“Não há como voltar atrás”: pandemia fortalece luta das mulheres por um papel mais relevante na Igreja

| 4 Jul 20

Cópia de mulheres religiosas alemanha ordenacao, Foto Direitos Reservados

Grupo de religiosas alemãs que defende que as mulheres devem poder celebrar eucaristias. Foto: Direitos Reservados.

 

Durante o período de confinamento, viram-se privadas das missas, e isso só fez crescer nelas a convicção de que poderiam tê-las celebrado sem um padre: dez religiosas alemãs tornaram pública, esta quinta-feira, a sua reivindicação de poderem celebrar eucaristias, e estão cada vez mais acompanhadas nesta luta por um papel relevante da mulher dentro da Igreja Católica. Em França, vão-se somando os apoios à recente candidatura de Anne Soupa a arcebispa de Lyon. Nos EUA, sugere-se que o Papa só está à espera que haja mais pressão por parte dos leigos para que possa haver mulheres diáconos. Na Alemanha, o famoso monge beneditino Anselm Grün, autor de dezenas de livros de espiritualidade, assegura que é uma questão de tempo até que o sacerdócio feminino se torne realidade.

“Uma superiora tem direito à direção espiritual de uma comunidade, mas não a presidir à celebração da eucaristia. Que imagem da congregação, do padre e da mulher está escondida por detrás de tudo isto?”, questionam dez religiosas alemãs, pertencentes ao grupo Mulheres Religiosas pela Dignidade Humana. “Isto mostra o desequilíbrio da Igreja Católica e a extrema dependência das mulheres religiosas em relação a um homem consagrado”, sublinham.

Impossibilitadas de ter eucaristias nos seus conventos em Munique, Tutzing, Bernried e Nuremberga durante o período de confinamento, estas irmãs procuraram alternativas, relata o site Cath.ch. Em comunidade, fizeram as suas próprias celebrações e asseguram que nem por isso deixaram de sentir a presença de Jesus. Uma das religiosas resume assim a experiência: “Nunca me foi dado ver tantos rostos radiantes, tocados e cheios por esses dias e pelas nossas celebrações. Para mim, o espírito do ressuscitado era muito palpável e vivo entre nós”.

As irmãs responsáveis pela preparação das celebrações litúrgicas faziam um trabalho de reflexão sobre as leituras bíblicas de cada dia, para ajudar os restantes elementos da comunidade a compreendê-los à luz da realidade atual e a rezar através delas. “De repente, eu já não estava apenas no papel de ouvinte, que só pode participar com respostas padronizadas. Essa experiência muito diferente fez-me muito bem”, testemunha a mesma religiosa.

E agora? Agora “não há como voltar atrás, depois das experiências vividas durante essas semanas de confinamento”, concluem as irmãs. “Esperamos que as nossas experiências contribuam para a busca corajosa de novos caminhos”.

 

Uma discussão antiga, que poderá estar perto do fim

Coragem não faltou à teóloga e biblista francesa Anne Soupa quando, há pouco mais de um mês, anunciou que iria candidatar-se para suceder ao cardeal Philippe Barbarin como arcebispo de Lyon. A candidatura já recolheu o apoio de mais de 16.500 pessoas, que deixaram a sua assinatura num site criado para o efeito.

E mesmo dentro da hierarquia da Igreja, há quem veja o gesto de Anne Soupa com bons olhos. É o caso do arcebispo Pascal Wintzer, da diocese de Poitiers, que publicou um artigo no jornal La Croix onde sublinha que “seria grave não levar a sério” a proposta da teóloga e as questões que a mesma levanta.

“Para governar uma diocese é necessário ser-se padre apenas porque a lei canónica o diz. Mas o ministério de bispo já existia muito antes da lei canónica”, escreveu Anne Soupa na sua carta de candidatura. “Os doze apóstolos de Jesus não eram padres; Pedro até era casado. Desde a antiguidade, o bispo tem sido um vigia, um protetor que observa e guarda a coesão e correção doutrinária de um grupo de comunidades. Em que sentido é que um leigo não poderia assumir essa função?”, questionou a biblista francesa.

Pascal Wintzer, no seu texto, confirma que os bispos “assumiram gradualmente funções administrativas”, e que sendo “homens de Deus, religiosos e consagrados… não são em primeiro lugar líderes, organizadores ou gestores”, admitindo mesmo que “têm constantemente de tomar decisões e dedicar tempo a tarefas que poderiam ser responsabilidade de outras pessoas mais competentes nessas áreas”.

O monge beneditino Anselm Grün vai mais longe e garante que “não há razões teológicas contra o sacerdócio feminino”. Citado pelo site Katolisch.de, Anselm Grün, 75 anos e autor de inúmeros best-sellers de teologia e espiritualidade, defende que a ordenação de mulheres é uma questão de tempo, afirmando ter “absoluta esperança” de que, dentro de cem anos, haja mulheres católicas ordenadas.

Entrevistada pela revista jesuíta America, na passada quarta-feira, 1 de julho, a teóloga norte-americana Phyllis Zagano concordou que a ordenação de mulheres, primeiramente como diáconos, irá tornar-se realidade, mas levará tempo. “A mesma discussão tem circulado na Igreja ao longo de 400 anos”, referiu, explicando que o problema é que “a Igreja é como um navio de guerra, não muda de trajetória facilmente”.

Mas Zagano, que pertenceu à anterior comissão criada pelo Papa Francisco para o estudo do diaconado feminino, garante que já debateu o tema com inúmeros “cardeais séniores em Roma” e nos EUA e percebeu que “existe muito pouca objeção” à ordenação de mulheres diáconos dentro da hierarquia da Igreja, pelo menos em teoria.

Na opinião da teóloga, Francisco “está à espera que a voz do Espírito Santo fale mais alto na Igreja” e “está nas mãos dos fiéis [decidir se querem mulheres diáconos] e explicar isso aos bispos, porque os bispos parecem estar todos à espera que alguém lhes diga que não há problema em ordenar uma mulher como diácono”.

 

“Porque não incluir as mulheres no Colégio Cardinalício?”

A prova de que este é um tema querido ao Papa está na criação, em abril passado, de uma segunda comissão para estudá-lo, depois de a primeira ter resultado inconclusiva devido à existência de divergências entre os 12 historiadores e teólogos que a constituíam.

Entre os especialistas escolhidos por Francisco para o novo grupo de debate está a biblista francesa Anne-Marie Pelletier, primeira mulher a receber o Prémio Ratzinger, considerado o ‘Nobel’ da Teologia, e autora das meditações para a Via-Sacra do Papa Francisco no Coliseu de Roma, em 2017.

Em entrevista ao jornal La Croix na semana passada, Pelletier defendeu que “há muitos lugares onde as mulheres têm de ser ativas hoje no exercício da autoridade e inspirando novas formas de governação, tais como as paróquias, os conselhos episcopais e o conselho papal. Porque não? Paralelamente, porque não incluir as mulheres no colégio cardinalício?”, perguntou.

Para Anne-Marie Pelletier, “a verdade que precisa de ser ouvida é que o sacerdócio ministerial não pode ser a única autoridade a decidir a vida e governação da Igreja”. Na sua opinião, as mulheres deverão também ter um papel mais relevante na área da formação. “Se as mulheres já estivessem a ensinar eclesiologia nos seminários, a Igreja poderia ter outra face”, assegura a biblista francesa, para quem a questão do diaconado feminino deverá ter em consideração não apenas aquela que é a tradição da Igreja, mas sobretudo aquelas que são as necessidades reais das comunidades cristãs de hoje em dia.

Tendo em conta essas necessidades, Pelletier defende que “o diaconado deveria permitir às mulheres batizar e celebrar casamentos, tal como deveria permitir-lhes fazer pregações”, ou ainda “escutar uma confissão, mesmo sem ter a possibilidade de dar a absolvição”. E conclui, dando razão às religiosas alemãs: este é o momento certo para “ter a coragem de imaginar a Igreja de uma forma diferente”.

 

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

50 anos do “Caso Añoveros”: quando a Igreja Católica afrontou o regime de Franco

Uma grave crise entre Espanha e Vaticano

50 anos do “Caso Añoveros”: quando a Igreja Católica afrontou o regime de Franco novidade

Com o franquismo já em fase declinante, um bispo defendeu o direito do povo basco à sua identidade, o governo de Franco quis expulsá-lo e a crise que se desencadeou foi tal que esteve iminente o corte de relações entre a Espanha e o Vaticano

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Sessões gratuitas

Sol sem Fronteiras vai às escolas para ensinar literacia financeira

Estão de regresso as sessões de literacia financeira para crianças e jovens, promovidas pela Sol sem Fronteiras, ONGD ligada aos Missionários Espiritanos, em parceria com o Oney Bank. Destinadas a turmas a partir do 3º ano até ao secundário, as sessões podem ser presencias (em escolas na região da grande Lisboa e Vale do Tejo) e em modo online no resto do país.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Líder do Conselho Mundial de Igrejas com líderes políticos e religiosos na Terra Santa para fazer ouvir o apelo a “uma paz justa”

Visita termina esta quinta-feira

Líder do Conselho Mundial de Igrejas com líderes políticos e religiosos na Terra Santa para fazer ouvir o apelo a “uma paz justa”

Ao longo dos últimos seis dias, o secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Jerry Pillay, empenhou-se a 100% naquela que designou de “uma missão especial”. E não é caso para menos. O líder religioso – que representa 352 igrejas protestantes, ortodoxas, anglicanas e evangélicas em todo o mundo – esteve em Israel e na Palestina, numa tentativa de “tornar mais forte” e verdadeiramente audível o apelo que há muito vem fazendo “por uma paz justa” na região.

É notícia

Entre margens

A Loucura do Bem Comum

A Loucura do Bem Comum novidade

O auditório está quase cheio e no pequeno palco alguém inicia a conferência de abertura. Para me sentar, passo frente a quem chegou a horas e tento ser o mais discreta possível. Era o primeiro tempo do PARTIS (Práticas Artísticas para a Inclusão Social) de 2024 na Fundação Gulbenkian. O tema “Modelos de escuta e participação na cultura” desafiou-me a estar e ganhei esse tempo! [Texto Ana Cordovil]

O regresso da sombra da escravidão

O regresso da sombra da escravidão novidade

Vivemos um tempo de grande angústia e incerteza. As guerras multiplicam-se e os sinais de intolerância são cada vez mais evidentes. A fim de ser concreta também a nossa Quaresma, o primeiro passo é querer ver a realidade. O direito internacional e a dignidade humana são desprezados. [O texto de Guilherme d’Oliveira Martins]

Cristo Cachorro, versão 2024

Cristo Cachorro, versão 2024

Invejo de morte a paixão que os cartazes da Semana Santa de Sevilha conseguem despertar. Os sevilhanos importam-se com a sua cidade, as festas e com a imagem que o cartaz projecta, se bem que com o seu quê de possessivo, mas bem melhor que a apatia. Não fossem frases como “É absolutamente uma vergonha e uma aberração” e as missas de desagravo e o quadro cartaz deste ano teria passado ao lado.

Cultura e artes

Ver teatro que “humaniza” e aprender a “salvar a natureza”? É no Seminário de Coimbra

Atividades abertas a todos

Ver teatro que “humaniza” e aprender a “salvar a natureza”? É no Seminário de Coimbra

Empenhado em ser “um lugar onde a Cultura e a Espiritualidade dialogam com a cidade”, o Seminário de Coimbra acolhe, na próxima segunda-feira, 26, a atividade “Humanizar através do teatro – A Importância da Compaixão” (que inclui a representação de uma peça, mas vai muito além disso). Na terça-feira, dia 27, as portas do Seminário voltam a abrir-se para receber o biólogo e premiado fotógrafo de natureza Manuel Malva, que dará uma palestra sobre “Salvar a natureza”. 

Vitrais e escultura celebram videntes de Fátima na Igreja da Golpilheira

Inaugurados dia 25

Vitrais e escultura celebram videntes de Fátima na Igreja da Golpilheira

A comunidade cristã da Golpilheira – inserida na paróquia da Batalha – vai estar em festa no próximo domingo, 25 de fevereiro, data em que serão inaugurados e benzidos os novos vitrais e esculturas dos três videntes de Fátima que passarão a ornamentar a sua igreja principal – a Igreja de Nossa Senhora de Fátima. As peças artísticas foram criadas por autores nacionais, sob a coordenação do diretor do Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima, Marco Daniel Duarte.

Franz Karl Praßl em concerto

No Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa

Franz Karl Praßl em concerto

Franz Karl Praßl, (Prassl), Professor de Canto Gregoriano do Pontificio Istituto di Musica Sacra no Vaticano, vai dar um concerto seguido de missa no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa. O evento está englobado num seminário que o professor austríaco está a dar aos alunos da Escola Artística do Instituto Gregoriano de Lisboa, e servirá para encerrar os trabalhos.

Sete Partidas

Era uma vez na Alemanha

Era uma vez na Alemanha

No sábado 3 de fevereiro, no centro de Berlim, um estudante judeu foi atacado por outro estudante da sua universidade, que o reconheceu num bar, o seguiu na rua, e o agrediu violentamente – mesmo quando já estava caído no chão. A vítima teve de ser operada para evitar uma hemorragia cerebral, e está no hospital com fracturas em vários ossos do rosto. Chama-se Lahav Shapira. [Texto de Helena Araújo]

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This