“Não me detenhas” | O regresso das impertinentes (I)

| 25 Nov 2023

Pensava que não voltaria aqui tão cedo, mas continuo às voltas com o tema do lugar das mulheres na Igreja. Seria fácil assumir o papel de demolidora passiva, não propor nada, e mascarar a minha inércia com uma aparente e plácida ponderação. Fui bem-ensinada a desconfiar da afeição a temas difíceis, que acaba por nos domar e toldar o horizonte e, além disso, quem não quer marcar pontos de moderação nestes tempos desbragados?

Acontece que uma retirada disfarçada de maturidade tornar-me-ia cúmplice da atitude que mais abomino, a auto-desresponsabilização. Seria também muito cobarde, e ando conscientemente a fazer por contrariar essa tendência neste Outono-Inverno 2023.

Perguntei-me também se o tema seria, de facto, relevante, ou se não passaria de uma teima minha. Afinal, as Igrejas por onde passo continuam cheias de mulheres que parecem realizadas com as suas tarefas. Até ler, por puro acaso, o prefácio de D. José Manuel Cordeiro, Arcebispo Primaz de Braga, ao livro “Converter Peter Pan”, de Armando Matteo, onde refere justamente a fuga das mulheres da Igreja, principalmente as com menos de 40 anos. O desinteresse – fora dos meios tradicionalmente muito católicos – é real.

Os textos anteriores foram uma muito necessária decantação espiritual da raiva, este é um exercício da virtude da esperança, ou pelo menos, uma tentativa: proponho-me a descobrir algumas pistas para sair do limbo para que me atirei e, de preferência, sem cair na armadilha do discurso feminista actual que me parece estar esgotado. Vamos a isso.

 

Visitar | As muitas Santas de Deus

Santa Teresinha

“Temos um catálogo de Santas, Beatas, autoras espirituais e teólogas variadíssimo, e que cumpre todos os cânones pós-modernos de diversidade, equidade e inclusão.” Foto:  Santa Teresinha

 

Comecemos pelo mais simples. Temos um catálogo de Santas, Beatas, autoras espirituais e teólogas variadíssimo, e que cumpre todos os cânones pós-modernos de diversidade, equidade e inclusão. Podia ser mais extenso? Podia, ficaram demasiadas histórias entre as suas protagonistas e Deus, e há muitas outras enfiadas no pó de conventos, bibliotecas e registos paroquiais à espera de serem descobertas. Podemos apenas imaginar as histórias que perdemos, mas podemos ainda escrever a nossa, a de cada uma. Ir fazendo memória – ou melhor, ir deixando lastro – da nossa história interior é um hábito bonito que precisamos de recuperar.

Sem ironia, o Cristianismo está cheio de mulheres extraordinárias dentro e fora da Igreja, quantas conhecemos a fundo? Há toda uma “tradição” de espiritualidade feminina e no feminino, uma “forma de estar” espiritual que precisa de ser redescoberta e iluminada, e que não se esgota nos conventos nem na vida consagrada. Mais do que redescoberta, precisa de ser des-sentimentalizada e des-infantilizada, até pelas próprias mulheres.

No plano individual, podemos fazer bem melhor memória de muitas mulheres, e declaro aberta a causa da des-diminutização de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, que será o exemplo mais paradigmático desta distorção pietista, mas que não é caso único. Há tantos outros exemplos, desde Santa Clara de Assis a Santa Catarina de Siena, que ficaram no nosso imaginário como umas criaturas meias místicas, meias misteriosas, boas para imagens de altar, mas impossíveis de levar a sério no dia a dia, de tão espiritualizadas que são.

No plano colectivo, há um património imaterial infinito para desenterrar. É pena que muito se tenha perdido, termos vergonha dos avós, e termos academizado assepticamente a experiência humana só podia correr mal.  Quantas procissões, romarias, novenas, orações, cantos terão sido imaginados por mulheres, e quanta dessa devoção popular não será também o resultado de séculos de imaginação feminina colectiva, um dos espaços onde nos era permitido exercer a nossa criatividade de uma forma mais livre?

Proponho, por isso, que comecemos por nos levantar do sofá e façamos uma pequena visita a uma cullottée espiritual à escolha: Flannery O’Connor, Elisabeth Leseur, Simone Weil, Elisabeth Anscombe, Etty Hillesum, Madre Teresa, Maria Gabriela Llansol…  ou até, quem sabe, as nossas mães, avós ou tias.

 

Ouvir | “A fé nasce da escuta”

Nos últimos meses, tenho reparado que há cada vez mais homens que escrevem sobre o papel da mulher na Igreja, e que reconhecem a necessidade de mudança. É um óptimo sinal, e espero que haja cada vez mais. A maioria dos textos que encontro refere os males do clericalismo e os desequilíbrios de poder na estrutura da Igreja, e reconhece o quão pouco valorizado o imenso trabalho das mulheres tem sido.

No entanto, esta tendência deixa-me algo inquieta, tem o seu quê de momento Lampedusa, em que é preciso que mude alguma coisa para que tudo fique na mesma. Cedendo momentaneamente ao cinismo, tenho medo que o diálogo seja balizado pelas perspectivas de quem escreve sobre este e outros temas da vida da Igreja – e que são, na sua maioria, homens – e que acabemos inadvertidamente a dissertar sobre ideias e conceitos teóricos, em vez de tentar compreender e receber a experiência concreta das nossas comunidades locais e de cada um dos seus membros.

Oiçam-nos. Leiam-nos. Em discurso directo. Basta ouvir. Às que nunca saíram da Igreja, às que viraram costas, às filhas pródigas e às que descobrem o Cristianismo na idade adulta, só. Perceber porque ficaram, se encontraram o que procuravam fora da Igreja… Se houver espaço para isso, fazer algumas perguntas e receber a resposta com curiosidade e sem argumentações.

Todo o exercício em demasia tem os seus efeitos secundários, até no mais preparado dos espíritos. Por agora – e enquanto me dedico à segunda parte desta sessão de treino – sugiro apenas que tiremos um tempo para parar, reflectir e tirar proveito de todas estas coisas.

 

Marta Saraiva é diplomata.

 

Sínodo, agora, é em Roma… que aqui já acabou

Sínodo, agora, é em Roma… que aqui já acabou novidade

Em que vai, afinal, desembocar o esforço reformador do atual Papa, sobretudo com o processo sinodal que lançou em 2021? Que se pode esperar daquela que já foi considerada a maior auscultação de pessoas alguma vez feita à escala do planeta? – A reflexão de Manuel Pinto, para ler no À Margem desta semana

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Nada se perde: um antigo colégio dos Salesianos é o novo centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados

Inaugurado em Vendas Novas

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O apelo foi feito pelo Papa Francisco: utilizar os espaços da Igreja Católica devolutos ou sem uso para respostas humanitárias. Os Salesianos e os Jesuítas em Portugal aceitaram o desafio e, do antigo colégio de uns, nasceu o novo centro de acolhimento de emergência para refugiados de outros. Fica em Vendas Novas, tem capacidade para 120 pessoas, e promete ser amigo das famílias, do ambiente, e da comunidade em que se insere.

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita

Com as eleições no horizonte

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O conselho permanente dos bispos da Igreja Católica de França considera, num comunicado divulgado esta quinta-feira, 20 de junho, que o resultado das recentes eleições europeias, que deram a vitória à extrema-direita, “é mais um sintoma de uma sociedade ansiosa, dividida e em sofrimento”. Neste contexto, e em vésperas dos atos eleitorais para a Assembleia Nacional, apresentaram uma oração que deverá ser rezada por todas as comunidades nestes próximos dias.

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança”

Tolentino recebeu Prémio Pessoa

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Na cerimónia em que recebeu o Prémio Pessoa 2023 – que decorreu esta quarta-feira, 19 de junho, na Culturgest, em Lisboa – o cardeal Tolentino Mendonça falou daquela que considera ser “talvez a construção mais extraordinária do nosso tempo”: a “ampliação da esperança de vida”. Mas deixou um alerta: “não basta alongar a esperança de vida, precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança e a deseje fraternamente repartida, acessível a todos, protagonizada por todos”.

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