“Não somos só voluntários, mas também missionários” – testemunhos em missões dos Leigos para o Desenvolvimento

| 9 Fev 20

Os Leigos para o Desenvolvimento têm presententemente missões em Angola, São Tomé e Caparica (Almada). A organização de cooperação para o desenvolvimento, que completa 34 anos em 2020, teve já 500 voluntários nas suas missões locais, como se recorda noutro texto do 7MARGENS. Dois deles testemunham aqui o que encontraram e o que fazem.

 

Ser feliz é adotar a perspetiva de Deus – testemunho de Francisca Caldeira Cabral, em Angola

Francisca, autora do texto, entre Emanuel e Beatriz, na Praia Morena (Benguela). Foto © Arquivo LD

 

“Vivo no interior de Angola, na sede do município da Ganda.” Quando em Benguela me apresento assim respondem-me, a rir, que eu vivo no “mato”. Trabalho no Alto da Catumbela (aglomerado de 20 bairros que se formaram em redor de uma fábrica de celulose, que funcionava no tempo colonial) – mas, para a Ganda-Sede, trabalho “no mato”. Em torno dos 20 bairros, há populações no meio das montanhas onde só se consegue chegar de mota, de onde vêm crianças todos os dias a pé para estudarem no Alto da Catumbela.

“O mato” é uma questão de perspetiva.

Esta é uma terra em que tudo é uma questão de perspetiva. O rasto de destruição deixado por 30 anos de guerra funde-se com paisagens incríveis. A fragilidade das casas, das instituições e das pessoas mistura-se com a imagem das mulheres, que são autênticos “tanques de força”, a caminhar das lavras até ao mercado, com bebés às costas e cestos enormes nas cabeças, homens a carregar sacos de carvão ou lenha por quilómetros e crianças a pastorear manadas de bois.

Há dias em que a chuva cai “devagarinho” e todos nós nos alegramos porque rega os cultivos e permite que se armazene água sem ter que se recorrer ao rio. Ou, para os sortudos da Ganda-Sede, que as torneiras funcionem até mais tarde. Há outros dias em que a mesma chuva vem com tanta força que estraga casas e lavras e traz relâmpagos que caem sem cessar. Ouvem-se as queixas de quem sofre com a inflação e a entrada do IVA, mas as casas estão cheias de familiares e amigos e há fuba para dividir por todos.

É uma questão de perspetiva.

As “tias” a “pisar” (okufula, em umbundo) o milho para fazer fuba. Foto © Arquivo LD

 

Aqui conheci um Jesus que não fecha os olhos a nada, não se acomoda com a pobreza e compadece-se com o sofrimento. Trabalha sem cessar, reforça a saúde das crianças malnutridas e pouco agasalhadas, dá energia e força aos homens e mulheres que trabalham os dias na lavra; protege, o mais que pode, as plantações e faz das igrejas autênticos centros de segurança social e motor de quase todas as atividades culturais e formativas. Aqui também O conheci com um sentido de humor renovado! Escolhe rir-se da trapalhice das estradas, com buracos e bois, do mercado colorido e poeirento, das pessoas que se indignam mais rapidamente com o preço das perucas que do pão. À imagem do bom humor dEle, também as pessoas daqui escolhem rir, repartir e alegrar-se por qualquer pretexto.

Adotando a perspetiva de Deus também aprendi a ser feliz, e motivos não me têm faltado! Sou feliz porque o caminho para o trabalho é bonito e foi lá que aprendi a guiar, porque há sempre música a tocar em todo o lado, porque há pão quente pela tarde e a luz vem quando menos se espera. Sou feliz porque há muito por ser feito, porque as irmãs me recebem sempre como uma filha há muito perdida; e porque, quando enterrámos o carro, em cinco minutos apareceram 20 pessoas a transportar pedras, paus e a sujarem-se de lama por nós.

Quando veio uma grande tempestade e a casa dos nossos vizinhos inundou, nós pudemos estar lá; e quando a chuva derrubou a parede da nossa tia (empregada), foi a nós que ela se lembrou de ligar. De manhã, pelas 7h30, visita-nos uma criança que é igual à personagem do “Principezinho”, que ri sem motivo e me inunda o pequeno-almoço com perguntas (que tenho vindo a descobrir serem do mais pertinente que há). Com ele é impossível não ser feliz, porque tem uma paciência infinita comigo, com as minhas impaciências e limitações. Cheio de resiliência volta, dia após dia, com o mesmo sorriso. Sem dar por isso, ele foi tornando o meu coração mais manso e um dia saí da Ganda e tive saudades dele.

Crianças à saída da missa, com Emanuel, um dos voluntários. Foto © Arquivo LD

 

Sou feliz porque partilho e rezo esta minha vida de “mato” com dois amigos que, com o passar do tempo, se vão tornando meus irmãos.

Sobretudo sou feliz porque tudo, absolutamente tudo, nesta terra me leva mais para junto de Deus.

Maria Francisca Caldeira Cabral, 23 anos, está na missão dos Leigos para o Desenvolvimento em Ganda (Angola) desde Outubro de 2019

 

Uma humilde tentativa de viver o Evangelho – testemunho de Diogo Pimentel, em São Tomé

Construção de banca móvel para venda de produtos dos artesãos do Bairro da Boa Morte, em São Tomé (Setembro 2019). Foto © Arquivo LD

 

A maneira de chegar aos Leigos para o Desenvolvimento (LD) varia de pessoa para pessoa. Há os que conhecem alguém que já partiu em missão, os que que encontram nas redes sociais, outros que vêem no jornal… Também há sempre aqueles que tropeçam sem querer numa apresentação do projecto ou os que já fizeram outros projectos de voluntariado (missionário) mais curtos e que andam em busca de mais; e, claro, aqueles que aparecem sem ter a mínima noção e vão ficando…

A minha situação não foi especial: desde miúdo que fiz campos de férias ligados aos jesuítas e, nesse meio, sempre fui ouvindo falar dos LD. Desde os meus 17 anos que me lembro de olhar com bons olhos para a possibilidade de partir em missão com os LD. Mais tarde achei que não faria sentido, que já teria apanhado outro comboio diferente do da missão que os LD propunham e isso não era minimamente uma angústia. Continuava a olhar com bons olhos para o que os LD faziam, mas não era por aí. E não havia mal nenhum nisso.

Acabei o curso, trabalhei dois anos, despedi-me. Voltei para a faculdade para tirar um mestrado numa área diferente. Já tinha tido a oportunidade de estudar um ano fora, durante a licenciatura. O mestrado permitia-me abrir horizontes, aprender diferentes formas de pensar, mudar de profissão… Dois anos depois de ter parado de trabalhar, o mais óbvio seria arranjar um novo emprego em Portugal ou no estrangeiro e seguir a minha carreira profissional.

Mas não: no final do ano lectivo do mestrado, o “sino” dos LD voltou a ressoar, e comecei a pensar: “Porque não?”. Já tinha decidido que não ia procurar trabalho muito activamente enquanto estivesse a escrever a tese… Assim, foi natural decidir fazer a formação dos LD – e que fosse o que Deus quisesse.

No final do ano de formação, e após ter manifestado a minha disponibilidade, os LD decidiram enviar-me para a cidade de São Tomé, onde cheguei em Setembro.

A missão dos LD é continuada no tempo. O projecto em que eu agora trabalho é fruto do trabalho de voluntários anteriores a mim e assim sucessivamente, existindo uma lógica evolutiva – e de sustentabilidade – nos projectos. O meu projecto até pode ser novo, mas foi construído tendo como base projectos anteriores. Este acompanhamento permite uma maior flexibilidade quanto ao período de acompanhamento dos projectos e visa um processo de capacitação e apropriação da própria comunidade com a qual trabalhamos. Em última análise, os LD existem para deixarem de ser necessários.

Ensaio da Fanfarra do Grupo Tragédia Formiguinha da Boa Morte (São Tomé), em Janeiro de 2020. Foto Arquivo LD.

 

Na cidade de São Tomé estamos três voluntários e, apesar de irmos partilhando os projectos uns dos outros, estamos cada um a trabalhar num projecto específico, todos eles no Bairro da Boa Morte. Trata-se de um bairro da periferia da cidade de São Tomé com cerca de seis mil habitantes e, à semelhança de outras realidades das periferias dos centros urbanos, regista focos de pobreza, dificuldades no acesso ao emprego e à formação, e fracas condições de habitabilidade: a falta de água ou de energia eléctrica fazem parte da rotina diária dos seus habitantes.

O projecto em que trabalho é ligado à área da cultura. O objectivo final é ajudar a concretizar um roteiro que dê a conhecer as dinâmicas culturais, naturais e urbanas a quem vem de fora, promovendo não só a própria comunidade, mas também o sentimento de pertença e orgulho no Bairro da Boa Morte, afirmando-o como uma referência a nível nacional no contexto do turismo urbano.

Outro dos projectos é ligado à dinamização de um grupo comunitário – grupo que junta as forças vivas do bairro, entidades formais e informais, e onde se porporciona um espaço de partilha de experiências, recursos e de problemas que afectam o bem-estar e bem-viver da comunidade procurando soluções concretas. Neste momento, o Grupo Comunitário da Boa Morte tem entre mãos o projecto “Bairro Limpo”, do qual resultou a criação de um modelo de recolha de resíduos sólidos urbanos, que começou agora a ser executado.

O outro projecto que temos na cidade de São Tomé é um Centro de Informática Comunitário, mais ligado à área da Formação Profissional e do acesso às tecnologias de informação.

Não somos apenas voluntários, somos também missionários. É-nos confiada uma missão, que acreditamos também ser uma missão de Jesus. A espiritualidade é um dos pilares da vida em missão. Eu não vim ser “bonzinho”, mas sim servir de uma maneira muito concreta a construção do Reino de Deus. E nos LD são criadas as circunstâncias para isso: a partilha, a opção por um estilo de vida simples mais próximo daqueles a quem servimos, as orações comunitárias, a graça de termos uma capela com o Santíssimo em casa…

Tudo nos relembra por Quem viemos. Este sair ao encontro dos mais pobres, partir para as periferias, cuidar dos que mais precisam (e tantas vezes acontece exactamente o contrário: acabamos nós a ser cuidados por quem vínhamos cuidar!), é a nossa humilde tentativa de viver o Evangelho de uma forma mais séria. Não obstante, estando cá, vou tendo cada vez mais noção de que ainda me falta muita coisa.

O Grupo Tragédia Formiguinha da Boa Morte numa peça de tchiloli (teatro tradicional de São Tomé), em Dezembro de 2019. Foto Arquivo LD.

 

Mas é no encontro que se dá a “magia”. No estar genuíno com as pessoas com quem nos cruzamos, e que se sentem acolhidas quando, na realidade, são elas quem nos estão a acolher. Podemos organizar mil acções de sensibilização, mil e uma formações e aparecer em mil e duas actividades… mas não é aí que se dá a conversão – nem a nossa, nem a das pessoas a quem servimos. É na alegria da partilha de experiências e visões diferentes, em que nós missionários aprendemos a olhar de outra maneira e em que levamos outro olhar para a mesma realidade.

Vida de missão não é, muitas vezes, como idealizámos. Nem sempre é fácil. Mas, enquanto for para a maior honra e glória de Deus, missão cumprida.

Diogo Pimentel é licenciado em Direito e mestre em Gestão; fez a formação dos LD em 2018 e integra a missão em São Tomé desde Setembro de 2019

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