, no entanto, o que disse extra-discurso, não foi meramente um desenvolvimento ou um aparte. Coloca questões novas que correspondem àquilo que ele diz ser “o que tem no coração”. Por isso mesmo, e porque o texto completo não está, por enquanto, disponível, o 7MARGENS aqui do deixa, na íntegra.

 

É preciso lutar contra a habituação à tragédia

“Escutando hoje os vossos testemunhos, olhando os vossos rostos, a memória vai além, ao sofrimento.

Vocês chegaram aqui. Mas quantos dos vossos irmãos, das vossas irmãs ficaram pelo caminho? Quantos, desesperados, deitaram os pés ao caminho em condições difíceis, precárias, e não puderam chegar? Podemos falar desse Mar [Mediterrâneo] que se tornou um grande cemitério.

Olhando para vocês, vejo o sofrimento do caminho. Tantos que foram sequestrados, vendidos, explorados e ainda continuam no caminho, sem que saibamos onde. É a história de uma escravidão, de uma escravidão universal.

Nós vemos o que acontece, mas o pior é que nos estamos a acostumar a isso. Hoje afunda-se um barco e … tantos desaparecidos. Mas reparem bem: este habituar-se é uma doença grave, muito grave, para a qual não existe antibiótico. É preciso lutar contra esse vício da habituação às leis dessas tragédias nos jornais e nos meios de comunicação.

Olhando para vocês penso em tantos que tiveram de voltar, que foram rejeitados e que acabaram em verdadeiros lager [campo de concentração], onde as mulheres são vendidas, os homens torturados, escravizados.

Nós lamentamo-nos quando lemos as histórias dos lager dos nazis ou de Stalin [e comentamos]: como pôde acontecer isso? Meus irmãos, isto está a acontecer hoje, em faixas costeiras próximas [daqui], lugares de escravidão. Vi algumas cenas filmadas sobre isso, lugares de tortura e de venda de pessoas.

Digo isto porque é responsabilidade minha ajudar a abrir os olhos.

A emigração forçada não é um hábito turístico. O pecado que temos dentro leva-nos a pensar assim: “Pobre gente!”. E com esta “”pobre gente” cancelamos tudo.

Esta é a guerra do momento. É o sofrimento de irmãos e irmãs sobre os quais nós não podemos ficar calados. Aqueles que deram tudo o que tinham para subir para um barco, de noite, sem saberem se vão chegar ou não … e muitos acabam depois nos lager, em postos de prisão, tortura e escravidão.

Esta é a história dessa civilização desenvolvida a que chamamos Ocidente.

E depois…

… desculpem-me por querer dizer o que tenho no coração – para rezarmos uns pelos outros, para fazer algo … também sobre os arames farpados. (Olhando para o exterior da igreja) Daqui estou a ver um. Isto [no caso de Chipre] é uma guerra de ódio de um país. Mas… arame farpado noutras partes, que se coloca para não deixar entrar o refugiado, aquele que vem pedir liberdade, pão, ajuda, fraternidade, alegria?! Está a fugir do ódio e que encontra ele diante de si? O ódio que se chama arame farpado.

Que o Senhor desperte a consciência diante de todas estas coisas. E desculpem-me se eu disse as coisas como são. Mas não as podemos calar e olhar para o outro lado, nesta cultura de indiferença.”

 

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