“Não podemos abandonar seres humanos na neve”: ONG alertam para sofrimento de migrantes nos Balcãs

| 30 Dez 20

migrantes Bosnia, Foto IOM 2020_Ervin Causevic

Grupo de migrantes abandona o campo de refugiados de Lipa, na Bósnia, depois de este ter sido destruído num incêndio. Foto: IOM/Ervin Causevic.

 

O Centro Astalli (Serviço Jesuíta aos Refugiados italiano) e a Cáritas Ambrosiana (da diocese de Milão) apelaram esta segunda-feira, 28, para o “risco de uma catástrofe humanitária” no noroeste da Bósnia, onde milhares de migrantes e refugiados se encontram sem abrigo, expostos a temperaturas negativas e à queda de neve, depois de o campo onde muitos deles residiam, em Lipa, ter sido na semana de Natal destruído por um incêndio.

“A situação nos Balcãs, na fronteira com a Itália, é uma violação dos direitos humanos contra pessoas que fogem da guerra e de crises humanitárias como as do Iraque, Síria e Turquia”, pode ler-se no comunicado divulgado pelo Centro Astalli. A instituição manifesta-se “alarmada com as condições de extremo perigo, pobreza e sofrimento em que se encontram milhares de migrantes (…) vítimas de um grande incêndio que arrasou o campo onde viviam em condições já inaceitáveis”.

A situação atinge cerca de três mil refugiados, a cerca de 30 quilómetros de Bihac, na Bósnia-Herzegovina, que estão neste momento a dormir na mata, sem água nem comida, ou na única tenda que não foi devorada pelas chamas. “Vivemos como animais. Ou mesmo pior. Se ninguém nos ajudar, morreremos” é o grito desesperado de Kasim, um paquistanês que sobrevive nesse inferno, citado numa reportagem do diário italiano Corriere della Sera.

Para o padre Camillo Ripamonti, director do Centro Astalli, “a Europa deverá assumir a tarefa de ativar planos de recolocação e redistribuição em todos os Estados Membros para resgatar os migrantes forçados que têm direito a ser acolhidos e protegidos”. “Não podemos abandonar seres humanos na neve”, sublinha o responsável.

“Há dezenas de testemunhos de maus tratos que registamos, alerta por seu lado a Cáritas Ambrosiana, num comunicado citado pelo Vatican News. “Além dos perigos relacionados com o atravessamento de áreas com minas que remontam às guerras dos anos 90, as condições físicas e psicológicas dos migrantes deterioram-se rapidamente e os riscos de confrontos com as comunidades locais aumentam”.

Também Peter van der Auweraert, chefe da missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) na região, denunciou a situação na sua conta de Twitter e pediu “coragem política” e “ação imediata”. A União Europeia havia já alertado a Bósnia para a necessidade de serem tomadas medidas de urgência no sentido de apoiar todos os refugiados e migrantes, em particular com a chegada do inverno.

O dispositivo de assistência que ali funcionava há escassos meses era gerido pelas autoridades locais, com assistência da Organização Internacional para as Migrações (OIM), como resposta ao afluxo crescente de migrantes que buscam entrar na União Europeia e vivem nas zonas fronteiriças em condições extremamente precárias. disse van der Auweraert, nas vésperas de Natal. “Por vários motivos, principalmente políticos, ele nunca foi ligado à rede de água ou eletricidade e nunca foi preparado para o inverno. E agora, depois do incêndio, nunca será. ”

De acordo com o serviço de notícias das Nações Unidas, a OIM, a Cruz Vermelha e outras associações humanitárias estão no terreno a distribuir alimentos, roupas quentes, sacos-cama e conjuntos de higiene. Não foi identificado, no entanto, nenhum campo ou outro local na região com capacidade para acolher os cerca de três mil migrantes.

As Nações Unidas expressaram a sua preocupação e prometeram apoio nos esforços para encontrar soluções. Um comunicado exortou as autoridades a que se envolvam “imediatamente na preparação para o inverno do acampamento de tendas de emergência de Lipa e [na oferta de] uma opção de abrigo alternativo enquanto o trabalho está sendo realizado, para identificar e disponibilizar novos locais para pessoas presas ao ar livre com temperaturas abaixo de zero”.

Van der Auweraert, da OIM, observou que, embora os migrantes ainda estivessem na região, alguns planeavam ir para Sarajevo, enquanto outros encontrariam lugares para dormir na rua localmente. “O que nos preocupa é que muitos já disseram que irão para Sarajevo ou Velika Kladuza, mas já sabemos que não há capacidade adicional em nenhum dos abrigos para homens solteiros. Isso provavelmente fará com que as pessoas se mudem para mais perto da fronteira”, alertou. “Este é um cenário de pesadelo: essas pessoas deveriam estar dentro de casa, assim como o resto da Europa está nesta época de férias.”

“O acampamento de Lipa nasceu mal. Quatro barracas-dormitório, forradas de oleado, cada uma com 120 beliches, mais uma barraca que servia de refeitório e alguns duches químicos. A eletricidade vinha de geradores a querosene, que explodiram com os primeiros nevões. A água começou a congelar”, descreve, ao jornal La Repubblica (disponível só para assinantes), Silvia Maraone, coordenadora dos projetos ao longo da rota dos Balcãs na Ipsia, uma ONG que atua na Bósnia há 25 anos e em campos de refugiados do país desde 2018.

Os migrantes são todos muito jovens, entre 23 e 25 anos e incluem alguns menores. Vêm principalmente do Afeganistão e do Paquistão. “Eles pedem comida, roupas, sacos de dormir e barracas. As pessoas precisam de tudo. É um desastre humanitário”, continua Maraone. Alguns, depois do incêndio, saíram para tentar o que chamam de “o jogo”: chegar à Croácia – e à União Europeia. Mas não contam com a polícia: assim que chegam à fronteira são capturados, muitas vezes espancados, despojados do pouco que trazem consigo, levados de volta e abandonados nas montanhas, no bosque ou nas margens de um rio.

Enquanto esperam uma solução, há moradores que organizam piquetes em frente ao acampamento para evitar ter os migrantes por perto e, em Sarajevo, uma reunião entre os governos central e local tenta encontrar uma solução. “É o abismo da humanidade. Há muita cegueira por parte das instituições locais. Pessoas que foram refugiadas e fugiram da guerra há 25 anos, hoje não reconhecem essas pessoas que estão a morrer de frio. É como se tivessem esquecido o que já passaram. Uma violência indescritível”, diz Maraone.

A Bósnia, descreve ainda o La Repubblica, tornou-se o gargalo de uma rota de migrantes que tentam chegar à Europa vindos da Ásia. Cerca de 70.000 pessoas – refugiados, migrantes e requerentes de asilo – já foram registadas no país, nos últimos dois anos. Das cerca de nove mil pessoas que vivem atualmente na Bósnia, apenas seis mil estão nos campos. As restantes dormem ao ar livre, nos edifícios e fábricas em ruínas ou abandonados na sequência da guerra da ex-Iugoslávia. “É o abismo da humanidade.”

 

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