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Comprando artesanato em madeira de oliveira pode ajudar-se, mesmo à distância, os cristãos de Belém. Foto © Maria Wilton/Arquivo 7Margens

Sem peregrinos, artesãos não têm trabalho

Nas casas de Belém não há pão e com isso nasce um apelo desesperado

| 27/09/2021

Belém significa, em hebraico, “casa do pão” e, em árabe, “casa da carne”. Mas nestes tempos o nome da cidade da Palestina contradiz a realidade: “Não há turistas e estamos abandonados, temos de nos desenvencilhar para sobreviver. Estamos fechados, abandonados e praticamente andamos a mendigar”, diz o apelo desesperado que chega ao 7MARGENS. “A cidade vive praticamente só do turismo e já levamos 19 meses sem um único peregrino”, conta Nicolas, um jovem adulto palestino que veio já meia dúzia de vezes a Portugal por altura do Natal, vender peças dos artesãos da sua cidade para que eles possam sobreviver.

“Todas as fronteiras estão fechadas. Não há nenhuma ajuda nem do Governo nem de qualquer outra organização. Não há trabalho. Há quem diga que até Julho do próximo ano os peregrinos voltam, mas a verdade é que já não se aguenta”, acrescenta. “Precisamos de comprar comida, pagar a luz, e a água. Com o Inverno a chegar, tudo se torna mais difícil. Se não fosse por necessidade, não precisaríamos de pedir ajuda, mais esta é a situação real.”

Nicolas explica como alguns estão a tentar dar a volta: “Várias famílias cristãs juntaram-se para tentar arranjar maneira de sobreviver e ajudarmo-nos uns aos outros.” De que forma? “A nossa única esperança é vender alguns artigos religiosos feitos em oliveira, como imagens de Nossa Senhora, presépios, anjos, cruzes e terços.”

Assim, as famílias organizadas criaram uma espécie de catálogo digital das peças e respectivos preços. Com custos entre os dois e os doze euros, trata-se apenas de dar aos cidadãos de Belém o que a cidade lhes promete: “Só queremos o pão de cada dia e estes são preços de custo, nas lojas ou na internet tudo custa cinco vezes mais caras. “São lembranças bonitas para o Natal com um significado e propósito para os amigos, já que são feitos na cidade onde nasceu Jesus, em madeira de oliveira.”

Há três anos, o 7MARGENS visitou a venda lisboeta de Nicolas, que trabalha normalmente como guia turístico: presépios com uma caixa de música a tocar os acordes de Stille Nacht (Noite Feliz), ou apenas com as figuras em diferentes tamanhos e feitios, imagens de Santo António, cruzes, estrelas, representações da Sagrada Família, de tudo se encontrava ali à venda:

 

Há três anos, o sentimento de abandono dos cristãos da Terra Santa já era grande. A maior parte dos peregrinos que iam à cidade visitavam-na rapidamente e iam comer e dormir noutros lugares – nomeadamente em Jerusalém. Era importante, diz, que os cristãos que visitam a cidade não se ficassem pelo passeio entre os monumentos, mas que dormissem uma noite num hotel da cidade (o que é “muito raro”), visitassem uma oficina de artesanato local, conhecessem as pessoas concretas. “Escutando, visitando as oficinas, daria um pouco mais de confiança, de fé” aos que lá estão”, acrescentava nessa altura. Isso “seria bom”, um incentivo, daria “mais força” e mudaria “a mentalidade das famílias”

Agora, a sensação de abandono agravou-se com a pandemia. E os dois ou três por cento de cristãos (cerca de 130/140 mil) em cerca de dez milhões de habitantes arriscam-se a ser ainda menos. Por isso muitos continuam a pensar em emigrar, após décadas em que essa tem sido uma constante: em menos de 50 anos, o número de cristãos em Israel e na Palestina passou de vinte por cento para dois por cento.

“As coisas aqui estão muito mal em muitos campos: economia, saúde, política, religião, falta de liberdade”, diz Nicolas. “A política no Médio Oriente continua mal…”

 

[As eventuais encomendas devem ser feitas directamente para o telefone 913 140 720 (Nicolas) ou directamente na Rua Anchieta, 10 (nos anexos da Basílica dos Mártires, ao Chiado), em Lisboa. Aos custos das peças, que podem ser consultadas vendo as imagens e o respectivo custo nas imagens e listas a seguir, deve somar-se o preço dos portes de correio: uma encomenda de 20 quilos custa cerca de 100 euros, com dois quilos paga-se cerca de 20 euros. Os pagamentos serão feitos por transferência para uma conta que as famílias palestinas mantêm em Portugal.]

 

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