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González Faus em entrevista

Não há obstáculo bíblico à ordenação de mulheres

| 22/07/2021

González Faus

González Faus: o jesuíta estudou a questão das mulheres e do cristianismo  historicamente no contexto da Igreja primitiva. Foto: Direitos reservados.

 

“Biblicamente não há obstáculos ao ministério presbiteral das mulheres”, diz o teólogo espanhol José Ignacio González Faus, jesuíta com 87 anos, em entrevista ao Kairós News, jornal digital chileno, parceiro do 7MARGENS. “No caso do ministério da mulher, a questão não é o que Jesus fez então, mas o que Jesus faria agora. Não me parece haver dúvidas a este respeito”, acrescenta o teólogo. 

Residindo actualmente em Sant Cugat del Vallés, próximo de Barcelona, González Faus é um dops mais conceituados teólogos espanhóis do século XX. 

Sobre a questão das mulheres e do cristianismo, que o jesuíta estudou historicamente no contexto da Igreja primitiva, afirma: “Ao contrário do que dizem muitas feministas, não foi o cristianismo que criou a desigualdade. A sociedade grega foi muito desigual neste aspecto. Aqui, o cristianismo foi realmente uma verdadeira revolução. Tanto que, do pouco que sobrevive dos críticos, pagãos ou cristãos, uma das coisas que parece ter escandalizado, é que o cristianismo corrompe as mulheres.” Indicações que permitem “compreender que, no cristianismo primitivo, havia uma situação de mulheres mais sóbria do que gostaríamos de ver, mas escandalosa para essa sociedade”.

González Faus aborda ainda a crise do cristianismo europeu, que “pode favorecer o crescimento do cristianismo na Ásia e na África” e a ajudar a “passar da quantidade para a qualidade”. Isso será muito bom, considera. “Mas o cristianismo ocidental adquiriu direitos humanos e um sentido social, que talvez essas igrejas do Oriente não tenham tão desenvolvido, nem é tão importante para elas”, adverte. 

“Chega um momento no Ocidente em que o consumo já não satisfaz. Deixa a alma vazia. E é por isso que há tantas buscas, infelizmente erradas ou perdidas, que vão para o Oriente, para procurar radicalismo como a jihad [muçulmana] ou coisas desse tipo, que conquistam porque oferecem um objectivo pelo qual se pode viver. A sociedade de consumo não oferece qualquer objectivo.”

O próximo sínodo de bispos católicos, sobre a sinodalidade, é outro dos temas da entrevista, conduzida por Aníbal Pastor, director da publicação. “Caminhar juntos… todos. Esta é a parte difícil. Porque quando vemos que somos a maioria, os mais fortes, caminhamos mais depressa, deixamos [outros] para trás. Devemos tentar assegurar que a realidade cristã seja para todos, de acordo com a medida de cada um, mas para todos.”

Sobre a hipótese de um novo concílio, reunindo todos os bispos da Igreja, González Faus considera que antes de pensar nisso se deve pensar em preparar algo entre os leigos, na teologia e nas comunidades cristãs. “O Vaticano II pôde ser o que foi porque havia uma etapa prévia, pouco conhecida, de grandes teólogos, do movimento litúrgico, do movimento patrístico, do movimento bíblico” e que permitiram ter instrumentos para trabalhar. 

Os rostos de Deus
José Ignacio González Faus

José Ignacio González Faus, jesuíta, 87 anos.

Tendo sido já capelão de emigrantes na Alemanha. Quando preparava a sua tese, o teólogo jesuíta diz que esse trabalho implica muitas vezes ser intérprete, “porque é disso que os migrantes mais precisam”. Ao concluir a tese, ainda pensou dedicar-se a esse campo pastoral, mas foi “uma emigrante espanhola, uma grande mulher, que já morreu e que havia migrado por razões económicas e afectivas” que lhe disse “Não, não, não, José Ignacio, regressas a casa e ajuda-nos com a tua palavra”.

Para o teólogo, que escreveu um livro com o título O Rosto Humano de Deus, se se fizesse “um pequeno catálogo dos atributos de Deus, a única coisa que ele nos poderia dizer é que Deus é infinito, nada mais”. E acrescenta: “Quando entramos no infinito, não sabemos nada, temos de nos calar, porque tudo o que dizemos terá mais mentiras do que verdade. De repente, temos de salvar a mais pequena mentira da maior mentira.”

Nesse campo, as experiências falam de Deus de diferentes maneiras: “No Oriente, é acima de tudo o Deus dentro de mim, o que os hindus dizem, o meu eu o Deus, que é então matizado, mas que, com os cristãos, poderíamos dizer que é o Espírito de Deus em mim. A parte mais profunda de mim, a parte mais profunda de mim, é o Espírito Santo.”

Já no continente ameríndio, Deus tem estado muito presente como o Deus da natureza. “Os textos dos céus que proclamam a glória de Deus, etc., seriam válidos para mim. E no que tem sido o Ocidente cristão, ele tem estado muito presente como o Deus da história. E o Deus da história é, no Antigo Testamento, o Deus Criador e Libertador. E no Novo Testamento, o Deus do Amor.”

A entrevista pode ser lida na íntegra também em português do Brasil na página da Unisinos.

 

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