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Nas margens da Filosofia – O prazer de ensinar

Nas margens da Filosofia – O prazer de ensinar

by | 9 Mar 19 | Entre Margens, Últimas

“Ensinar é mais difícil do que aprender porque ensinar quer dizer fazer aprender” (Martin Heidegger)

É  habitual pensarmos na reforma como um fim de carreira mas, embora me tenha aposentado há quatro anos, continuo ligada à vida académica e à investigação. As solicitações sucedem-se e o trabalho mantém-se quase ao mesmo ritmo.A  diferença está na ausência de leccionação, o que me leva a pensar com saudade nas muitas aulas que dei e que constituíram  momentos gratificantes na minha vida. Daí a minha discordância relativamente a Espinosa no que respeita à sua recusa em ser professor.

Recordo que em 1673, poucos anos antes de morrer, o filósofo recebeu um convite aliciante para leccionar na Academia de Heidelberg. Convite esse que declinou com a justificação de querer manter o desejo de filosofar livremente bem como de preservar a tranquilidade pessoal que uma actividade lectiva necessariamente perturbaria. É uma atitude que compreendo, atendendo ao contexto histórico e político da época, pouco receptivo às teorias controversas do autor da Ética. Mas que de modo algum perfilho pois, contrariamente a este filósofo que muito prezo e a quem dediquei grande parte da minha investigação, faz-me falta um espaço em que se possa manifestar essa relação complexa entre  ensinante e  ensinado. E lembro, com alguma nostalgia, o prazer da relação ensino/aprendizagem que se estabelece com uma turma de alunos, no que ela tem de gratificante mas também, por vezes, de frustrante e de conflitual.

Baruch Espinosa declinou convite para ensinar com a justificação de querer manter o desejo de filosofar livremente bem como de preservar a tranquilidade pessoal que uma actividade lectiva necessariamente perturbaria.

 

É de pedagogia que nos fala George Steiner no seu livro As Lições dos Mestres (trad. Rui Pires Cabral, Lisboa, Gradiva, 2005), onde o  ensino nos é apresentado como um acto de amor. Na análise das várias formas de relação que o autor analisa – o mestre que destrói o aluno, o discípulo que trai e arruína o mestre, a relação amorosa que se estabelece entre ensinante e ensinado – é esta última que sobressai como presença constante na variedade dos domínios considerados, tão diversos quanto a religião, a filosofia, a literatura, a música e mesmo o desporto.

Ao longo de  séculos de história, Steiner leva-nos a visitar diferentes tradições culturais e faz-nos cúmplices das grandezas e misérias de mestres famosos. É uma obra que interpela todos os que passaram pela escola – professores, alunos e outros agentes de docência. E a sua tese essencial é a de que “ensinar, ensinar bem, é ser cúmplice de possibilidades transcendentes” (p.148).  Todos aqueles que alguma vez foram tocados pelo exemplo de um Mestre, ou seja, de alguém que lhes abriu caminhos e os marcou indelevelmente com o seu saber e afecto, sentir-se-ão representados nas páginas deste livro.  

Ensinei filosofia a diferentes tipos de público – dezasseis anos no Liceu e trinta na Universidade. Ao longo de todo este tempo de investigadora e de professora de filosofia manteve-se constante um mesmo deslumbramento: o de poder/dever trabalhar as temáticas que estudava e ensinava, numa atitude de permanente questionamento; o de poder/dever partilhar com os estudantes de filosofia uma comum paixão pelo saber, aquilo que, como Espinosa escreve no Tratado da Reforma do Entendimento, nos conduz a uma  suprema alegria. E intensifica-se  em mim, de um modo cada vez mais profundo, a consciência de que, ao ter escolhido a profissão de ensinante,  me coloquei no âmago da prática filosófica, devido à intrínseca relação que a filosofia estabelece com o seu ensino, quer este se situe na Escola quer na Academia. Filosofar, tal como ensinar, é uma actividade essencialmente comunicativa e dialógica, um exercício de paciência, um trabalho demorado sobre teorias e conceitos. Embora mantenha acesa essa actividade em projectos de investigação, em conferências e na escrita de textos,  confesso que o exercício de ensinar me faz muita falta.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática  de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (http://luisarife.wix.com/site)

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