“Não atirem sobre os jovens. Matai-me antes a mim” – implora freira à polícia birmanesa

| 2 Mar 21

freira, Birmânia, Myanmar, militares, religiosa

“Momento Tiananmen” da Birmânia, comentou o cardeal Bo. Foto: Direitos reservados.

 

Um nome, Ann Rosa Nu Thawng, e uma poderosa imagem estão a percorrer o mundo, chamando a atenção para a violência policial sobre manifestantes pacíficos que contestam o golpe de estado de há um mês, das forças armadas da Birmânia: uma freira, ajoelhada diante do pelotão da polícia, implora: “Não atirem sobre estas vidas jovens. Matai-me antes a mim”.

O caso é relatado pelo diário vaticano L’Osservatore Romano desta terça-feira, 2:

“A Ir. Ann Nu Thawng, religiosa da Ordem de S. Francisco Xavier – congregação de direito diocesano na diocese de Myityina, no norte da Birmânia –, tinha até então permanecido entre as paredes do seu convento, apoiando com o silêncio, a oração, o encorajamento espiritual, aqueles jovens que desfilavam apaixonados pelas ruas, pedindo liberdade e democracia. Olhava-os com atitude materna e o afeto discreto que os adultos dirigem aos adolescentes e aos jovens tão repletos de ideais, de sonhos, de energias voltadas para o bem. [Nesta segunda-feira, dia 1], no entanto, sem delongas, transformou esse apoio moral numa ação corajosa que se revelou decisiva para evitar uma carnificina.”

Este foi também o dia em que a crescente tensão que se vinha sentindo, e que o 7MARGENS tinha recentemente documentado, subiu para a violência das armas do lado das forças policiais, que não hesitaram em abrir fogo com balas reais, matando e ferindo dezenas de jovens. Até o embaixador do país nas Nações Unidas se colocou ao lado dos cidadãos, criticando duramente os militares que usurparam o poder.

O caso da Ir. Ann Rosa deu-se quando a manifestação passou junto ao convento das irmãs que, ali ao lado, se responsabilizam por um dispensário e um serviço de saúde para os mais carenciados. Ao ouvirem os disparos vieram para a porta. Vendo as cenas de violência e escutando os gritos, a Ir. Ann Rosa exclamou: “O amor de Cristo chama” e intrometeu-se entre os jovens e a polícia. Caminhou na direção desta e ao aproximar-se, ajoelhou-se e, segundo relatos de circunstantes, apelou: “Não disparem, não matem sangue inocente. Se quiserem, atinjam-me a mim.”

O gesto terá surpreendido os agentes, que se detiveram na sua marcha. A suspensão permitiu que largas dezenas de jovens se refugiassem no espaço do convento e algumas dezenas de feridos tivessem sido atendidos nos serviços de saúde das religiosas. A manifestação terminou, tal como a violência.

O cardeal Charles Bo tem estado assumidamente ao lado do povo, ainda que procurando manter canais abertos para contactos. Foi eloquente no enaltecimento do gesto profético e de coragem da religiosa Ann Rosa. Num dos tweets em que se vê um grande cartaz com os nomes das diferentes confissões religiosas dispostos de tal modo que completam a palavra “Justice”, ele escreveu: “Se pensam que a religião não tem nada a ver com política, não fazem ideia do que é a religião.” Num outro comentava que o país tivera o seu momento Tiananmen, numa alusão ao jovem que, em junho de 1989, se colocou diante dos tanques que esmagaram as manifestações pró-demicarcia em Pequim.

Entretanto, a ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) preparava-se esta terça-feira para negociações por videoconferência com representantes da junta militar que controla o poder em Rangum.

 

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