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Não fazias falta nenhuma (ténue é a memória do homem)

| 09/04/2020

Não fazias falta nenhuma (ténue é a memória do homem)

by | 9 Abr 20

Muitas teorias se têm lançado acerca da utilidade ou, pelo menos, da pertinência do novo coronavírus. Muitos textos, dissertações, vídeos impressionantes se têm produzido a acompanhar os relatos idiossincráticos dos pensadores pela sua cabeça e dos pseudopensadores, plagiadores fanáticos do material alheio.

No meio de tudo isto, em tempo de contenção, vale a pena desafiarmo-nos a pensar onde estávamos nós? O que sabíamos? O que ignorávamos? O que fazíamos? Estávamos cada um na sua.

Todos sabíamos diagnosticar a nossa sociedade, mas todos alinhávamos no corrupio que ela nos impunha.

Preferíamos ignorar que a primeira grande pandemia do século XXI era a inevitável pressa que nos impunha a negação da constância do nosso preferencial caldo existencial – o tempo. Esse que não para, não acelera, não muda o ritmo em circunstância alguma; enfim, esse que é irritantemente monótono, mas desmesuradamente fiel e, talvez, tristemente rotineiro.

Não fazíamos gestos de boa vontade, não tínhamos motivação para cedências nem sequer lucidez para tentar salvar o planeta.

As gôndolas e os vaporetos, por exemplo, não podiam parar por nenhuma razão, mas, agora que pararam à força, os canais estão límpidos e até têm peixes.

O céu de algumas cidades, apenas cinzento, vai-se tornando, pouco a pouco, azul. Os cheiros pestilentos de tantas outras estão dissipados como que por magia.

De facto, não éramos capazes de defender o ambiente, para além de iniciativas histriónicas, tantas vezes irresponsáveis, que entusiasmaram aqueles que foram incapazes de desagradar ao que parecia bem, vanguardista e moderno.

Não. Não conseguíamos a coragem para nos afastarmos dos desfiles de poderosas influências nos quais todos brilhámos, aqui ou ali, por quase coisa nenhuma.

Agora, para exorcizarmos o vírus, vamos procurando reduzir a nossa dissonância ao explicar qual é a sua função – tornar-nos mais próximos, mais humildes, mais solidários, mais humanos, menos poluidores.

Pois é, mas isto só acontece porque estamos com medo. E quanto tempo durará esta ameaçadora memória do próprio medo?

Quanto tempo levaremos até desvalorizar de novo todas as aprendizagens que, supostamente, já estamos a fazer neste tempo forçado de recuo ao essencial?

No momento em que conseguirmos vencer este pindérico poderoso inimigo invisível, quanto tempo mais abdicaremos de algumas das ambições que agora aprendemos que não valem nada?

Quanto tempo mais cuidaremos uns dos outros com altruísmo? Quanto tempo mais daremos prioridade séria à atmosfera do planeta que habitamos?

Tenho dúvidas. Tenho mesmo muitas dúvidas.

Será que os estragos deixados compensam e que ajudam a combater curtas memórias humanas?

Não. O vírus não compensa e os estragos que deixa também não. Não cumpre qualquer missão. Apenas nos obriga a diluir a arrogância. Mas é muito triste. É mesmo muito triste que a humanidade tenha chegado a precisar de uma coisa destas para bloquear o seu deslumbramento.

Não. O vírus não nos fazia falta nenhuma. Mas será que o ser humano apenas recua sob ameaça?

Como vão as nossas sociedades reagir perante a pandemia económica que ocorrerá depois e já está a ocorrer?

Somos pouco criativos na verdade, embora pareçamos quase criadores e nos tenhamos convencido disso.

Disseminamos informação em catadupa. Alguma para rir, outra para chorar; alguma para baralhar e, por fim, outra para esclarecer, mas não temos receitas para reparar os incalculáveis danos.

Porquê?

Porque fomos apanhados. Apanhados por algo que a nossa imaginação não previu ser possível. Pensámos em muita coisa entre cataclismos ecológicos, epidemias de notícias falsas, falhas tecnológicas, … mas não em algo que não pudéssemos ver, não pudéssemos dimensionar, não pudéssemos saber onde estava, de onde nos atacava e para onde nos levaria.

Que, enquanto seres humanos aprendendo a mal, embora não nos fizesse falta nenhuma, não deixemos esbater as memórias do silêncio e da monotonia; que não tornemos a cair nos mesmos erros; que possamos aprender a parar e que, não percamos, por desábito, a vontade de abraçar e de beijar os que mais amamos.

Que nunca mais nos enganemos na relação que viermos a estabelecer com o tempo; que, no fim de tudo, consigamos ser mais sábios e resilientes para que o nosso planeta não recaia, de novo através das nossas mãos, no passado recente em que se encontrava, visto por todos e ignorado pela grande maioria.

As pandemias passam para os que, a elas, sobrevivem. Por isso, vamos fazer o melhor uso daquilo que não fazia falta, mas tem de cumprir uma função – obrigar o homem a salvar o planeta e a, nele, salvar-se a si mesmo.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

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