Não se pode adiar o último adeus – covid-19 e humanismo

| 28 Abr 20

Há comportamentos e acontecimentos que são analisados, conforme as circunstâncias em que se encontram. Concretamente, valorizam ou relativizam sentimentos consoante sejam os seus ou expressos por outros. Ao escrever no dia em que se assinala o 25 de Abril, dou como exemplo a valorização que fazem desta efeméride os que sofreram na alma e no corpo as consequências da luta pela Liberdade, e os que não chegaram a conhecer os tempos da ditadura. É uma questão de níveis de empatia e, em determinados casos, mesmo de compaixão (com+paixão), um valor humano nobre e fundamental que permite a alguém “meter-se na pele do outro”, ou ainda mais, sem retóricas inúteis sobre o sofrimento do outro, ser capaz de o assumir, de verdade, como seu.

Percebe-se melhor tudo isto quando se vivem tempos como os atuais. Como ninguém está imune a sofrer as consequências da pandemia gerou-se, com fácil rapidez, uma quase total unidade em torno da aceitação das regras impostas para tornar menos agressiva a crise sanitária vigente e mesmo caminhar no sentido de as superar. Têm valido a pena os esforços pedidos, mas tudo indica que a luta não está ganha. É preciso manter os cuidados em curso, porque a infeção é em grande parte impercetível. Porém, há obrigações que podem ser aligeiradas para evitar maiores danos à economia, à coesão social e ao relacionamento humano.

Quanto a mim, estas três dimensões da organização social são muito pertinentes. As adversidades que o novo coronavírus está a criar à economia parece-me ser mais o estertor do sistema económico predominante (o último sinal foi dado com a crise económica e financeira de 2008 a 2014) que reclama por um sistema mais humanizado que coloque, com verdade, as pessoas e o cosmos no centro das suas prioridades e não a concorrência selvagem e a obtenção do lucro a qualquer preço.

A coesão social está, mais uma vez e em tão curto espaço de tempo, ameaçada na sua já preocupante fragilidade. Os tentáculos da pobreza estão a crescer e a agarrar gente que dela já se tinha libertado. Medidas de proteção social já determinadas pelo Governo são oportunas. Apelo, no entanto, mais uma vez, à criação de um Plano de Contingência Social com três tipo de intervenção complementares: (1) emergência, (2) inclusão social, e (3) acompanhamento das medidas socioeconómicas implementadas. Não perdi a esperança de que esse plano esteja prestes a surgir e que seja coordenado pela Presidência do Conselho de Ministros.

Mas a preocupação maior que me assola tem que ver com a capacidade criativa para a retoma do crescimento económico, assegurando, gradualmente, o reinício das atividades económicas, com maior preocupação para os familiares, pequenas e médias empresas. Tenho uma outra preocupação, de não menor importância, pelas suas implicações no curto e médio prazo na sanidade mental de muitas pessoas, embora dependendo da robustez emocional e psíquica de cada uma. Para esta preocupação peço medidas urgentes. Refiro-me (1) à evocação de importantes efemérides, (2) à participação em acontecimentos marcantes como são as visitas a lares e hospitais, mas sobretudo (3) a participação em celebrações exequiais.

O Presidente da República foi muito assertivo, no seu discurso do 25 de Abril no Parlamento ao afirmar que uma coisa é festejar e outra é evocar. Deu conta que, em tempo oportuno, se fará a evocação dos que já pereceram com a covid-19. Receio que isso não seja suficiente para os familiares que não puderam fazer o luto oportuno e alguns já com indícios de depressão psíquica. Conheço várias pessoas. Regra fundamental: defender, sem complacências, os grupos de risco. As autoridades de saúde sabem como isso se assegura. Mas, sendo os cemitérios amplos, alguns crematórios e casas e capelas mortuárias com dimensões razoáveis, não seria de alargar o número de pessoas a poderem estar junto do sofrimento dos seus familiares e amigos?

Segundo o virologista/cientista Pedro Simas, do “ponto de vista sanitário o morto não apresenta risco de contaminação, desde que bem preparado, mesmo com caixão aberto”. O problema é o distanciamento social. Os colaboradores das autarquias que trabalham nos cemitérios, os funcionários dos crematórios, os sacerdotes e pastores das diferentes confissões religiosas e, sobretudo, os familiares diretos dos falecidos teriam de se responsabilizar pela concretização do distanciamento, não se iniciando qualquer ritual sem estar assegurada esta obrigação.

Outra possibilidade seria o dever de utilização de máscaras por todos os que participassem nos rituais fúnebres. A cerimónia de um casamento, batizado ou aniversário natalício, como outras efemérides, podem ser adiadas, mas a derradeira despedida deste mundo não. Governantes e autoridades de saúde tomem medidas céleres. Não estamos perante um problema menor. Para além de ser uma questão de humanismo é, para muitos, o anúncio de uma perturbação de saúde mental a prazo.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Cáritas Portuguesa

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