“Não voltes aos lugares onde foste feliz” é uma afirmação que por vezes nos é dita quando falamos de decepções provocadas pela mudança, como se o tempo tivesse de se manter igual a si mesmo, respeitando as nossas memórias e recusando alterações. O livro que recentemente li de Filomena Mónica, intitulado A Universidade (edição Relógio d’Água) levou-me a relembrar os diferentes tempos em que a Faculdade de Letras fez parte do meu quotidiano – primeiro como aluna de licenciatura e de mestrado, depois como candidata ao doutoramento e, finalmente, como docente, percorrendo as diferentes etapas de uma carreira académica.
Em todo esse percurso houve momentos variados – enquanto aluna frequentei com agrado aulas de grandes mestres no Curso de Filosofia, mas também tive a sorte de me poder inscrever em cadeiras de opção regidas por escritores, uma possibilidade que nos era oferecida para efeito de completamento curricular. Entre estas, lembro com especial saudade as aulas de David Mourão-Ferreira e de Vitorino Nemésio, opções que me levaram a completar um currículo e que incentivaram o meu gosto pela literatura portuguesa.
Enquanto docente percorri os graus necessários até chegar ao topo da carreira e, necessariamente, fui regendo disciplinas variadas, geralmente nas áreas de filosofia moderna e de didáctica da filosofia. Mas a vida académica não se limitava às aulas: havia inúmeros problemas concretos para resolver, como por exemplo o do espaço onde se situava o nosso departamento, tentando torná-lo acolhedor e propício a encontros e conversas entre os docentes e entre estes e os alunos que constantemente o frequentavam, quer para requisição de livros – pois havia uma biblioteca específica de obras filosóficas –, quer para esclarecimento de dúvidas com os professores das diferentes cadeiras, quer para as avaliações finais que decorriam nos diferentes gabinetes.
O Departamento de Filosofia era um espaço confortável, eficaz e simultaneamente bonito, pois havia a preocupação estética de expor quadros e cartazes alusivos às matérias leccionadas. A sala de professores convidava às conversas e às trocas de impressões. Havia tempo e também havia espaço que favorecia o diálogo, quer inter-pares quer com alunos e alunas que nos visitavam, sabendo que seriam bem acolhidos e que poderiam levantar dúvidas e resolver problemas.
Nos primeiros tempos da minha reforma mantive actividades no Centro de Filosofia onde, através da FCT [Fundação para a Ciência e a Tecnologia] continuei a desenvolver projectos. Mas quando estes terminaram e fiz novas propostas de investigação, percebi que a preferência ia para os mais novos, o que me pareceu lógico. Orientei a minha vida fora da Faculdade, nunca deixando no entanto de escrever e de trabalhar no campo da filosofia. Com as facilidades de comunicação dadas pela internet os meus contactos com o Centro de Filosofia e, esporadicamente, com o Departamento, faziam-se por essa via. E até a maioria dos júris de provas em que participei se resolviam por computador, sem necessidade de deslocação.
Posso dizer que estive muito tempo sem visitar o Departamento de Filosofia, tendo-o sempre no entanto na memória e imaginando-o tal como o tinha deixado há anos. Contudo, há alguns meses, um convite para integrar uma reunião na Biblioteca fez-me voltar à FLUL [Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa]. E resolvi revisitar o Departamento de Filosofia onde, ingenuamente, pensava encontrar o lugar que conhecera e que durante anos fizera parte do meu quotidiano. A minha surpresa foi total pois a sala onde habitualmente nos reuníamos fora funcionalmente transformada numa espécie de recepção a visitantes, os cartazes alusivos aos diferentes acontecimentos tinham desaparecido e os livros publicados pelos docentes de filosofia estavam em vias de extinção. De facto, o lugar onde tanto trabalhara e aprendera, deixara de ser o mesmo.
Não fiquei com vontade de o revisitar.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










