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Não sei escrever sobre a saudade

| 09/11/2024

Saudade

“Pode até ser que a saudade seja um acaso feliz depois do infortúnio. Uma vez que ausência está garantida, é melhor sentir saudade do que não sentir. Sob essa perspectiva, a saudade é bem-vinda.”

 

Certa vez propuseram-me escrever sobre a saudade. Quem me lê nestas páginas já se deve ter apercebido de duas coisas: a primeira delas, é que não escrevo sobre temas virais, ou seja, não escrevo sobre os “bafões” da atualidade. Preconceitos à parte, o motivo é simples, não me apetece escrever sobre aquilo que as pessoas estão fartas de ler na semana em questão. A segunda delas, é que não escrevo sobre abstrações. Pelo que não saberia escrever sobre a saudade. A saudade é uma abstração.

Prefiro escrever sobre personagens que sentem saudade. Gestos que refletem saudade.

Sentei-me na frente do computador decidida a executar a tarefa.  Olhei pela vidraça da sala e a neblina escondia os dinossauros adormecidos de Monchique, era como se a paisagem terminasse logo ali na margem do meu quintal. Os lençóis esquecidos na corda desde o dia anterior, marcavam a fronteira; de tão encharcados nem obedeciam ao vento que fazia dançar o arbusto (cujo nome desconheço) forrando o chão de imensas pétalas rosa, que dele saltavam.

Encarei o ecrã, depois o teclado e novamente o ecrã.

Tenho de escrever sobre a saudade, forcei.

A cascata que descia da caleira fazia o tanque transbordar e tive medo de que os peixinhos viessem a reboque desse transbordo. Fiquei atenta. A rã Janis estava bem instalada no vaso do alecrim, deve gostar do cheiro. Chovia cada vez mais e até já trovejava. Senti pena dos lençóis.

Tenho de escrever sobre a saudade, forcei.

Uma vez conheci uma senhora chamada Maria Da Saudade, lembrei-me.

Uma vez, quando a minha filha era criança e estávamos afastadas por motivo de viagem, ela disse-me ao telefone, mãe, eu gosto de ter saudades porque é como se tu estivesses aqui. Não sei o que ela quis dizer com aquilo; alguém sabe o que é que as crianças querem dizer com as coisas que dizem?

Pode até ser que a saudade seja um acaso feliz depois do infortúnio. Uma vez que ausência está garantida, é melhor sentir saudade do que não sentir. Sob essa perspectiva, a saudade é bem-vinda.

Talvez seja melhor fazer um poema, pensei, dizer que a saudade é penumbra torturante instalada em todos os gestos que te avivam em mim, por exemplo. Escrever gestos, penumbra e torturante num mesmo verso pode ser que fique bonito. E sempre disfarça o facto de eu só ter escrito gestos, penumbra e torturante no mesmo verso porque não fazia a menor ideia do que escrever sobre a saudade. Que seja o que for.

Tenho de escrever sobre a saudade, forcei.

A Maria Da Saudade tinha esse nome porque a sua mãe morreu no dia em que a pariu. O pai personificou-a, portanto. À saudade, não à filha, entenda-se.

Quando a conheci ela já tinha por volta de sessenta anos. Alugava os quartos da sua simples casa, num dos povoados que fronteavam a Amazónia brasileira, aos mochileiros que passavam pela região. Foi lá que pernoitei, nessa casa cujo chão de barro crespo e fogão a lenha me fizeram ter pena de abalar. A Maria Da Saudade perguntou-me de onde eu vinha. De Portugal, respondi. Isso é onde, minha filha, insistiu. Europa, você conhece, perguntei. Não estou sabendo desse lugar, não, sabe que eu sinto saudades do tempo em que eu sabia uma porção de coisas, disse ela num devaneio retórico. A cabeça dava vazão às ideias, agora não dá mais não, concluiu conformada e sem tristeza.

Ter saudades de um tempo em que sabia uma porção de coisas é uma abstração tão concreta que me confunde.

Eu disse, eu tenho é saudade da minha filha que ficou lá nesse lugar que a senhora desconhece. Nesse país que é melhor mesmo que a senhora não saiba que existe. Esta última frase eu só pensei, deixei-a ficar em silêncio dentro da cabeça, como costumo fazer com as vergonhas que me vão acontecendo.

E depois lembrei-me que há gente que tem saudade desse tempo do qual ainda me envergonho. Sim, desse tempo em que havia quem viesse desse lugar que ela não sabe onde é para fazer coisas que não deviam deixar saudade.

Não me apetece escrever sobre esta saudade. Nem um poema sequer, no qual recorreria a recursos estilísticos e palavras de dicionário para fingir que sabia o que estava a fazer. Nem sequer um conto ou uma crónica crua e dura. Não…

A chuva tinha abrandado quando voltei a encarar a vidraça que dava para o quintal. A rede, no alpendre, balançava na ressaca do vento, fazendo-me recuar à noite que passei na casa da Dona Saudade. Imaginei-a sentada a debulhar o milho, com as mãos sábias e cegas, sem a necessidade da visão que lhe faltava; indiferente aos outros lugares do mundo.

Tenho de escrever sobre a saudade, forcei.

Acho que não sei escrever sobre a saudade, admiti.

 

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024.

 

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