Narciso Rodrigues, um padre seduzido pelo Evangelho

| 18 Dez 2020

Narciso Rodrigues, que morreu há 25 anos (completados nesta sexta-feira, 18 de dezembro) e dedicou a sua vida aos movimentos operários, foi no seu tempo e à sua maneira um precursor do atual Papa. Deixou uma herança fecunda, que importa não deixar cair no esquecimento. Um perfil, escrito por quem com ele conviveu e trabalhou.

O padre Narciso Rodrigues, numa foto datada provavelmente do final da década de 1960.

Narciso Rodrigues (1915-1995), presbítero da diocese do Porto, contribuiu para preparar em Portugal a grande viragem do Vaticano II e muito fez para levar à prática entre nós a renovação conciliar, através da sua dedicação aos movimentos operários e à participação dos leigos na Igreja Católica. Confidente de alegrias e sofrimentos de muitos, tinha uma grande capacidade de atenção e de abertura ao outro, traduzida também no diálogo ecuménico, que ele promoveu particularmente com as igrejas Lusitana Metodista.

Quando nele despertou a vocação sacerdotal, persistiam ainda em setores do catolicismo português aquelas reminiscências jansenistas que incutiam a ideia de que a salvação era reservada a uma elite, considerando o conjunto da humanidade como massa damnata.

Uma tal perspetiva desconfiada do mundo chocava com os valores incutidos pelo seu pai, sindicalista ativo ligado à criação do Círculo Católico do Porto, nos inícios do século XX. Talvez por causa dessa influência, em vez da deriva de uma fé que conduzia à fuga das pessoas, o dr. Narciso, como era conhecido, concebia-a como o dinamismo que abria o cristão para as necessidades profundas da vida humana. É a esta luz que se poderá avaliar a promessa feita ao pai, na altura em que foi ordenado presbítero em Roma, de que dedicaria toda a sua vida de padre ao serviço da classe operária.

 

Provações iniciais de uma vida de serviço

Nascido a 4 de Março de 1915, Narciso Rodrigues foi marcado pelo ambiente de simplicidade e alegria que se respirava na sua família. Quando começou os estudos no Seminário de Vilar, em 1925, o seu pai põe-no a trabalhar como marçano, durante as férias escolares.

A 28 de Novembro de 1937 é ordenado presbítero em Roma, onde estava a estudar Filosofia na Universidade Gregoriana. Contudo, o rebentar da II Guerra Mundial obriga-o a interromper os estudos e a regressar a Portugal.

Em 1942 é nomeado assistente diocesano da Juventude Operária Católica (JOC), passando mais tarde a viver em Lisboa, enquanto exerceu a missão de assistente nacional da JOC masculina, entre 1948 e 1966. Foi uma figura de referência dos tempos áureos da JOC portuguesa, que teve o seu ponto alto no congresso de 1955. Não foram fáceis esses tempos: submetido a uma operação para extrair um pulmão, experimentou nessa provação a indiferença dos colegas padres e, enquanto esteve internado, apenas foi visitado por António Ribeiro, futuro cardeal de Lisboa.

Também foi sofrida a sua missão de assistente da Ação Católica (AC). Depois de dezenas de jovens trabalhadores terem participado no Congresso da JOC Internacional de Bruxelas, em 1950, começaram a surgir tensões entre o Governo e esse organismo de jovens trabalhadores. O Congresso Jocista Nacional de 1955 realizou-se sob uma apertada vigilância da PIDE, a polícia política do regime, tendo sido proibida a publicação das suas conclusões.

Este congresso marcou o primeiro grande afrontamento de um sector da Igreja com o regime. Em Março de 1959, deu-se a Revolta da Sé, na sequência do qual foram demitidos vários responsáveis da JOC e o seu presidente, João Gomes, preso pela PIDE.

 

A Igreja longe dos operários

Passaporte de Narciso Rodrigues, atribuído pelo consulado de Portugal em Roma em 1939, para poder regressar a Portugal por causa do início da II Guerra Mundial. Foto: Direitos reservados.

 

Entusiasta seguidor de Josef-Léon Cardjin (fundador da JOC e futuro cardeal), Narciso Rodrigues deixou-se também iluminar pelo exemplo de Abel Varzim. Em circunstâncias políticas muito adversas, este padre teve um papel importante na defesa dos trabalhadores e dos mais excluídos, através do que escreveu quer no jornal O Trabalhador, órgão da Liga Operária Católica (LOC), que fundara, quer no livro Procissão dos Passos, um impressionante retrato dos dramas vividos pelas prostitutas do Bairro Alto.

[expander_maker id=”1″ more=”Continuar a ler…” less=”Ler menos…”]

Depois de em 1942 ter sido nomeado assistente diocesano da JOC do Porto, aparece em França o livro La France, pays de mission?, que constatava que a Igreja passara a ser, no Hexágono, uma realidade divorciada do povo. Narciso Rodrigues lembrava que esse diagnóstico se aplicava ao nosso país, sublinhando que uma das razões pelas quais os operários se encontravam longe da Igreja era porque esta se tinha colocado longe deles. Acentuava, por isso, a urgência de desclericalizar a Igreja, buscando nos documentos do Concílio a fundamentação teológica para a especificidade do apostolado dos leigos.

Em 1966, volta para o Porto muito debilitado. Vai residir para o Seminário Maior, numa altura em que se vivia entre os alunos, impulsionados pelo vice-reitor Albino Carvalho Moreira, um grande clima de entusiasmo pelos ventos de renovação trazidos pelo Concílio Vaticano II.

O ambiente juvenil que aí encontrou contribuiu muito para se restabelecer do abatimento psíquico que trouxera de Lisboa. Estabelece com os alunos uma relação de grande proximidade: o seu quarto converte-se num espaço habitual de convívio com seminaristas e do ritual do café.

 

A Igreja, testemunha do rosto misericordioso de Deus

Narciso Rodrigues presidindo à celebração de uma missa campal da JOC.Foto datada provavelmente da década de 1950. Foto: Direitos reservados.

 

Em 1970, é nomeado diretor espiritual desse seminário, quando já ali lecionava disciplinas ligadas à valorização do laicado e à abertura da Igreja: Ação Católica, Doutrina Social, Apostolado dos Leigos, Ecumenismo.

Teve uma influência determinante na motivação dos seminaristas para incarnarem a vida do povo e se abrirem aos movimentos da AC, levando vários deles a participar nas atividades da JOC e da Liga Operária Católica (LOC) e outros a acompanharem regularmente os trabalhos da Ação Católica Rural. Procurava incutir neles a importância de uma vida ordinária entre os pobres, defendendo que deveria ser esse o modo natural da presença da Igreja, tal como o Concílio a reconfigurara.

Ajudava a perceber que o mundo do Evangelho não é uma cerca reservada a uma elite, mas o universo dos pequenos, dos pobres e do quotidiano. Era o que poderíamos chamar a dinâmica do real, que assume as pessoas como são, com as suas grandezas e fraquezas, com os seus limites e lentidões. Esta liberdade, pouco frequente entre os presbíteros da sua geração, vinha-lhe de uma profunda vida contemplativa, cultivada nos quotidianos espaços de silêncio e de oração. Alimentava a sua grande atitude de despojamento com a oração jocista, que ele rezava sempre ao levantar-se, e com a oração do abandono, do Irmão Carlos de Foucauld, rezada ao deitar-se.

Com uma espantosa liberdade interior e uma capacidade de acolhimento e de proximidade com que respeitava os ritmos da caminhada e a diversidade das opções de cada um, mostrava que o Evangelho é uma proposta de liberdade e uma energia que nos faz encontrar o bom sabor da vida. A mesma liberdade com que, depois de 1971, quando passou a ser cónego da Sé do Porto, função que aceitou a contragosto e sem grande convicção, se definia como “cónego não praticante”.

 

“Certo no sentido precário da vida”
Narciso Rodrigues com militantes da LOC 25-4-1992

Narciso Rodrigues (sentado à mesa, de camisola preta) com militantes da LOC a 25 de abril de 1992. Foto: Direitos reservados.

 

Passado o período de abertura do Seminário Maior, após a saída de Albino Moreira de vice-reitor, Narciso Rodrigues é dispensado de diretor espiritual, sendo nomeado, em Outubro de 1974, pároco de Coimbrões, na zona proletária de Gaia. Pautou esta sua nova missão com o mesmo espírito de pobreza de sempre e com um profundo sentido de serviço e de respeito pela lenta caminhada das pessoas, porque, como dizia, “temos de amar os filhos que Deus nos deu”.

É de novo com a Ação Católica Operária que termina o seu ministério, ao ser nomeado, em 1983, assistente diocesano da LOC. Já quando as energias lhe iam diminuindo, entregou-se a esta sua última missão com o mesmo entusiasmo com que sempre acreditou nesse movimento de leigos. Essa dedicação apaixonada era reconhecida pela frase que tantas vezes repetia: “A paróquia é minha mulher e a LOC é a minha amante.”

Em Fevereiro de 1994 vai viver os seus últimos dias no Lar do Pinheiro Manso, instituição das Irmãzinhas dos Pobres que acolhe os mais carenciados da cidade do Porto. É aí que vem a falecer, a 18 de Dezembro de 1995.

Ao modo de João XXIII, que esconjurava os “profetas da desgraça que sempre anunciam catástrofes”, Narciso Rodrigues foi o rosto de uma Igreja que recorre ao remédio da misericórdia, em vez de brandir as armas da severidade. São esses “valores fracos” da fé que o Papa Francisco indica como regra fundamental da práxis da Igreja.

Na homilia do funeral, realizado na Sé do Porto, o bispo D. Júlio Rebimbas sintetizava assim a sua vida: “Foste um homem e um padre de alta vocação, firme edificador de uma sociedade melhor. Foste inconformista, certo no sentido precário da vida. Amaste Deus e os irmãos, renovaste esquemas, viveste em comunhão e plenitude.”

 

Padres em Mundo Operário:
um estilo, uma vida

Narciso Rodrigues no início da década de 1980, numa sessão de comemoração do centenário do nascimento do cardeal Cardijn. Foto: Direitos reservados.

 

[Na altura da sua morte, também os Padres em Mundo Operário (grupo que integrava os assistentes dos movimentos da Ação Católica e outros padres que trabalhavam com realidades ou organismos operários) escreveram o seu testemunho acerca do colega. Reproduz-se a seguir esse texto:]

O Dr. Narciso partiu aos oitenta anos, dados a todos nós como alimento, história e herança. Ao lembrarmos o Dr. Narciso, lembramo-nos do livro Um Século, Uma Vida, de Jean Guiton. E lembramo-nos de Cardijn que, aos oitenta anos, dizia ser jovem quatro vezes (4X20=80). O Dr. Narciso era jovem na mente e no espírito, e foi um estilo que marcou a vida de muitos neste século. Foi uma vida dada, partilhada, comungada. Como para Deus não há tempo nem idade, ele foi viver com Ele a quinta juventude, a Eterna Juventude.

Este homem dos homens, dos pobres e de Deus viveu sem dar nas vistas, mas dando vista a muita gente. Era discreto, não queria dividendos do que fazia, mas mostrava a alegria por ser e ter amigos. Ensinava pelo estilo, pelo que não dizia mas sofria. Sofria sem se sentir vítima e chamava as coisas pelo seu nome, sem culpabilizar. Foi Mestre nos caminhos dos pobres e bebeu em Mestres que lhe ensinaram o estilo de Belém e Nazaré. Saboreou da água dessas fontes e ajudou muitos e muitas a apanhar-lhe o gosto.

Um homem profundamente espiritual, que ajudava a descobrir a beleza e a força impulsiva do corpo. Ajudou-nos a conviver com o animal que há em nós, a gostar dele e a lidar como ele, para o introduzir na harmonia do espírito. Era a Teologia da Incarnação a expressar-se na Páscoa, na Festa da Vitória.

Os Padres em Mundo Operário pararam para escutar a sua voz, a sua vida. E eram tantos os sentimentos, as luzes e os caminhos… que optaram por dizer a quem o conheceu que não deixem morrer o dinamismo, a corrente de luta e de esperança a que ele deu corpo.

 

Ensinar a dureza do trabalho e o sofrimento de tantos

Para ele, a solidariedade era presença, gesto discreto, frase curta, olhar vivo, silêncio sofredor e oração confiante. Era partilha e empreendimento. Aprendeu-o e ensinou-o nas fileiras da Acção Católica (da JOC, da LOC e não só).

Viveu situações de conflito e insegurança sem deixar de ser fiel às suas convicções, sem rupturas, mas sem falsas conciliações. Lembremos os momentos de luta nas fileiras da Acção Católica Operária, que mais tarde contava com compreensão e humor, sem neutralizar os erros da história e alegrando-se pela nova consciência que nasceu.

No seminário marcou gerações e ajudou a ligar a fé à vida, a reflectir Deus na História, a escutar os gemidos dos mais pobres como gemidos de Deus Bom Samaritano.

Ensinou que a resposta a Deus é a corpo inteiro e dava-nos a oração de entrega de Charles Foucauld: “Pai, nas tuas mãos entrego a minha vida”… Mostrava-nos o caminho, mas dizia que, mais importante que esse caminho que ele mostrava era que Cristo fosse na nossa vida “caminho” (verdade e vida).

Conhecia e ensinava a dureza do trabalho e o sofrimento de tantos que ganhavam o pão com suor e sangue. Mas ensinava a não ficar esmagado pelo peso da vida e sabia rir, fazer festa, conviver, partilhar o seu café ou a sua garrafa. Sabia acolher e criar laços e fortalecer a corrente.

A partida dele não foi uma página que se fechou, foi um livro que se abriu. Nele está um pouco da vida de todos nós, na síntese de uma vida de amor. Como João Baptista, ele ensina a não olhar para a ponta do dedo, mas para onde o dedo aponta, como o beduíno no deserto que adverte das miragens e aponta o caminho longo, por vezes duro, mas certo.

Ao lembrá-lo, como padres ao serviço do Mundo Operário, ficamos mais fortes, mais confirmados, mais convictos de que a vida dada, o amor partilhado, a solidariedade como resposta diária, são caminhos para os Novos Céus e Nova Terra, onde habita a Justiça e a Paz.

Morreu pertinho do Natal, porque sempre andou por caminhos de novo nascimento e o dia da morte é o dia de Natal (dies natalis); e fechou os olhos da carne junto das Irmãzinhas dos Pobres, desses pobres que ele sempre amou como irmãos e irmãs.

Que os Padres e Leigos em Mundo Operário façam memória viva do nosso dia-a-dia, de modo pessoal e organizado, para que esta semente lançada à terra frutifique na vida da Igreja em Mundo Operário.

Quem sabe ser discípulo será mestre.

Narciso Rodrigues (à esq) e Manuel António Ribeiro, autor deste texto (de pé, a falar) num encontro da LOC, no final dos anos 1970. Foto: Direitos reservados.

 

Manuel António Ribeiro foi assistente diocesano do Porto da Liga Operária Católica, tendo convivido muito de perto com Narciso Rodrigues. Na altura em que passou a ser assistente nacional daquele movimento, foi o dr. Narciso que lhe sucedeu na mesma missão, na diocese do Porto.

[/expander_maker]

 

Guerra e Paz: angústias e compromissos

Um ensaio

Guerra e Paz: angústias e compromissos novidade

Este é um escrito de um cristão angustiado e desorientado, e também com medo, porque acredita que uma guerra devastadora na Europa é de alta probabilidade. Quando se chega a este ponto, é porque a esperança é já pequena. Manda a consciência tentar fazer o possível por evitar a guerra e dar uma oportunidade à paz. — ensaio de Nuno Caiado

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Na Calábria, com Migrantes e Refugiados

Na Calábria, com Migrantes e Refugiados novidade

Estou na Calábria com vista para a Sicília e o vulcão Stromboli ao fundo. Reunião de Coordenadores das Redes Internacionais do Graal. Escolhemos reunir numa propriedade de agroturismo ecológico, nas escarpas do mar Jónio, da antiga colonização grega. Na Antiguidade, o Mar Jónico foi uma importante via de comércio marítimo.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This