“Não me detenhas” | O regresso das impertinentes (II)

| 7 Dez 2023

Ícone de Maria 2.0, movimento de mulheres católicas alemãs que pede igualdade na Igreja. Ilustração © Lisa Kötter/Direitos reservados.

Escrevo para perceber como sinto o mundo, essencialmente. Deve haver formas mais eficientes de organização mental, esta é a minha. Enquanto escrevia, fui-me dando conta do quão formatada fui para agir. Isso é bom, mas em épocas de mudança é preciso arriscar o não fazer, e observar. Foi isso que procurei propor na primeira parte: cultivar a atitude de observar o que herdámos e o que nos rodeia. Nesta segunda parte, proponho que nos disponhamos a receber e enfrentar as perguntas que apareçam. E, uma vez aí chegados, começar a operação de destralhe.

 

Destralhar| Trigo, Joio, César e Deus

A instituição Igreja ocupa um espaço mental absurdo em muitas conversas que vou tendo sobre o lugar das mulheres e não só. Tantas vezes, o centro de gravidade da discussão é a “posição” da Igreja, o que a Igreja “pensa” ou “diz”, o que a Igreja deve ou não fazer. Quem será esta Igreja de quem tanto falam, esta entidade desgarrada de tempos e lugares concretos, e que gira sobre si própria numa realidade alternativa, imune ao que vai acontecendo no mundo?

Seria útil concretizarmos o máximo possível a quem (ou a quê) nos referimos quando falamos da Igreja, para não corrermos o risco de nos perdermos em conceptualizações impossíveis. Quando digo que a Igreja tem de mudar estou a pensar na estrutura da Igreja mundial, nacional ou nos hábitos da minha Paróquia ou movimento, ou até nos da minha vida de todos os dias?

Temos, obviamente, que questionar e purificar muitas dinâmicas nas nossas comunidades, mas antes de adoptar sem mais a narrativa do clericalismo e da falência das instituições podemos perguntar-nos: Onde é que aprendi que o mundo funciona desta forma? O que precisa de mudar – e precisa muita coisa – tem que ver com a posição da Igreja ou mesmo com características muito vincadas da sociedade portuguesa? E que distância vai do que a Igreja diz àquilo que eu acho que diz?

Por agora, o meu instinto pende muito para o lado societal da questão. Por um lado, sinto que nós, católicos portugueses nos conhecemos muito mal a nós próprios, e que há aspectos marcadamente religiosos nesta questão. Por outro, sinto que falar sobre o lugar das mulheres na Igreja sem passar pela realidade das mulheres em Portugal não será muito eficaz. Muito do que precisa de mudar não será um exclusivo católico, será apenas muito português. E se assim for, como é que me posiciono perante essa realidade?

Chegamos, assim, ao tempo da destrinça, de separar o trigo do joio. O exercício é simplicíssimo, consiste só em fazer perguntas sem vergonhas nem floreados: onde aprendi que as mulheres nasceram para acudir às necessidades dos outros? Onde aprendi buscar a ideia de que as mulheres e homens são naturalmente mais dotados para umas coisas que outras? Onde aprendi que as mulheres têm de se dar ao respeito? A lista é interminável.

É confortável? Não. Temos pena. O que arde, cura. E faz crescer.

 

Voltar à beira do poço | O re-encontro

“A Samaritana com a displicência meio provocadora, meio sedutora e sempre visceral dos que se sabem fora-da-norma. A deferência e o eufemismo não existem ali, e ainda bem.” Pintura: Jesus e a samaritana. Pierre Mignard, pintor francês (1612-1695).

 

Esquecemo-nos demasiadas vezes que o cristianismo não é uma doutrina, uma tradição, ou um conjunto de ideias estruturado. Tem-nos a todos, mas não é isso. Há quem o tenha dito inúmeras vezes com muito mais beleza: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.“  [1]

Talvez o passo fundamental para descobrirmos, juntos, o nosso lugar na Igreja do século XXI seja bem mais simples, e esteja ao alcance de todos: voltar ao encontro inicial, fechar a porta do quarto e ler os Evangelhos e ver como Jesus se posiciona e se relaciona com as mulheres com quem se cruza. Com as mulheres e não só, na verdade.

Reparar na forma como as ouve, como as levanta, como permite que o questionem, que o interpelem, que o critiquem e desafiem até. Marta fala-lhe com uma frontalidade e autenticidade – talvez a palavra certa seja intimidade – que escandalizam os dias líquidos de hoje, e que só podem vir da profunda confiança que é marca da verdadeira amizade. A Samaritana com a displicência meio provocadora, meio sedutora e sempre visceral dos que se sabem fora-da-norma. A deferência e o eufemismo não existem ali, e ainda bem. É refrescante, dada a nossa aversão contemporânea ao conflito.

Não há, por parte de Jesus, uma ponta de condescendência, de minimização, ou de desvalorização. Muito menos de paternalismo. Não faz delas suas empregadas. Há, como sempre, responsabilização e exigência, e uma imensa liberdade. Não prende, nem se deixa prender. E destila autoridade, a palavra tabu da pós-modernidade. Autoridade da boa, daquela que se reconhece e se quer seguir, daquela que liberta.

Daqui a algum tempo, quando formos, finalmente, adultos talvez possamos voltar também a falar do erotismo latente em tantos episódios do Evangelho. Precisamos de recuperar essa dimensão, por respeito ao esplendor do texto bíblico e porque nos faria bem, temos de reaprender a usar o corpo e os sentidos para nos relacionarmos com o mundo.

Talvez o início da estrada seja este, ler os textos que ouvimos todas as semanas há anos sem fim. Ler e ver. Ver a sério, com aquele olhar que desafia a imaginação e convoca todos os sentidos. O olhar que não pode levar senão ao desconcerto e ao espanto, talvez até à vergonha. Ler com uma folha em branco e uma caixa de lápis à frente, e imaginar, deixar aparecer os contornos dos corpos, os movimentos, as vozes, os cheiros, os ritmos. É difícil ao início, especialmente para os fãs de cinema bíblico e de westerns, mas vai-se depurando com o tempo. Ler, e ver com o olhar que leva a cair de joelhos.

E, em seguida, sair porta fora para fazer ao Seu estilo. Pela minha parte, não aceito ser tratada abaixo deste critério seja por que homem for na Igreja. Mulher alguma o deveria aceitar. Não por impertinência, mas porque se torna impossível viver com outra medida que não esta. E porque sei, por experiência, que é possível relacionarmo-nos assim.

Termino. Cada uma destas sugestões está ao alcance de cada um de nós e das nossas comunidades. Não precisam de orientações da Conferência Episcopal, de implosões institucionais, ou de muita Filosofia ou Teologia. Precisam de curiosidade, e de vontade. E de um bocadinho de História, vá.

 

[1] Papa Bento XVI, carta encíclica Deus Caritas Est, 1. 

 

Marta Saraiva é diplomata.

 

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Irritações e sol na cara

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