Não esquecer a memória

| 20 Set 20

Frei Mateus Peres

Frei Mateus Peres: “Um intelectual rigoroso mas estimulante, avesso às simplificações.” Foto © Ordem dos Pregadores

 

Não lembrei pessoalmente nestas páginas ainda a partida de Frei Mateus Cardoso Peres, O.P. (1933-2020), personalidade fascinante com uma rica obra de apostolado e de reflexão, e devo fazê-lo. Conheci-o bem e tenho pela sua vida e ação uma grande estima. O grupo de que fez parte dos “católicos inconformistas” integrou alguns dos meus grandes amigos, como António Alçada Baptista, Helena e Alberto Vaz da Silva e João Bénard da Costa – num conjunto mais vasto de quem sempre estive próximo, entre os quais se contam Pedro Tamen, Maria Isabel Bénard da Costa, Nuno Bragança, Ruy Belo, M.S. Lourenço, Manuel Lucena, Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Falo da Aventura da Morais, de O Tempo e o Modo, da revista Concilium, do Centro Cultural de Cinema (CCC) e do Centro Nacional de Cultura.

Houve trajetórias diferenciadas, mas também muitos frutos com efeitos de longo prazo, que não podemos esquecer… Se há quem continue a resistir ao entendimento sobre a importância dos sinais dos tempos, a verdade é que continua atual esse combate sereno e persistente não por uma Igreja triunfante, mas por um caminho cristão de respeito mútuo e de dignidade. Frei Mateus era um intelectual rigoroso mas estimulante, avesso às simplificações. Com ele sabíamos que a dignidade da pessoa humana exige procura e que o diálogo só vale a pena se for trabalhoso… Sempre nos ensinou, por isso, que a teologia obriga a conhecimento e a ir além da superficialidade – o aggiornamento obrigou a tempo e a reflexão. Daí a importância dos célebres colóquios da revista Concilium: refletindo com teólogos como Schillebeeckx, Chenu, Congar ou Balthasar… Frei Mateus conhecia bem as audácias de S. Tomás de Aquino, distantes de qualquer lógica conformista. E quando o lembramos temos de apelar a uma atitude saudavelmente livre e aberta…

Há dias, em ambiente académico, na Universidade Aberta, em diálogo com o Professor Padre Javier Sancho Fermín, invocámos a tradição carmelita de Santa Teresa de Jesus e de S. João da Cruz, a propósito de Edith Stein (1891-1942), proclamada pelo Papa S. João Paulo II, uma das padroeiras da Europa. Filósofa, discípula de Edmund Husserl e de Max Scheler, teóloga, convertida ao catolicismo, religiosa morta no campo de concentração de Auschwitz – o seu percurso é extremamente rico e permite-nos compreender a um tempo a reflexão e o compromisso.

Edith Stein

Edith Stein, antes de entrar para as carmelitas: ela “reúne no seu exemplo o ser e o agir, a dignidade e a coerência, a vontade e o compromisso”. Foto: Direitos reservados.

 

Edith Stein exigiu de si e em si a compreensão da eminente dignidade humana. Por isso, quis partilhar as agruras e o sofrimento da Primeira Guerra Mundial como enfermeira da Cruz Vermelha, procurando a singularidade da pessoa humana no respeito mútuo, na entreajuda e no compromisso. No fundo, desejar conhecer a verdade, isto é, captar a essência do Espírito, e realizar o bem, obriga a proceder sempre em coerência com os valores éticos, o bom, o belo, o justo e o verdadeiro. A singularidade constrói-se em relação, na troca, na não indiferença. Pessoa vem de máscara, e corresponde ao modo de identificar a personagem no teatro – e de garantir a síntese fecunda de corpo, alma e espírito. Assim, Edith Stein estudou e aprofundou a ideia de “empatia”, como capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. O amor, agapé, pressupõe partilha e entrega… O outro é a outra metade de nós. Não podemos viver sós, distantes.

Nestes tempos de confinamento, precisamos de recuperar a ligação aos outros. Como disse Paul Ricoeur, a solidariedade faz-se com sócios e a caridade com próximos. Pessoa e comunidade, singularidade e bem comum, ligam-se naturalmente. Daí a analogia entre a Alma humana e o Castelo, tão repetida por Stein, seguindo as lições de Teresa de Ávila. A interioridade não pode ater-se ao isolamento e ao fechamento. Somos chamados a sair de nós, para nos compreendermos. O ser livre e espiritual torna-se próximo. E só pode haver proximidade, se nos dermos e recebermos.

Santa Teresa Benedita da Cruz [Edith Stein] reúne, deste modo no seu exemplo o ser e o agir, a dignidade e a coerência, a vontade e o compromisso. Para a filósofa, contruímos o nosso mundo, num certo sentido. Mas temos de considerar os dois lados do conhecer – as coisas e o modo de pensar. Idealismo e realismo cruzam-se. Mas só a minha própria existência é absoluta. É absoluta para mim mas não para outro ser humano. Por isso, o meu ser não é “absoluto” num sentido pleno. Transcendo-me a mim, em dois sentidos. Vou além de mim no sentido das coisas que conheço, e vou além delas e de mim no sentido de um “princípio” que fundamenta o ser tanto das coisas como do meu próprio ser. Em suma, sou absoluto em comparação com as coisas e os sujeitos que conheço, mas não em comparação com Deus. Na minha vida consciente e livre transcendo-me até à objetividade do mundo, para além da minha subjetividade e no sentido quer da objetividade do mundo quer da subjetividade pessoal. E ouvimos S. Paulo: “Ninguém dentre vós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos, se morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor” (Rom, 14, 7-8).

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 

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Breves

Fátima entra no Inverno e mantém restrições novidade

O Santuário de Fátima anunciou que, a partir do próximo dia 1 de Novembro, domingo, entra em vigor o horário de Inverno do programa celebrativo na instituição, mantendo entretanto em vigor as regras definias pelas autoridades de saúde para o combate à pandemia.

Uma viagem global pela santidade com o padre Adelino Ascenso

Do Tibete a Varanasi e ao Líbano, do budismo ao cristianismo, passando pelo hinduísmo. Uma viagem pela santidade em tempos de globalização é o que irá propor o padre Adelino Ascenso, no âmbito do Seminário Internacional de Estudos Globais, numa sessão presencial e em vídeo.

Uma “Teo Conversa” no Facebook

A propósito da nova revista de Teologia Ad Aeternum, a área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona vai iniciar nesta quinta-feira, 29, às 22h (19h em Brasília) um conjunto de debates em vídeo, que podem ser acompanhados na respectiva página no Facebook. 

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A decisão foi anunciada esta segunda-feira, 12 de outubro, pela vice-presidente de política de conteúdos do Facebook, Monika Bickert, e confirmada pelo próprio dono e fundador da rede social, Mark Zuckerberg: face ao crescimento das manifestações de antissemitismo online, o Facebook irá banir “qualquer conteúdo que negue ou distorça o Holocausto”.

É notícia

Luto nacional a 2 de novembro, missa pelas vítimas da pandemia no dia 14

O Conselho de Ministros aprovou esta quinta-feira, 22, o decreto que declara a próxima segunda-feira, 2 de novembro, dia de luto nacional “como forma de prestar homenagem a todos os falecidos, em especial às vítimas da pandemia”. No próximo dia 14 de novembro, será a vez de a Conferência Episcopal Portuguesa celebrar uma eucaristia de sufrágio pelas pessoas que já faleceram devido à covid-19 no nosso país.

Camarões: Padre jesuíta detido por fazer uma peregrinação a pé

Ludovic Lado, um padre jesuíta que se preparava para iniciar, sozinho e a pé, uma “peregrinação pela paz” entre as cidades de Japoma e Yaoundé, capital dos Camarões, foi detido pela polícia, que o acusou de estar a praticar uma “atividade ilegal na via pública”. O padre foi depois submetido a um interrogatório, onde o questionaram sobre eventuais motivações políticas e lhe perguntaram especificamente se era apoiante do líder da oposição, Maurice Kamto.

Entre margens

“Fratelli Tutti”: Corajoso apelo novidade

Paul Ricoeur distingue nesse ponto a solidariedade e o cuidado ou caridade. Se a solidariedade é necessária, não pode reduzir-se a uma mera lógica assistencial. É preciso cuidar. Se as políticas de Segurança Social têm de se aperfeiçoar, a sociedade é chamada a organizar-se para o cuidado de quem está só ou está a ficar para trás.

Este país ainda não é para velhos

A pandemia só veio tornar evidente o abandono social dos mais velhos. Colocar um familiar num lar de idosos tornou-se potencialmente perigoso, por isso há que apostar num novo modelo de respostas sociais para os seniores.

Uma espiritualidade com ou sem Deus?

Sempre que o Homem procura ser o centro-de-si-mesmo, o individualismo e o relativismo crescem gerando o autoconsumo de si mesmo. Espiritualmente, há uma espiral autocentrada presente nos livros de autoajuda e desenvolvimento pessoal, que na bondade da intenção, não têm a capacidade de ajudar a sair de um ciclo vicioso egoísta e possessivo. No vazio cabem sempre muitas coisas, mas nenhuma se encaixa verdadeiramente.

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Museus do Vaticano com cursos e iniciativas online

Os Patronos de Artes dos Museus do Vaticano lançaram uma série de iniciativas e cursos em vídeo, que incluem conferências ao vivo ou uma “hora do café” de perguntas e respostas com especialistas. O objectivo é que os participantes e apoiantes dos museus permaneçam ligados durante a pandemia.

O capitalismo não gosta da calma (nem da contemplação religiosa)

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Documentário sobre Ferreira d’Almeida disponível na RTP Play

O documentário abre com Carlos Fiolhais professor de Física na Universidade de Coimbra, a recordar que a Bíblia é o livro mais traduzido e divulgado de sempre – também na língua portuguesa. E que frases conhecidas como “No princípio criou Deus o céu e a terra” têm, em português, um responsável maior: João Ferreira Annes d’Almeida, o primeiro tradutor da Bíblia para português, trabalho que realizou no Oriente, para onde foi ainda jovem e onde acabaria por morrer.

Uma simples prece

Nem todos somos chamados a um grande destino/ Mas cada um de nós faz parte de um mistério maior/ Mesmo que a nossa existência pareça irrelevante/ Tu recolhes-te em cada gesto e interrogação

Sete Partidas

Outono em Washington DC: cores quentes, cidade segregada

Vou jantar fora com um grupo de amigas, algo que parece impensável nos dias que correm, e fico deslumbrada com o ambiente que se vive nas ruas, deparo-me com inúmeros bancos de jardim que agora se transformaram em casa para alguém, algumas tendas de campismo montadas em Dupont Circle, a rotunda que define a fronteira invisível entre ricos e pobres.

Aquele que habita os céus sorri

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