Não façam do racismo um mantra

| 24 Jan 20

Tal como o feminismo ou os direitos de qualquer minoria, o combate ao racismo pode ficar a perder quando se torna uma espécie de prática religiosa sectária, sem discernimento nem bom senso.

O caso dos jovens recentemente assassinados é paradigmático. Um era branco e foi assassinado por negros na sequência dum assalto em Lisboa, e o outro era negro e terá sido assassinado por brancos na cidade de Bragança. Há quem se apresse a classificar de racista a morte do jovem cabo-verdiano mas cale o eventual racismo no assassínio do jovem lisboeta.

Sejamos sérios. Nada leva a crer que a morte de Pedro, estudante em Lisboa, tenha sido por motivação racista, mas apenas na sequência dum assalto que correu mal. No caso de Giovani, terá sido fruto dum desentendimento num estabelecimento de diversão nocturna e, segundo a Polícia Judiciária, o motivo terá sido fútil e não ódio racial. Clamar por crime de ódio num incidente destes é uma tolice perigosa. Mas alguns fizeram-no na linha do mantra cultural que hoje vemos. O certo é que esses mesmos calaram a morte de Pedro sabendo-se que os seus três assassinos são negros.

Pedro e Giovani eram jovens e estudantes. A cor da pele é que era diferente. Nada nos permite valorizar mais a vida de um do que do outro. Nada nos permite (para já) invocar o racismo como motivação do assassinato de um ou de outro. Um foi esfaqueado por três assaltantes, o outro terá sido espancado brutalmente por um grupo de idiotas. Por um trágico acaso a morte dos dois jovens estudantes diferiu poucos dias, mas o sangue de ambos era vermelho e a dor da família de um e do outro deve ser muito semelhante.

Joacine Moreira – a inenarrável deputada do Livre (até ver) – tem prestado um mau serviço tanto à igualdade de género como à causa anti-racista, pelos exageros e falta de bom senso que tem evidenciado de forma recorrente em inúmeros episódios. A luta pela justiça social e a defesa das minorias não pode ser transformada numa espécie de religião dogmática. As palavras e atitudes de alguns dos seus protagonistas fazem mais por crispar os que não se empenham nelas do que o contrário. No fundo, Joacines e Mamadous Ba só atrapalham a luta conta o racismo. Até a empresária angolana Isabel dos Santos, filha do ex-presidente José Eduardo dos Santos, vem agora acusar o Expresso e a SIC de racismo, ao sentir-se cercada e expostos os alegados crimes económicos cometidos contra o seu país.

Reza Aslan diz que “As coisas que odiamos na nossa religião são apenas um reflexo das coisas que odiamos em nós mesmos”. Se assim for, para os que fazem do anti-racismo a sua religião, então compreendem-se um pouco melhor certas mensagens e comportamentos. Até porque, infelizmente, o racismo tem muitas cores.

António Gedeão discorreu de forma simples, mas magistral, sobre o racismo no célebre poema “Lágrima de preta” (1961). O sujeito poético vai descrevendo as diversas fases da análise química duma simples lágrima e conclui:

 

Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.

 

António Gedeão era pseudónimo poético de Rómulo de Carvalho (1906-1997), professor de Física e Química. Daí a sua tendência para mostrar que os seres humanos são todos iguais, independentemente da cor da sua pele, visto não existirem diferenças da composição química entre indivíduos de cores diferentes. Mais. O poema aponta essencialmente para o facto de que o sofrimento nada tem que ver com diferenças étnicas (“Encontrei uma preta /que estava a chorar, / pedi-lhe uma lágrima / para a analisar”). Tanto sofre um caucasiano como um negro, um índio ou um asiático. A forma de expressar as emoções é que será diferente, mercê das influências culturais e da personalidade própria de cada um.

Gedeão escreveu na fase das guerras de libertação dos povos africanos, que aspiravam ao legítimo direito de autodeterminação, e poucos anos depois do horror nazi que considerava alguns povos, etnias e minorias como seres humanos inferiores, e que se dedicava a experiências desumanas com homens, mulheres, crianças e grávidas dando-se ao direito de assassinar milhões deles nas câmaras de gás.

O que será preciso mais para o mundo entender que estamos todos no mesmo barco chamado Humanidade? A fé cristã podia ser essa base já que a mensagem de Cristo é universalista, dirigida a todos os povos e nações: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). O problema é que os cristãos acabaram muitas vezes por passar ao lado do genuíno espírito de Jesus, ao transformar a proposta do Evangelho (“quem crer”) numa imposição pela força da espada ou da lei e estragaram tudo. Mas sejamos justos. Não terão sido os únicos a cair no erro de confundir a essência da sua fé.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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