Não há catástrofes naturais. Há fenómenos naturais com impactos sociais devastadores. Na madrugada de 28 de janeiro de 2026, a Kristin rasgou Portugal continental com rajadas para além de 170 km/h. Seguiu-se o rio atmosférico, depois as depressões Leonardo e Marta. 18 mortos, centenas de feridos e um rasto de destruição que continua.
Redes de comunicações caídas, estradas bloqueadas por árvores e deslizamentos, A1 cortada em Coimbra, comboio Porto-Lisboa suspenso. Hangares e aviões destruídos no aeródromo de Coimbra e Monte real. Em Leiria, os prejuízos estimados já ultrapassam os 792,8 milhões de euros, sem contar floresta, infraestruturas estatais e o resto que ainda falta quantificar. O setor agrícola foi devastado: a CAP) estima 775 milhões de euros em perdas. E a vulnerabilidade habitacional:: 49% das habitações afetadas sem seguro com cobertura para tempestades. Em 15 de fevereiro ainda havia 14 mil sem energia em zonas críticas.
Não há catástrofes naturais. Há fenómenos naturais com impactos sociais devastadores. O “natural” é a desculpa conveniente para desviar o olhar do planeado para a era anterior às alterações climáticas. Desde as cheias de 1968 – que causaram 400 mortos e mostraram a falta de solidariedade do Estado – Gonçalo Ribeiro Telles revelou décadas de mau planeamento urbano em leito de cheias, margens impermeabilizadas, drenagens inexistentes, manutenção de redes adiada, privatizações que esvaziaram o Estado de capacidade real, subcontratações que fragmentaram a resposta.
A resposta pública de 2025 foi programada para uma era anterior às alterações climáticas. Não bastam as seguradoras e as linhas de crédito bancárias que surgem rápidas. Não basta o capitalismo de desastre: fingir que o mercado supre infraestruturas construídas para a época, anterior às alterações climáticas. Habitação, educação, saúde, o padrão repete-se. O mercado aparece quando há retorno; desaparece quando a reconstrução demora e não rende manchetes.
Nas autarquias de menor dimensão, Freguesias ou Câmaras Municipais, é diferente. Fazem a gestão de forma direta com as populações. O chamar à ação direta permite elaborar um quadro de conexão ao território, dificilmente abrangido pelas grandes instituições . A maneira como se atende a existência do outro potencia a consciência para o lugar que ocupa no mundo. Pequenos passos que são passos. Formas de dizer a vida que marcam. Uma maneira de construir um país que esteja mais alerta e mais preparado para as próximas tempestades.
Podemos ser medíocres a prevenir, mas somos bons a ajudar quando há desastre. Cruz Vermelha e Bancos Alimentares a ativar apoios. Cáritas de Leiria-Fátima a angariar mais de €1,3 milhões. Pavilhões como centros logísticos nos Pousos, Nery Capucho, Figueiró dos Vinhos, Ourém – geradores emprestados a lares, voluntários a formar linhas de apoio. Concertos solidários a canalizar receitas.

“Podemos ser medíocres a prevenir, mas somos bons a ajudar quando há desastre.” Foto: Efeitos da tempestade Kristin, Redes Sociais.
Como nas experiências dos incêndios há redes que persistem, que transformam. Este encurtar de distâncias é semente de coletividades que se plantam, antes da próxima tempestade. Porque destas redes que nascem, precárias, da ação voluntária, criam-se suportes mais sólidos e ações mais relevantes do que uma comitiva que oferece “visibilidade” à catástrofe. A fadiga acumula-se –e com ela a pergunta: até quando aguentamos este desastre contínuo sem narrar o óbvio? Que o Estado existe para liderar, cooperar, organizar.
Mas não romantizemos. Os apoios são trágicos porque emergem do desamparo, dependem de recursos que o Estado deveria garantir, e revelam territórios já em autogestão silenciosa – interior, periferias, aldeias que só se descobrem abandonadas quando a desgraça bate à porta.
A Kristin-Leonardo-Marta foi mais um teste brutal a um país desmontado por dentro. Enquanto continuarmos a tratá-la como “catástrofe natural”, continuaremos a pagar o declínio em vidas, euros, e a reconstruir entre ruínas.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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