Um padre abusado na infância

“Não me lembro de ter decidido calar-me: a palavra não aflorou”

| 25 Jun 2023

A capa do livro Imploro-te Não Abuses

A capa do livro Imploro-te Não Abuses

Nos escombros de uma história real, há uma pergunta lancinante: depois de ter sido sexualmente abusado por um clérigo, como pode ter decidido ser padre? Passados quase 40 anos de silêncio e negação, o agora padre jesuíta Patrick C. Goujon decidiu regressar ao pesadelo da infância e acabar com a maior e mais dolorosa negação. 

É esse testemunho que se condensa no livro Imploro-te Não Abuses, agora publicado pela Paulinas Editora. 

Num registo autobiográfico, o autor conta a história dos padecimentos que sofreu durante décadas, sem que os médicos entendessem as causas. Até que uma sucessão de pequenos episódios o levou a reencontrar a palavra, libertando-o da verdadeira razão do sofrimento que o atingia. No livro, o autor faz uma reflexão sobre a negação, as questões psicológicas, as feridas que ficam como antecâmara de uma morte, o sentimento de culpa, as hesitações sucessivas, o problema do perdão, a necessidade de o direito canónico evoluir para que não sejam padres a julgar os factos… 

Pela importância do testemunho, o 7MARGENS publica a seguir alguns excertos do livro de Patrick C. Goujon, um texto indispensável para entender algumas das mais graves questões levantadas pelo problema dos abusos. 


Imploro-te Não abuses
Precário
(Precarius: obtido pela oração.
Precari: pedir)

Reencontrei a palavra, apesar de ignorar ter sido privado dela. Em criança, fui abusado por um padre, durante vários anos. Um dia, confrontei-me comigo próprio e decidi falar. Não tinha imaginado como isso seria tão benéfico! Teria bastado acreditar que a vergonha era apenas um fantasma, que não era nada comparado à paz de me libertar dos entraves. Não me tinha apercebido que me tinha calado.

Não me lembro de ter decidido calar-me: a palavra não aflorou. Durante muitos anos, procurei as minhas palavras, por instinto de sobrevivência. Admiro poetas e músicos que ouvem cantar o silêncio. Eles abriram-me os ouvidos. Tinha de sondar o coração de uma dor que acreditava ter passado. Felizmente, soube inventar uma vida, recebê-la de muitos encontros e maravilhamentos. Esta vida salvou-me! Escolhi ser padre católico, entre os Jesuítas. Há já quase vinte e cinco anos.

Durante anos, suspeitei que algo estava escondido. Mas nada à vista, nada a dizer. Até ao dia em que cuidei das minhas costas. Ou melhor, outros cuidaram por mim e, suavemente, convidaram-me também a fazê-lo. Falei, quando já não sentia dor. Tinha de levar – e tive que trazer – um segredo pesado, emparedado nas minhas vértebras, um grito abafado antes mesmo de poder ser expulso. Ao aliviar a minha dor, outros permitiram que a palavra se formasse. (…)

Era o outono de 2015. (…) Fui encaminhado para um reumatologista no hospital. Ele quis explorar todos os pormenores do meu estado de saúde. Perguntou-me há quanto tempo tinha dores. As hérnias dorsais e a lombalgia eram frequentes, há quase trinta anos. Tinha nós incrustados nos meus músculos. O reumatologista afastou-se do computador, no qual tomava notas. Antes de me auscultar, escutou-me. Ele permitiu-me entrar na minha história. Auscultare, escutar. Eu podia falar. (…)

 

Abusos Sexuais, Catarina Soares Barbosa

Ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7Margens

 

«Trinta anos de anti-inflamatórios, paramos. Permite-me que cuide de si? Vou encaminhá-lo para o nosso centro antidor. Vamos tentar a auriculoterapia e a hipnose.» Por uma vez, não tinha de convencer sobre os benefícios da osteopatia e da acupunctura que já tinham resultado em mim. Saía confiante, surpreendido com a recomendação das medicinas alternativas. (…)

Na primavera seguinte, fui a Roma para alguns dias de trabalho. (…) Uma manhã, decidi partir para a Basílica de São Pedro. Tinha reservado um lugar para visitar as escavações da necrópole, onde está o túmulo do Apóstolo. Atravessei a cidade de madrugada, pelas suas ruas estreitas. Tomei um expresso num café ao acaso, depois aproximei-me da avenida que conduz ao Vaticano. Não sou muito de devoções, mas senti como uma necessidade de ir lá. Um posto que recebia peregrinos tinha umas folhas que propunham um salmo. Era a oração dos que voltavam do exílio e alegravam-se de vislumbrar, no regresso, as muralhas da cidade.

Ao dizer as primeiras palavras, escutei: «Cuida-te!» Já não era o médico do hospital que falava comigo, nem mesmo a memória das suas palavras. Esta palavra ressoava em mim com a força de uma presença. Ela convidava-me à doçura para comigo mesmo. (…)

Negação. Tinha confundido essas três sílabas com as do esquecimento. A negação não esquece, ela conserva. O sofrimento não desaparece; ele não tem para onde ir. Ele esconde-se, enterra-se. A negação trabalha: faz moer todo o corpo. A negação comprime. Atomiza a dor. Esta espalha-se pelo corpo e pela mente. Aloja-se onde aparece uma fragilidade: dores nas costas, medos infantis, falta de liberdade. (…)

Durante longos meses, a vergonha de ter sido manchado agarrou-se-me à pele. Um padre, durante quase três anos, masturbou-se contra mim. A culpa não tardou a chegar. Não disse nada, então o que tinha a esconder? Será que tive prazer? O que tinha sentido em criança? Esse pensamento assombrava-me. Em mim, um muro tinha sido erguido: não terás acesso àquela imagem. Não voltarás ao que te destruiu. (…)

 

abusos sexuais, Catarina Soares Barbosa

Abusos sexuais; ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7Margens

 

Tomei a decisão de escrever ao bispo de Verdun para informá-lo deste padre pedófilo, na sua diocese. Não o fiz sem hesitação. Embora um jesuíta de confiança me tivesse aconselhado a não remexer em tudo isto, senti fortemente, pelo contrário, que tinha de falar. O trabalho regular, desde aquele dia de Páscoa, com uma psicóloga, ajudava-me. Tomei a decisão num espaço de silêncio, esmagado, mas não derrotado. (…)

Não estava muito tranquilo nem seguro de que teria uma resposta. Fechei a carta e enviei uma segunda via ao bispo responsável pela Comissão de Luta contra os Abusos em França. Este último ligou-me dois dias depois. O bispo de Verdun recebeu-me no mês seguinte. Eu tinha sido ouvido. Ele já tinha denunciado o meu caso ao procurador. «Vá até ao fim, eu apoio-o.» O bispo encorajou-me. (…)

A minha oração transformou-se. Encontrava o sabor desta época, no limiar da noite, na capela da comunidade. Diante do crucifixo medieval que me era familiar, ficava à distância, à espera que Cristo passasse no silêncio, como Ele gostava. Eu entregava-me. Apoiava-me no sopro que o canto cultivara em mim. Sentar-se ajuda e dispõe. A oração jaz ao nível do solo. Ela sobe das entranhas. O corpo precisa de descobrir como a alma pode encontrar o que procura. (…)

Decidi agir. Vou apresentar queixa. Segundo o procedimento, o queixoso coloca as coisas no seu lugar. O termo delito, que faz parte do vocabulário judicial, permite-lhe qualificar os abusos que sofreu de outra forma, além do trauma que o aflige. A lei muda o seu ponto de vista. Até ali, não tinha reconhecido a gravidade das agressões. No enquadramento abstrato do Código Penal, o queixoso descobre finalmente que não é o único a recusar o que lhe foi imposto. A lei proíbe-o. (…)

A criança não fecha a porta a quem vem acariciá-la. É aqui que ela é abusada. Deste verbo, o dicionário, no seu laconismo, exprime tudo: «Abusar de uma pessoa: possuí-la quando ela não está em condições de recusar.» O resto faz estremecer: «Usar até o objeto desaparecer.» (…)

«E, no entanto, você hoje é padre. Como é possível?» O inspetor de polícia perguntou-me como um aparte. A resposta veio, direta: «Acredito em Deus.» Dou por mim a dizê-lo com evidência. A perturbação dos últimos anos permitiu-me voltar a esta resposta. Porque escolhi ser padre? Deveria continuar a sê-lo, hoje? Era feliz na minha vocação, mas forcei-me a colocar a pergunta. Queria chegar à verdade sobre as minhas decisões. Isto foi um trabalho profundo. (…)

 

Catarina Soares Barbosa, abusos

Ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7Margens

 

Camus perturbou-me. O «santo sem Deus» de A Peste parecia-me ser o ponto ao qual o cristianismo me conduzia. O credo do doutor Rieux ressoou em mim. «Não tenho gosto, acho, por heroísmo e santidade. O que me interessa é ser homem.» Poderia ter feito minha a sua confissão.

Mas fui tomado pelas entranhas pelo Deus que Moisés descobre na sarça ardente. 

«Eu bem vi a opressão do meu povo, e ouvi o seu clamor diante dos seus opressores.» Esta frase não resolve nada, mas comoveu-me. Ela voltou-me para Deus e fez-me descobri-lo de modo diferente do que imaginava. Deus deixava-se abalar e não habitava um Olimpo sobre a nossa terra. (…)

A consciência traz dentro de si esta voz.

A pedocriminalidade é um escândalo no seio da Igreja, além de ser crime. Ela faz cair os mais pequenos, e alguns nunca mais recuperam. Tudo deve ser feito para garantir que isso não aconteça. Nós reaprenderemos assim que, como cristãos, partilhamos o destino da Humanidade dilacerada pela violência. Vivemos os mesmos combates e aspiramos todos à paz. (…)

Curar leva o tempo de uma vida. Estou a aprender a não apressar nada que um dia possa eclodir. Porém, a minha paciência é diligente. Sinto-me impotente em perdoar. Não digo «incapaz» ou «a não desejar». Digo «impotente».

Os abusos matam. Eles destroem, lentamente. Não tenho o poder de recriar em mim o que foi arruinado. Posso viver. E isso não tem preço. Há alegria maior? Vivo, mas com feridas. Elas fizeram-me compreender que a morte tinha feito a sua obra em mim. Ela fá-lo em cada um. Mas esta morte é criminosa. Posso viver com cicatrizes, mas não tenho o poder de recriar o que foi destruído.

O meu perdão, por si só, não será suficiente. É preciso redescobrir a promessa original: cada um de vós poderá viver e amar. O perdão toca a criação. Não tenho esse poder.

Peço-o a Deus, de quem espero que o perdoe. Ignoro como isso se fará. Espero-o. (…)

Não quero imaginar que este homem, com uns cinquenta anos na altura dos factos, e, agora, na casa dos noventa, tenha passado o resto da vida com os seus crimes na consciência. Gostaria que lhe tivesse sido permitido descobrir o seu erro. Entrei no tempo em que pude esperar ouvir os seus arrependimentos. (…)

abusos sexuais na Igreja; ilustração © Catarina Soares Barbosa

Abusos sexuais na Igreja; ilustração © Catarina Soares Barbosa

Percebi que esperava que esse perdão me fosse pedido para o conceder. Naquele momento, fui libertado daquilo que em mim ainda resistia. Não podia mais negar a minha ferida, mas não precisava de me colar a ela. Fui, então, libertado do meu agressor com o vivo desejo de que tivesse sede desta graça. (…)

Uma manhã, o bispo de Verdun telefonou-me. Roma autorizava-o a abrir um inquérito canónico. (…)

Senti, no entanto, imediatamente um incómodo, não só por ter de testemunhar novamente, mas também face ao procedimento. A Igreja seria juíza e parte: a investigação seria conduzida pela diocese, onde os factos tinham ocorrido e por padres em atividade naquela época.

Caberia, então, apenas ao bispo compilar o ficheiro. Porque não confiar a instrução a outros, homens e mulheres, com mais distância? E, depois, a investigação voltaria a centrar-se no agressor sem verdadeiramente questionar o que tinha sido feito pela diocese em relação a um padre cujos crimes não eram ignorados. O direito interno da Igreja ainda precisa de evoluir. Além disso, o clero e os fiéis ganhariam em revisitar o passado sob este ângulo: como gerimos essas suspeitas, alimentámos rumores, silenciámos testemunhas, ocultámos casos e denunciámos outros padres agressores? Agora que a Igreja começa a enfrentar estes abusos, cada um poderia situar-se melhor. (…)

O bispo enviou o seu relatório a Roma e coube-lhe decidir uma medida de tipo administrativo. Este padre não podia mais celebrar os sacramentos, disse-me por uma nova conversa ao telefone. Isto pode parecer irrisório para uns, excessivo para outros. Contudo, a sanção faz sentido num universo onde o estado clerical passa às vezes por intocável. (…)

Não posso negar a alegria. Os meus amigos não me reconheceriam se não lessem o que sustenta o canto, o estudo, o gosto de ensinar, a minha vida de jesuíta e o amor daqueles que encontro e espero servir de alguma maneira. (…)

Então, dou forma a uma oração:

Que o nosso ouvido escute a queixa,
E os nossos olhos verão os corpos que gelam.
Decifremos os murmúrios;
Arrisquemos a nossa palavra, precária.
As crianças levantar-se-ão para nos conduzir.

 

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