A história de vida do Miguel Salazar é um murro no estômago para todos aqueles que ainda têm mínimos de empatia em relação ao próximo. Maltratado pela própria mãe por ter assumido a sua orientação sexual, o Miguel ouviu gritos, levou tareias, puxões de cabelo, ameaças de expulsão de casa e de ainda mais agressões caso insistisse em defender o direito à sua dignidade. Foi submetido a um modo de vida que o mergulhou num estado profundo de ansiedade e depressão que, imagino, o terá levado inúmeras vezes a isolar‑se ou a chorar sozinho no quarto, nesses momentos em que apenas as almofadas sabem ser as melhores confidentes. Há uns meses, o Miguel recordava a sua avó Ondina, a quem carinhosamente chama de Bó, uma mulher progressista que ele descreve como sendo o seu Amor maior. Além da almofada, foi ela a sua maior confidente e foi dela que ouviu as palavras “Não te vou abandonar, como eles fizeram contigo.” Que coragem! Que desassombro! Quanto Amor nesta Mulher! Voltarei a ela mais à frente.
Há pouco mais de um mês escrevi neste jornal sobre o relativismo moral. É pela história de vida do Miguel, que sofreu às mãos da própria mãe, que volto hoje a este tema. E sei que voltarei no futuro porque este problema está longe de ter um fim. O relativismo moral mata. Mata primeiro a dignidade: exclui, diferencia, maltrata, agride, oprime. E a soma destas violências, levada ao extremo, pode mesmo matar fisicamente. O relativismo moral vive do ilusionismo rasteiro e sem valores, que disfarça o ódio de amor. Não raras vezes, procura revestir de boas intenções tudo o que de mau inflige, para que possa passar entre os pingos da chuva. Ludibria a opinião pública, subvertendo toda a lógica moral que lhe está subjacente, obliterando a decência do debate público. Quando faz sofrer ou tirar dignidade ao outro, tal como aconteceu com o Miguel, deveria ser considerado crime inaceitável contra a liberdade, a honra e a autodeterminação do outro. Crime porque o ódio às características de alguém não é matéria de opinião nem pode, por isso mesmo, gozar da proteção da liberdade de expressão para prevalecer incólume.
É abusivo fazê-lo e oprime as vítimas que dele sofrem. As características de alguém são matéria de facto, não são matéria de escrutínio nem tão pouco da vontade de terceiros em acharem-nas mais ou menos dignas de existência. Mas é precisamente devido à aceitação cada vez mais indiscriminada deste relativismo que a sociedade se encontra profundamente polarizada. O mais extraordinário é que aqueles que promovem a radicalização são os mesmos que, sem pudor, acusam de radicalismo aqueles que ainda representam o bom senso e a moderação. Trata‑se de uma inversão total do discurso.

“Obrigado, Miguel, pelo teu testemunho corajoso! Obrigado, Ondina, por nos ensinar que Amar ainda se sobrepõe a tudo o resto!” Foto reproduzida do perfil da página de Miguel Salazar no Facebook.
O nosso país vive um momento de crise dos valores democráticos sem precedentes e isto deve preocupar-nos. Não me surpreendeu a conclusão do debate de 20 de março, sobre os direitos das pessoas trans, contrariando todos os pareceres técnicos, científicos e políticos sobre a matéria. E outras tentativas de reversão dos direitos essenciais das minorias virão. Apesar de ter passado despercebido a muitos, eu não esqueço que até há pouco tempo este país teve uma ministra que, enquanto Provedora da Justiça, pediu a inconstitucionalidade da lei que proibia as práticas de conversão sexual.
Poucos falaram, ninguém se indignou, ninguém considerou absurda a proposta da então Provedora e ninguém se lembrou desta pedra no sapato quando foi nomeada ministra, mas é bom estarmos cientes de que a cedência de direitos fundamentais conquistados em democracia só acontece porque aqueles que os deveriam defender têm falhado propositadamente no seu papel. Não deixa de ser extraordinário que os atores políticos que mais defendem a total ausência de controlo do Estado sobre tudo o que são direitos privados de mercado sejam os mesmos que usam o Estado para privar os indivíduos de direitos humanos. Refugiados nos seus preconceitos ideológicos e movidos recorrentemente pelas tentativas de reescrever a história, acusam infundadamente os opositores de totalitarismo, mas usam e abusam da confiança política eleitoral que lhes foi dada para serem eles mesmos totalitários, partindo da sua própria incoerência moral que, acreditam eles, está de pedra e cal para defender a humanidade que concebem segundo a bolha da sua moral enviesada.
Não posso aqui deixar de exprimir a vergonha que isto me causa enquanto cristão e católico. Todos os anos assistimos à hipocrisia das caminhadas pela vida, amplamente difundidas nos meios eclesiais, tendo sempre como causa maior a eutanásia e o aborto. Ninguém caminha pela vida dos que se suicidaram pela dor de não terem sido aceites, dos que foram assassinados vítimas do ódio e do preconceito, dos que morrem às mãos dos poderosos que fazem as guerras que não são as suas, das vítimas de violência doméstica ou ainda dos sem-abrigo que morrem ao frio nas ruas de um país que nem habitação digna tem para lhes dar. E nem falo do silêncio ensurdecedor dos bispos, que assobiam para o lado em tudo o que são dramas concretos da vida real, como se fossem temas menores ou meros tabus. É extremamente embaraçosa a indiferença de um episcopado conformado ao seu estado de elite e cada vez mais afastado das pessoas.
À imagem do que fez Maria Helena Costa, muitos são os que se entretêm com os seus preceitos morais, convencidos de que salvam a própria consciência enquanto olham o mundo à volta sem um pingo de realismo sobre a vida concreta de cada pessoa e dos seus sofrimentos. A esta bolha de farisaísmo, vale a pena recordar as palavras tão certeiras do Evangelho: «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. […] Guias cegos! Coais o mosquito e engolis o camelo. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, que por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo». Quantos copos e quantos pratos sujos no seu interior…
Depois destas palavras tão duras do Evangelho, que nos lembram o que significa falhar nos gestos de amor mais básicos, ecoa outra pergunta igualmente incisiva nos mesmos textos: “Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião?”. O Miguel, como tantos outros que sofrem o drama da exclusão e da violência, pediu à mãe um peixe e dela recebeu uma serpente, contrariamente ao que seria suposto. Pediu aos pais um ovo e deles recebeu um escorpião. Seremos nós capazes de entender o que isto significa na vida de um adolescente de 16 anos que cresceu simplesmente a querer ser feliz sem saber se alguma vez o poderia ser? Que marcas traz hoje, aos 27 anos, que condicionarão para sempre a sua vida e a sua relação com os outros? Que dores marcarão para sempre o seu olhar?
Lanço um desafio a quem lê este texto: coloquem-se no lugar do Miguel, da Gisberta e de tantos outros que são ou foram vítimas de violência e exclusão, nem que seja por um segundo. Não questionem características nem circunstâncias; coloquem‑se apenas no lugar delas e deles. Gostaria algum leitor de sentir que o mundo, e sobretudo as pessoas que mais o deveriam amar, o negam e rejeitam tal como é? Alguém gostaria de ser agredido ou posto em causa por aquilo que é? Como acham que veriam a vossa vida se deixassem de acreditar numa possibilidade de felicidade no futuro?

Frase num candeeiro de rua em Toledo, Espanha (2024). Foto © Filipe Moisés
Quero voltar à avó Ondina, que aceitou ser a mãe que o Miguel não teve. Aliás, para ser mais correto, não aceitou. Assumiu! As palavras pesam pelo significado. Assumir implica querer. E a Ondina quis porque o que moveu o seu doce coração foi apenas o Amor genuíno e puro. Vem-lhe de dentro, é instintivo. A Ondina continua a rezar pelo neto, como ele mesmo dizia quando a homenageava há meses, “às vezes tão intensamente que não consegue segurar o choro”. Tem tanta noção da escassez do tempo que preferiu amar o neto a tudo o resto, porque sabe tão bem que a vida termina de igual forma para todos e que seria um desperdício gastá-la com ódio e mesquinhez. Mas sabe, sobretudo, que o outono da vida está a chegar. Foi por isso que disse ao Miguel que, no dia em que ela já cá não estiver, serão os amigos dele, por quem ela também reza, a sua verdadeira família.
É inevitável lembrar com isto um dos derradeiros gestos de Amor de Jesus, quando, no momento extremo, oferece ao discípulo e seu melhor amigo, a própria Mãe: “Eis a tua mãe”, como quem diz ‘aqui tens a tua fortaleza daqui em diante’. E à Mãe diz: “Eis o teu filho”, como quem diz ‘acolhe‑o’. Sim, um dia os amigos do Miguel serão a sua família: a mãe e o pai que não teve, a avó que sempre o amou, a fortaleza que o há-de acolher. Um dia o Miguel será de todos os que o rodeiam e esses serão chamados, em tempos de individualismo, a deixarem‑se invadir ainda mais pelo radicalismo do Amor, o mesmo que já hoje os move a darem-lhe apoio. Em tempos de cinzentismo de valores, os versos que o Zeca Afonso nos canta “Em cada esquina um amigo/em cada rosto igualdade” são um imperativo desse radicalismo do Amor, nada mais do que tudo o que nos resta se ainda queremos sobreviver como Humanidade. Até porque, lembremo-nos: a cada vez que minimizamos a dignidade da vida de um nosso semelhante, estamos longe de perceber o propósito da nossa própria vida. E uma Humanidade sem propósito definido está condenada à extinção.
Obrigado, Miguel, pelo teu testemunho corajoso! Obrigado, Ondina, por nos ensinar que Amar ainda se sobrepõe a tudo o resto!
Termino apenas com uma pergunta ao leitor: está ainda de pedras na mão prontas a atirar ou já percebeu que o caminho dos dias que nos restam se faz de braços abertos?
Contactos de apoio para situações extremas:
Associação de Apoio à Vítima
Linha de Apoio à Vítima: 116 006 (chamada gratuita, dias úteis das 8h às 23h)
APAV Linha Internet Segura: 800 219 090
Campanha de prevenção do suicídio:
SOS Voz Amiga: 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660 (das 15:30 às 00:30)
Telefone da Amizade: 228323535 (das 16h às 23h)
Conversa amiga: 808 237 327 | 210 027 159 (das 15h às 22h)
Voz de apoio: 225 506 070 (das 21h às 24h)
Vozes Amigas de Esperança de Portugal: 222 030 707 (das 16h às 22h)
Filipe Moisés é engenheiro do ambiente pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Atualmente, é estudante de doutoramento e investigador na mesma faculdade, no Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia (LEPABE).
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