Foi um discurso mais longo do que o habitual em Francisco, mas o contexto atual assim o exige. Ao dirigir-se aos membros do Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé para as habituais felicitações de Ano Novo, o Papa fez questão de invocar, não só os inúmeros confrontos armados que deflagram no mundo – uns mais falados que outros – mas também as “muitas misérias do nosso tempo”, como a propagação de notícias falsas, o tráfico humano, a perseguição religiosa, ou a crise climática. “Não podemos continuar indiferentes a tudo isto! Não temos esse direito!”, apelou, perante mais de uma centena de embaixadores dos cinco continentes.
“O meu desejo para este ano de 2025 é que toda a comunidade internacional se esforce, antes de mais, para pôr fim à guerra que ensanguenta a martirizada Ucrânia há quase três anos e que causou um enorme número de vítimas, incluindo tantos civis”, destacou o Papa na audiência que decorreu esta quinta-feira, 9 de janeiro, no Vaticano.
“De igual modo, renovo o meu apelo a um cessar-fogo e à libertação dos reféns israelitas em Gaza, onde se vive uma situação humanitária muito grave e ignóbil, e apelo a que a população palestiniana receba toda a ajuda necessária”, continuou, manifestando o desejo de que “que israelitas e palestinianos possam reconstruir as pontes do diálogo e da confiança mútua, a começar pelos mais jovens, para que as gerações vindouras possam viver lado a lado em dois Estados, em paz e segurança, e para que Jerusalém seja a “cidade do encontro”, onde cristãos, judeus e muçulmanos convivam em harmonia e respeito”.
Assinalando que “a guerra é alimentada pela proliferação contínua de armas, cada vez mais sofisticadas e destrutivas”, o Papa reiterou o apelo já feito na bula em que anunciava o Ano Jubilar, Spes non confundit, para que com o dinheiro usado em armas e noutras despesas militares, seja constituído “um Fundo mundial, para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos países mais pobres”.
Francisco insistiu depois na ideia que tem repetido inúmeras vezes ao longo dos últimos meses – “a guerra é sempre um fracasso” – e disse peremptoriamente: “Não podemos aceitar, de forma alguma, o bombardeamento de populações civis ou o ataque a infraestruturas necessárias para a sua sobrevivência. Não podemos aceitar ver crianças a morrer de frio porque os hospitais foram destruídos ou foi atingida a rede energética de um país”.
Em seguida, alertou: “Toda a comunidade internacional parece concordar sobre o respeito do direito internacional humanitário, mas a sua não aplicação plena e concreta levanta questões”. Para o Papa, é preciso que esse direito se torne efetivo e que a comunidade internacional se esforce ativamente para que os direitos invioláveis do homem não sejam sacrificados diante de exigências militares. Por isso, apelou “a que se continue a trabalhar a fim de que o incumprimento do direito internacional humanitário deixe de ser uma opção”.
Mencionou então inúmeros conflitos que persistem em diferentes partes do globo, desde o Sudão, Sahel, Corno de África, Moçambique ou República Democrática do Congo, no continente africano, até ao Haiti, Venezuela, Bolívia, e Colômbia, na América Latina, sem esquecer Myanmar.
Múltiplas escravaturas e o compromisso da Santa Sé

Antes de terminar, o Papa fez ainda questão de lembrar que “continuam a existir múltiplas formas de escravatura, a começar pela que diz respeito ao trabalho”, a qual “é pouco reconhecida mas muito praticada”. Foto © Vatican media
Perante o que considera ser uma “ameaça cada vez mais concreta de uma guerra mundial”, Francisco lamentou que as instituições multilaterais se mostrem incapazes de garantir a paz e a estabilidade e sugeriu que “muitas delas precisam de ser reformadas, tendo em conta que qualquer reforma deve ser construída com base nos princípios da subsidiariedade e da solidariedade, e no respeito pela igual soberania dos Estados”. E defendeu que “a vocação da diplomacia é favorecer o diálogo entre todos, incluindo os interlocutores considerados mais incómodos ou que não se considerariam legitimados para negociar”.
No seu discurso – que Francisco pediu a um colaborador da Secretaria de Estado do Vaticano para continuar a ler, por se encontrar constipado – lamentou ainda “a criação e disseminação contínua de notícias falsas”, que, segundo o Papa, “não distorcem apenas a realidade dos factos, como acabam por distorcer as consciências, suscitando falsas percepções da realidade e gerando um clima de suspeita que fomenta o ódio, prejudica a segurança das pessoas e compromete a convivência civil e a estabilidade de nações inteiras”.
Para o líder da Igreja Católica, é urgente a aposta na “alfabetização mediática”, que forneça, em particular aos jovens, “instrumentos essenciais para promover as capacidades de pensamento crítico” e lhes permita “uma participação ativa no futuro das suas sociedades”.
Apelando a uma “diplomacia de esperança” que é, antes de mais, “uma diplomacia da verdade”, o Papa defendeu que a falta de ligação entre realidade, verdade e conhecimento leva a que a humanidade não consiga “falar e compreender-se mutuamente, porque faltam os fundamentos de uma linguagem comum, ancorada na realidade das coisas e, portanto, universalmente compreensível”.
Francisco recordou ainda aos diplomatas que “não há verdadeira paz se não for também garantida a liberdade religiosa” e disse serem “preocupantes as crescentes manifestações de antissemitismo”, que “afetam um número cada vez maior de comunidades hebraicas no mundo”.
“Não posso ficar calado perante as numerosas perseguições contra várias comunidades cristãs, muitas vezes perpetradas por grupos terroristas, especialmente em África e na Ásia, nem perante formas mais ‘delicadas’ de limitação da liberdade religiosa que, por vezes, se verificam mesmo na Europa”, acrescentou.
Antes de terminar, o Papa fez ainda questão de lembrar que “continuam a existir múltiplas formas de escravatura, a começar pela que diz respeito ao trabalho”, a qual “é pouco reconhecida mas muito praticada”. “Demasiadas pessoas vivem como escravas do seu trabalho, que de meio se transformou num fim da própria vida, e são frequentemente escravas de condições laborais desumanas, em termos de segurança, horários e salário”, denunciou.
E denunciou também como outra “escravatura do nosso tempo” aquela que é “praticada pelos traficantes de seres humanos”. “Temos de cuidar das vítimas deste tráfico, que são os próprios migrantes, forçados a percorrer a pé milhares de quilómetros na América Central e no deserto do Saara, ou a atravessar o Mar Mediterrâneo ou o Canal da Mancha em embarcações improvisadas e sobrelotadas, para depois serem rejeitados ou se encontrarem clandestinos numa terra estrangeira”, pediu, lamentando que a migração continue “envolta numa escura nuvem de desconfiança, em vez de ser vista como uma fonte de desenvolvimento”.
Por fim, assinalou que “a natureza parece estar a insurgir-se, sempre mais, contra a ação humana, através de manifestações extremas do seu poder” e que todos “temos o dever de envidar o máximo esforço para cuidar da nossa casa comum e daqueles que a habitam e habitarão”, apelando às nações mais ricas que perdoem as dívidas dos países pobres, que são também os mais vulneráveis à crise climática. “Não se trata apenas de um ato de solidariedade ou de magnanimidade, mas sobretudo de um ato de justiça, marcada também por uma nova forma de iniquidade da qual estamos hoje cada vez mais conscientes: a ‘dívida ecológica’, particularmente entre o Norte e o Sul”, esclareceu, assegurando que a Santa Sé “está disposta a acompanhar este processo, consciente de que não há fronteiras nem barreiras, políticas ou sociais, atrás das quais nos possamos esconder”.
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