
Perante uma catedral que foi pequena para tantos bispos, padres, diáconos, pessoas consagradas, seminaristas e catequistas, Francisco lembrou a todos que anunciar Cristo significa servir os pobres. Foto © Vatican Media
Num país em que 98% da população se assume como católica e os padres são tratados por “Amu” – o título mais importante da sociedade timorense, que significa “Senhor” – Francisco pediu-lhes que não se sintam superiores em relação ao povo. “O padre é um instrumento de bênção”, disse o Papa durante o encontro com o clero, que decorreu na Catedral de Díli esta terça-feira, 10 de setembro. E, acrescentou, “nunca, jamais, deve aproveitar-se da sua função, mas deve sempre abençoar, consolar, ser ministro de compaixão e sinal da misericórdia de Deus”.
Contrariando as expetativas de alguns, Francisco não se referiu ao tema dos abusos sexuais – que havia abordado superficialmente no dia anterior, à chegada a Timor-Leste – mas insistiu no problema do clericalismo, assinalando que o facto de os padres serem reverenciados pode conduzir a que se “deixem levar pela tentação do orgulho e do poder”.
“Não, o ministério é um serviço. E se algum de vós não se sente servo do povo, peça conselhos a algum sacerdote sábio para o ajudar a ter esta dimensão tão importante”, apelou Francisco. “Lembremo-nos que com perfume devemos ungir os pés de Cristo, que são os pés dos nossos irmãos na fé, começando pelos mais pobres. Os mais privilegiados são os mais pobres. E com este perfume temos de cuidar deles”, acrescentou ainda, tendo certamente em mente a visita que fizera minutos antes a uma escola para crianças deficientes.
O Papa assinalou depois que o “perfume do Evangelho deve ser difundido contra tudo o que humilha, deturpa e até destrói a vida humana, contra as chagas que geram vazio interior e sofrimento”, e deu como exemplos o alcoolismo, a violência e “a falta de respeito pela dignidade das mulheres”.
Face a esta última, o Papa dirigiu-se em particular às religiosas presentes na Catedral, dizendo-lhes que devem levar a mensagem de que “as mulheres são a parte mais importante da Igreja, porque cuidam dos mais necessitados: curam e acompanham-nos”. E pediu-lhes: “Sejam mães do povo de Deus; tenham a coragem de criar comunidades, de serem mães”.

“As mulheres são a parte mais importante da Igreja, porque cuidam dos mais necessitados”, afirmou o Papa, dirigindo-se às religiosas presentes. Foto © Vatican Media
Perante uma catedral que foi pequena para tantos bispos, padres, diáconos, pessoas consagradas, seminaristas e catequistas, Francisco lembrou a todos que anunciar Cristo significa servir os pobres, vigiando-nos a nós mesmos, “porque a mediocridade e a tibieza espiritual andam sempre à espreita”.
O Papa convidou ainda os líderes pastorais a não pararem “de aprofundar a doutrina cristã, de amadurecer a partir da formação espiritual, catequética e teológica”, pois, disse ainda Francisco, “tudo isto serve para anunciar o Evangelho na vossa cultura e, ao mesmo tempo, para a purificar de formas e tradições arcaicas, por vezes supersticiosas. A pregação da fé deve ser inculturada na vossa cultura, e a vossa cultura deve ser evangelizada. E isso aplica-se a todos os povos, não apenas a vós”, assinalou.
“Também o vosso país, radicado numa longa história cristã, precisa hoje de um renovado impulso na evangelização, para que chegue a todos o perfume do Evangelho: um perfume de reconciliação e de paz, depois dos sofridos anos da guerra; um perfume de compaixão, que ajude os pobres a reerguerem-se e que suscite o compromisso em levantar os destinos económicos e sociais do país; um perfume de justiça contra a corrupção”, concluiu.









