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[Moçambique, margem Sul]

Não haverá Natal, “há pranto e ranger de dentes”: somos vivos-mortos aguardando pela nossa sorte

| 21/12/2024

[…] Cristo falou dos sinais da sua “vinda” [do fim do mundo], tais como guerras, rumores de guerras, fomes, pestes, terremotos, evangelho sendo pregado em todas as nações e o amor se esfriando. […]
(Mateus, 24)

“Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há-de vir o vosso Senhor”.
(Mateus, 24:41)

[…] e disse Jesus: “Vigiem e orem para que não caiam na tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.” […]
(Mateus 26:41)

“Diante do caos em que se tem vivido, ao longo dos anos, em Moçambique, a esperança era sempre renovada por volta da altura do Natal, na qual, as famílias se juntavam e celebravam a alegria que nunca ou pouco tivessem vivenciado ao longo do ano. Era a altura em que se brindava à felicidade em se estar vivo e à esperança em dias melhores.” Foto © Ismael Miquidade, cedida pelo autor.

 

Em 2022, sob o título “Natais de outrora, pobres – mas felizes (?); os de hoje, nem por isso”, escrevi que não haveria Natal em Moçambique, dado que, a gestão “da coisa social” ia de mal a pior. Este ano degradou-se completamente, após os conflitos político-sociais que resultam da insatisfação popular, devido ao que se tem estado a designar reposição da “verdade eleitoral”, depois do processo de votação, nas últimas eleições gerais de Outubro, considerado fraudulento.

O descomando tem estado a imperar na sociedade. Há uma revolta caracterizada por manifestações populares em todo o país, no decorrer das quais têm ocorrido muitas mortes; muitos feridos; muitos saques a estabelecimentos comerciais; muita fome e problemas psicológicos avultados, estes últimos não medidos, nem abordados. Sabemo-nos deprimidos e desorientados, mas não temos informação sobre outros tipos de traumas emocionais ou psicológicos que temos estado a viver. Há “pranto e ranger de dentes”.

Diante do caos em que se tem vivido, ao longo dos anos, em Moçambique, a esperança era sempre renovada por volta da altura do Natal, na qual, as famílias se juntavam e celebravam a alegria que nunca ou pouco tivessem vivenciado ao longo do ano. Era a altura em que se brindava à felicidade em se estar vivo e à esperança em dias melhores. Mas este ano, parece confirmar-se a destruição do nosso mundo, mencionada na epígrafe a este texto. Temos, entretanto, estado a “orar e a vigiar”, mas não sabemos se quem nos virá governar nos salvará ou se perpetuará o descalabro que temos vivido.

Não “oramos e vigiamos” no sentido de espera bíblica, observando os acontecimentos para não sermos surpreendidos pelo inesperado. Não é que nos falte fé em Jesus ou noutras forças da natureza, as que sejam do bem e similares à sua bondade. “Oramos e vigiamos” só “para inglês ver”. Também não temos mais o que fazer, além disso, porque, volvidos quase dois meses, após as eleições gerais, vivemos incerteza e instabilidade, que nos levou a desacreditar na humanidade, nas pessoas e em qualquer tipo de serviço social que possa existir no nosso país.

Considerando o pensamento que atravessa Mateus 24, neste momento, passamos a uma fase em que não se sabe quem é que será julgado pela destruição humana que atravessamos: se todos (governantes e governados), cada um julgado pelo seu pecado; se uns (os governados, exaustos pela inoperacionalidade governamental), julgados pelas manifestações não pacíficas; ou se outros (os governantes), por falhar com o seu povo, em todas as vertentes sociais.

Muitos alunos não puderam terminar condignamente o seu ano lectivo; provavelmente não serão pagos, aos professores da rede pública, os salários em atraso e subsídios devidos – já há anos; os hospitais ou centros de saúde públicos, onde existam instalações, só há isso, o edifício, mais alguns poucos heróis, os colaboradores desses serviços que tenham a possibilidade de lá chegar, mas não prestam assistência, porque não há meios para o fazer. As fronteiras terrestres têm constantemente estado a ser bloqueadas para funcionamento; as portagens, idem; as estradas, para a circulação de viaturas, também. E isto é uma short list das desgraças, para não entediar o leitor. Reina o caos e “ninguém diz nada”. Instalou-se o desgoverno. Cada um está à sua mercê, até mesmo a polícia, porque tem estado a perder o seu posto e material de trabalho. Estamos “ao deus-dará”.

Algumas ruas da cidade e dos subúrbios recordam o tempo que se viveu com a covid-19. Ficam, na maior parte de tempo, desertas; algo atípico em época de Natal. E, uma vez que o único comando que a sociedade tem estado a ter é dado de modo virtual, ao que parece, as famílias terão um Natal, também ele virtual. A última vez que isso aconteceu, foi na aludida época da covid-19, que nos colocou cada um em seu espaço e a conviver virtualmente, no caso, uma minoria, a que tinha acesso a metadados (“megas”). Os outros, muitos deles, não viram nem conviveram com as suas famílias. Não tinham alimentos, nem “megas”. Pronto, não tiveram Natal, nem presencial, nem virtual.

Manifestação no Maputo com um caixão simbólico de Daniel Chapo, candidato da Frelimo à Presidência da República de Moçambique. Foto © Ismael Miquidade, cedida pelo autor.

 

E este ano, também, não haverá Natal, porque Natal significa nascimento, acordar para uma nova vida. Nós estamos a morrer. E morremos tão completamente vivos, que uma das grandes marcas que tem estado a notabilizar, nos últimos dias, é a imposição de manifestantes, para que, os que se façam à estrada reguem as campas criadas nas ruas – em vários locais da cidade e arredores. São sepulturas, algumas delas, nas quais já foram simbolicamente enterrados membros do governo e noutros lugares, há reserva de espaço, para outros membros, assim que se decida simbolicamente enterrá-los. Ou seja, vivemos, no momento, a época dos mortos-vivos ou vivos-mortos.

Esses somos nós. Todos nós moçambicanos na nossa plenitude: os que governam, os governados, os cautos e os incautos. Morremos todos, porque vivemos uma época na qual uns reclamam os seus direitos de cidadãos de um país aparentemente livre e quem deveria zelar por essa sociedade, apenas se demitiu simbolicamente. Calou-se. E assim não haverá Natal.

Certamente que não será o fim do mundo, o fim de Moçambique. Alguns sobrarão, sobreviverão. Mas, uma vez que estamos atentos, “orando e vigiando”, sabemos que não seremos surpreendidos. A única certeza que temos é a de que não renovaremos a esperança. Os sinais sobre o final do mundo, referidos em Mateus 24, a nós dizem respeito. “O amor já esfriou” entre nós. Estamos entregues à nossa sorte, porque quem governava caiu no descrédito e quem, eventualmente possa vir, na sua qualidade de novo no xadrez político, talvez não tenha como nos curar de tanto sofrimento já entranhado, porque somos uns mortos-vivos, vivos-mortos aguardando pela nossa sorte. E se vier o Senhor? Cá o acolheremos, sem reservas, claro! O nosso espírito está pronto, a carne é que já não tem como se aguentar.

 

Sara Jona Laisse. Membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs, em Maputo. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

 

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