“Não é a religião que gera violência, mas o nível de apropriação que cada indivíduo faz da mesma”
Afirmar que a religião leva à violência não é só uma simplificação mas também uma generalização: “A religião gera violência, mas também gera paz. Podemos dizer que há uma ambiguidade profunda no fenómeno religioso e na relação com o sagrado que é preciso ser pensada. Não é a religião por si que gera violência, mas o nível de apropriação que cada indivíduo faz da mesma”.
A afirmação é de José Rosa, professor na Universidade da Beira Interior (UBI) e um dos organizadores do colóquio internacional Religião e Violência, que nestas quinta e sexta-feira, dias 29 e 30 de Novembro, decorrerá na UBI, na Covilhã.
Com convidados de variadas áreas profissionais, portugueses e estrangeiros, o objectivo do colóquio é debater a relação entre a violência e o fenómeno religioso – “o homo religiosus é também homo periculosus”, o homem religioso é também um homem perigoso –, discutindo a pertinência de textos sagrados na génese desta mesma violência e das radicalizações que ocorrem em todas as religiões.
José Rosa salienta que a importância deste colóquio não é estabelecer uma relação única e direta entre os dois termos, mas questionar todos os tipos de relação que se podem estabelecer: “É uma questão profundamente atual, que está em cima da mesa desde pelo menos 2001, aquando dos ataques do 11 de Setembro.”
A ideia é centrar o debate na relação da religião com a política, o atual panorama dos estudos religiosos ou da relação entre religião e sacrifício. Será também salientada a disparidade entre os textos sagrados e o modo como os mesmos são interpretados, fruto de muitos conflitos religiosos: “Alguns crentes consideram-se investidos de uma missão divina de fazer violência em nome de Deus. Isto é uma má interpretação que não traduz uma mensagem sagrada” comenta José Rosa. E acrescenta: “Curiosamente, no Alcorão há uma passagem onde se diz que ninguém deve ser sujeito à coação em termos de fé. Só que existe um princípio, também no Alcorão, da abrogação em que versículos que vêm depois anulam os anteriores.”
Este, comenta o investigador, é apenas um dos muitos exemplos que se podem colocar de apropriação do religioso. E é um dos temas a debater, logo no primeiro painel (Religião e Violência. Problematicidade de um nexo, nesta quinta às 14h30), que conta com a participação, além de José Rosa e de Artur Morão (investigador e tradutor), também do pastor presbiteriano Dimas Almeida e de Sami Aldeeb. “É o maior especialista do Ocidente no âmbito dos direitos islâmicos e vai falar-nos sobre as razões de o islão provocar violência e qual a terapia para isso”, diz José Rosa, acerca de Aldeeb, um professor palestiniano que vem da Suíça, e que é neste momento a única pessoa do mundo que já traduziu o Alcorão para três línguas (italiano, francês e inglês).
Sexta-feira, participam ainda, entre outros, António Amaral (professor de Filosofia na UBI), Alfredo Teixeira (diretor do Instituto de Estudos da religião da Universidade católica Portuguesa) ou Joshua Ruah (médico e membro da Comunidade Judaica de Lisboa).
Este projeto, diz José Rosa, foi pensado num ciclo de outros temas que serão desenvolvidos ao longo dos próximos quatro ou cinco anos, como é caso da violência de género na religião para com as mulheres ou a violência de textos sagrados sobre alteração de estratos sociais.
O programa completo do colóquio pode ser consultado aqui
Breves
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