
Enzo Bianchi, em Trento, a 12 de Dezembro de 2013. Foto © Niccolò Caranti/Wikimedia Commons
“Se não aparecerem cristãos adultos, maduros, com uma subjetividade eclesial capaz de se expressar, a Igreja não só será sempre clerical, mas continuará incapaz de uma palavra profética, livre e crítica.” Quem o diz é Enzo Bianchi, monge que foi fundador da Comunidade de Bose, em Itália, na sua habitual coluna semanal no jornal La Repubblica.
Intitulado “Quando na Igreja falta o debate”, o artigo propõe à reflexão dos leitores a ideia de que, em tempo de sínodo, se tem enfatizado a importância da escuta, mas, naturalmente, entende o autor, a escuta não chega.
Enzo Bianchi, com 80 anos acabados de fazer, começa por referir que, hoje em dia, os cristãos empenhados entregam-se especialmente a obras de caridade para com os necessitados, com os migrantes. Eles seguem também com muita atenção e um juízo positivo a voz do Papa Francisco que, diz o articulista, “parece ser capaz de uma palavra clara e uma proclamação radical do Evangelho”.
Ao mesmo tempo, Bianchi nota que, no seu país, ao contrário de outros, “há uma falta de subjetividade madura na vida da Igreja”, como tem sido evidente no atual processo sinodal e que se traduz “numa certa ausência de debate e de consciência intraeclesial, uma falta de propostas para o futuro da Igreja”.
“Quando nos reunimos, explica Bianchi, não abordamos as questões que parecem ser conflituosas, mas que são as mais sentidas e sofridas pelo povo de Deus; optamos, antes, por dar espaço a ‘testemunhos’, demonstrações reais de líderes espirituais que encantam, mas não convertem ninguém e, sobretudo, não deixam espaço para o confronto de ideias”.
Acerca da escuta e do escutarmo-nos uns aos outros, a que o Papa e os pastores das igrejas locais deram toda a primazia, o fundador da Comunidade de Bose reflete sobre a sua experiência de monge: “Estou familiarizado com a tradição monástica e as suas decepções: para mostrar que pratica a sinodalidade, a autoridade faz com que todos falem, escuta todos, mas não deixa espaço para debate, fecha qualquer confronto logo que ele surge e depois decide como entende. Este é um risco presente em todos os caminhos sinodais, especialmente se a Igreja não tem opinião pública”.
O articulista recorda o magistério da própria Igreja nesta matéria: Pio XII, numa alocução de 1950, sugere que a falta da opinião pública constitui uma enfermidade. E a instrução pastoral Communio et Progressio, de 1971, sublinha que “a Igreja necessita de uma opinião pública para alimentar o diálogo entre os seus membros, condição do progresso no seu pensamento e ação”, sem a qual “faltar-lhe-ia qualquer coisa de vital” (n. 115).
“Palavras a serem repetidas hoje porque não precisamos de vozes uniformes, nem de bajuladores, nem de palavras que repitam as do Papa, mas, antes de mais nada, de pessoas que se destacam pela sua liberdade”, adverte Enzo Bianchi.
É por isso que, no seu entender, “não basta ouvir, é também necessário discernir, tomar uma posição, opor-se, se necessário, e confrontar-se para alcançar uma comunhão plural”. Os “testemunhos” ou as “conversas espirituais” servem muitas vezes “para esconder conflitos”, salienta. “Basta de medo da liberdade. A Evangelii Gaudium do Papa Francisco é extremamente clara quanto a este método e estilo”, acrescenta o autor.
Para que surja na vida da Igreja a “palavra profética, livre e crítica”, é claro que não basta falar, é necessário ouvir, mas também não basta ouvir, porque é, então, necessário confrontar, discutir, caminhar juntos”, conclui Bianchi.









