Ainda a propósito do Dia da Criança.
Recebi há pouco o relatório do Mecanismo Global de Financiamento para a saúde de mulheres e crianças (GFF, na sigla em inglês).
O GFF tem como países parceiros (países-alvo) aqueles que podemos dizer cruelmente serem os piores países no mundo para se nascer. Digo “para se nascer”, quase como insinuando uma opção possível. Tragicamente não é. Não escolhemos o lugar onde nascemos. Milhões de crianças neste mundo são simplesmente sujeitas à desgraça, à nascença. Repitamos: não têm escolha. Nem vez. Nem voz. Apenas a fatalidade de ter nascido no lugar errado, no momento errado da história. Porque os há. Não nos deixemos iludir.
Não tem que ser assim. Cabe-nos a nós, todos, mudar essa realidade. A nós, que temos opções. Fazemos escolhas. Imaginamos um futuro outro. Em cada um dos nossos pequenos passos. Na voz que escolhemos ouvir, na imagem que decidimos atentar, no meio do ruido constante que nos oferece o mundo em que vivemos. Temos esse poder.
Olhemos novamente para o relatório do GFF. Aponta a saúde materno-infantil como “um dos desafios mais persistentes e de maior impacto no contexto da saúde global”, e descreve a sua própria missão a partir do “reconhecimento urgente e coletivo de que a saúde das mulheres, crianças e adolescentes — apesar de representarem o alicerce do futuro de cada país — permanecia cronicamente sub-financiada e carente de apoio.”
O mais interessante nesta introdução ao relatório vem a seguir: “o que faltava não era apenas mais dinheiro; faltava foco, um melhor aproveitamento dos recursos já disponíveis e, sobretudo, sentido de apropriação [por parte do países parceiros; beneficiários].”
Ao cabo de cerca de dez anos de trabalho, os resultado são visíveis. Apesar de enfrentarem das maiores taxas de mortalidade materna e infantil a nível global, todos os países parceiros alcançaram avanços significativos nos resultados de saúde e nutrição infantil, tendo salvo milhões de vidas condenadas à partida e à nascença.
Para os que gostam de dados, vamos a números. Até à data, a parceria do GFF ajudou a que 160 milhões de grávidas conseguissem quatro ou mais consultas pré-natais (28 milhões em 2024), 195 milhões de mulheres tivessem acesso a um parto seguro (31 milhões em 2024) e 209 milhões de recém-nascidos iniciassem amamentação precoce (37 milhões em 2024). Em dez anos, esta parceria ajudou ainda a evitar 386 milhões de gestações não planeadas como resultado de acesso assegurado a contracepção eficaz (54 milhões em 2024).
Os números são impressionantes. Este não é no entanto um texto sobre o trabalho do GFF. Nem sequer um texto sobre o poder das instituições internacionais em apoiar a transformação das realidades mais duras.
Este é essencialmente um testemunho do potencial de vontades conjugadas: de indivíduos, de organizações, de governos, de profissionais, de investigadores de empresários, e muitos, muitos outros mais.
No domínio da cooperação internacional, o contexto actual é adverso. Sabemo-lo bem. Como sempre foi, aliás. A escassez de recursos adicional imposta pelos cortes de países-chave tornou tudo mais difícil. Arriscamos regredir. Agora mesmo a realidade global de apoio ao desenvolvimento aos países mais pobres parece-nos perdida. Sentimos o retrocesso de décadas de empenho político e institucional. A mim, pessoalmente, sai-me das vísceras o nojo para com a insensibilidade, a ignorância e a avidez de uns. Não escondo. Seria desonesto. Sem rodeios, sei que muitos lerão estas palavras a pensar na recente administração dos EUA. Percebo. Eu faria o mesmo.
Mas não chega. Sinto infelizmente que nos detemos vezes demais nessa crítica fácil. Num insulto e num queixume ininterrupto contra aqueles que optaram por abandonar os mais pobres de entre os pobres.
E no entanto.
Seria uma cobardia olhar para estas adversidades para justificar a inércia. Sobretudo quando lidamos com países que nunca conheceram outra coisa senão adversidade. Aprendamos com esses. Com os melhores. Aprendamos com os Chades, os Burkinas, e as Somálias deste mundo. Aprendamos a transformar, a construir e a viver em adversidade. E a encontrar nesse contexto o que de melhor temos para oferecer. E não desistir do futuro.
Em quatro anos de trabalho intenso no GFF, aprendi no terreno que este caminho não se faz sozinho. Como diz o relatório agora publicado, “Nada disto é algo pelo qual uma só instituição ou equipa possa reivindicar o mérito. O GFF funciona porque os governos assumem a liderança, porque os profissionais de saúde estão presentes e porque os parceiros estão dispostos a colocar um plano partilhado acima das suas próprias preferências. O nosso papel é apoiar isso mesmo e continuar a aprender com o processo.”
O apelo é pois para que nos foquemos no essencial. Sem distrações. Atendamos a esses países. Procuremos novas parcerias. Trabalhemos com todos. Todos mesmo. Usemos os meios ao nosso alcance para continuar o que sempre soubemos funcionar: trabalhar em parceria. Muitas. Estratégicas. Criar laços de confiança – pessoais e institucionais. Definir objectivos partilhados. Discernir o poder da ambição colectiva.
Aqueles que querem fazer parte deste esforço global juntar-se-ão. E são muitos. Muitos mesmo. Deixemos de lado os que não se interessam. Por agora. A história encarregar-se-á do resto. Não nos deixemos distrair. Foquemo-nos no essencial. Não desistamos do futuro. Que o Dia da Criança nos ajude a relembrar isso mesmo. Há um futuro comum a cuidar.
Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.










