As recentes afirmações de André Ventura como “escolhido” por Deus chocam-me duplamente: como cidadão e como cristão. É nesta última condição que partilho esta reflexão.
A vinda de Jesus à Terra, e os Quatro Evangelhos firmam-no, fundam o momento de passagem do conceito bíblico de “povo escolhido de Deus de Moisés” para o de um “Deus de todos os gentios”, que faz da Humanidade no seu todo a “escolha de Deus”. Também, por isso, as Igrejas Cristãs (e muito enfaticamente a Católica) passam a anunciar que não há caminho de Salvação fora de Jesus Cristo.
No sentido da renovação da Aliança de Deus com toda a Humanidade, se processar doravante nos fundamentos do Cristianismo, que proclama Deus como (dizia Santo Agostinho) “a Verdade, a Beleza e o Amor” e afasta da doutrina teológica a violência e a exclusão. [Não é de somenos que o Papa João Paulo II tenha pedido perdão pelos actos de acusação e violência do Tribunal do Santo Ofício na perseguição aos judeus. Não é de somenos a reiteração do Papa Francisco, na Jornada Mundial da Juventude, no acolhimento de “todos, todos, todos” na e à Igreja].
Por isso, qualquer anúncio de um cristão como “o escolhido” rompe a crença e descola da fé em Cristo: será uma apostasia (renúncia e afastamento do próprio cristianismo). Muito mais se se mistura o princípio basilar proclamado por Jesus, ignorando que “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus” (não misturar o terrenal com o divino).
Não é um pormenor a razão por que a Igreja Católica é muito prudente no reconhecimento de milagres, sem o que não atribui a graça de santo ou santa a qualquer homem ou mulher; e que só o faz após a morte de quem como tal reconhece. É justamente para não se confundir com a heresia de ‘substituir’ ou ‘igualar’ um santo ou santa a Jesus Cristo. Aliás, tal heresia antecede mesmo a vinda do Messias, quando no Antigo Testamento (episódio do bezerro de ouro) se rejeita a adoração pagã e iconoclasta de um ídolo e não de Deus.
Sequer os santos e santas O igualam em qualquer uma das suas Pessoas na Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo). Mesmo os santos e santas são intercessores e não portadores da Sua Palavra. Aliás, Deus não escolhe nem dialoga preferencialmente com nenhum de nós, fora de um quadro de santidade, o que implica obras de caridade e exclui o ódio. E mesmo assim, a Graça não visa o próprio, muito menos o que o próprio acha ou não disto ou daquilo, mas tão só o ‘transporte’ da vontade e mensagem de Deus. Nunca em direcção ao próprio (santo ou santa), mas à difusão da fé e suas virtudes.
Ora, a menos que seja um caso de doença mental, em que não se pode atribuir responsabilidades (nem pedir, nem dar) por ausência de Juízo, quem diz de si mesmo possuir atributos ou “preferências” divinas estará em pecado mortal: o pecado da soberba.
Parece-me óbvio. Não por eu ser um ‘escolhido substituto’ para determinar o Caminho, mas porque a aplicação dos mais singelos princípios teológicos (na busca da interpretação racional da lógica de Deus) assim o evidencia.
Jorge Castro Guedes é encenador, mestre em Artes Cénicas pela FSCH da Universidade Nova de Lisboa, copywritter e criativo estratégico de Marketing e Publicidade.










