Não há ligação dos evangélicos à extrema-direita, garante presidente da Aliança

| 7 Jan 24

Timóteo Cavaco na Antena 1: “Há evangélicos a votar desde o Bloco de Esquerda ao Chega” Foto © Carlos Jorge Antunes/Antena 1

Timóteo Cavaco na Antena 1: “Há evangélicos a votar desde o Bloco de Esquerda ao Chega” Foto © Carlos Jorge Antunes/Antena 1

 

“Não há nenhuma ligação, muito menos institucional” da Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), com o partido Chega, diz o presidente da AEP, Timóteo Cavaco, em entrevista ao programa 7MARGENS da Antena 1, que foi para o ar na madrugada deste sábado, 6. “A Aliança é completamente apartidária”, garante, e “querer colar os evangélicos e a AEP a um determinado sector não faz sentido”.

Comentando as notícias que aparecem com alguma regularidade associando os evangélicos a fenómenos como Jair Bolsonaro, no Brasil, Donald Trump nos Estados Unidos e a extrema-direita, o responsável máximo dos cerca de 200 mil evangélicos em Portugal diz que “nem sempre o que salta para os média é verdadeiro”. Explicando que nos Estados Unidos, país de matriz protestante, “é óbvio que o chamado voto evangélico tem muito peso”, rejeita que isso se possa generalizar. Mesmo no Brasil, “onde tem havido um crescimento dos movimentos neopentecostais”, há universidades de matriz protestante desde o final do século XIX, acrescenta.

Também em Portugal essa ligação não se pode estabelecer, diz. “A realidade é completamente diferente” do que acontece no Brasil e nos Estados Unidos, além de haver evangélicos votantes “que vão desde o Bloco de Esquerda ao Chega”, admite.

“Talvez pela sua agenda, pelas suas convicções, é possível que haja pessoas mais alinhadas com um ou outro discurso político-partidário”, admite Timóteo Cavaco. “Mas isso não quer dizer de maneira nenhuma que as entidades evangélicas tenham uma opção partidária.”

A entrevista ao líder da segunda confissão religiosa mais importante em Portugal, tem como pretexto a Semana Universal de Oração que os cerca de 600 milhões de fiéis representados pela Aliança Evangélica Mundial celebram em todo o mundo entre 14 e 21 de Janeiro. Neste ano, a Semana assinala o 50º aniversário do congresso de Lausanne (Suíça), e que foi uma das primeiras iniciativas a tratar o tema da ecologia e do cuidado com a criação em todo o mundo.

 

“Complexo de clandestinidade” e pedagogia

 

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Sino da antiga torre sineira do Mosteiro de São Bento da Saúde, que inicia o percurso da exposição Os Caminhos da Liberdade Religiosa em Portugal, patente no Parlamento: falta “pedagogia” para a aplicação plena da Lei da Liberdade Religiosa. Foto © João Cutileiro/Assembleia da República

 

Membro de uma Igreja Baptista de Lisboa, Timóteo Cavaco lidera a AEP desde 2022. Nascido em Tondela, viveu em Angola entre os quatro e os oito anos, onde o seu pai foi pastor de uma Igreja Baptista local. Depois passou pela Figueira da Foz e Coimbra, onde se licenciou em Química. Acabou, no entanto, por se dedicar à História, seguindo as pisadas do pai, tendo fundado a Sociedade Eduardo Moreira (2006), que evoca o pioneiro da historiografia protestante em Portugal, e a Sociedade Portuguesa da História do Protestantismo (2012). Há dois anos, publicou uma história da AEP, a pretexto do centenário da organização, que representa os cristãos evangélicos, reunidos em mais de 700 igrejas, comunidades, organismos de cooperação e organizações interdenominacionais.

É o seu olhar de historiador que lhe permite dizer que “as minorias nunca tiveram grande espaço na sociedade portuguesa” e que a pluralidade religiosa só existe em Portugal desde meados do século XIX, ainda para mais cerceada durante o Estado Novo, que manteve um regime de discriminação das minorias. Por isso, os protestantes e evangélicos portugueses “interiorizaram” a sua condição de minoria “e continuam a viver num certo complexo de clandestinidade”, diz.

A actual Lei da Liberdade Religiosa (LLR), de 2001, resolveu entretanto “os problemas mais graves” de discriminação, mas “falta uma certa pedagogia social” na sua aplicação. Há dificuldades, nota, em serviços do Estado, no que diz respeito por exemplo ao reconhecimento dos efeitos civis dos casamentos religiosos, bem como à assistência espiritual e religiosa em áreas como as prisões, as forças armadas e de segurança e os hospitais.

Qualquer confissão com estatuto de radicada, recorda, “pode celebrar casamentos que tenham eficácia civil”, mas há “desconhecimento” em alguns gabinetes “em relação a esta possibilidade” e até “já houve pastores que desistiram” de fazer o processo que a LLR estabelece “porque acaba por ser mais complicado”.

Sobre a assistência religiosa, essa é uma das prioridades da actual direcção da AEP, continuando o trabalho que vinha da anterior. “Os instrumentos legais já estão criados”, falta também aplicá-los plenamente. “O conceito fundamental do serviço de assistência religiosa é [que ele é] um serviço à pessoa: a pessoa é que tem de solicitar o serviço, não é um direito da confissão religiosa, é a pessoa que tem direito ao serviço de assistência espiritual e religiosa”, sublinha Timóteo Cavaco, admitindo que falta fazer “essa pedagogia”.

 

“Som da Liberdade”

 

Uma imagem do filme Som da Liberdade

Som da Liberdade, de Alejandro Monteverde: “Dizemos que a escravatura acabou, não é verdade… Nunca houve tantas pessoas escravas…”

 

Acerca de um estudo que a Aliança acaba de realizar junto de 350 pastores de comunidades evangélicas, e que concluiu que essas comunidades estão em grande crescimento (e onde mais de 60% dos estrangeiros são brasileiros), o presidente da AEP diz que é “completamente favorável a um mundo sem fronteiras, naturalmente com alguma regulação, e de países multiculturais”. E o facto de suspeitar “que em muitas comunidades evangélicas os portugueses sejam uma minoria” não o faz sentir “minimamente incomodado por isso”.

Timóteo Cavaco fala ainda sobre A Rocha, uma das organizações ambientalistas mais antigas do país, criada ainda na década de 1980 com uma matriz evangélica; e das marcadas deixadas pela tradução da Bíblia em português corrente e da Bíblia Manuscrita, iniciativas ambas da Sociedade Bíblica, da qual foi responsável entre 1997 2015; bem como de dois encontros de jovens evangélicos, ambos no Porto – um de âmbito nacional, em Abril, e outro de dimensão internacional. E admite que também nas comunidades evangélicas “tem havido decréscimo” do número de cadidatos a pastores. Os mais jovens são estrangeiros, revela.

Nas escolhas que fez dos textos dos últimos dias no 7MARGENS, Timóteo Cavaco sugeriu o trabalho sobre “A biografia (im)possível de Jesus” bem como a reportagem sobre os cantares mirandeses de Natal, pela ligação com que ficou ao mirandês, pela língua e tradições.

Como sugestão para os tempos livres e a cultura, Timóteo Cavaco sugere o filme Som da Liberdade, de Alejandro Monteverde, que trata do flagelo que é o tráfico de crianças. Há um dado “impressionante” recordado no final: “Nunca na história da humanidade terá havido tantas pessoas sujeitas a escravidão como na actualidade. Dizemos que a escravatura acabou, não é verdade… Nunca houve tantas pessoas” escravas…

A entrevista pode ser ouvida na íntegra nesta ligação: https://www.rtp.pt/play/p12257/7-margens

 

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