Nas margens da Filosofia – Uma comunidade que pensa

| 21 Jan 19 | Entre Margens, Últimas

“Pensar incomoda como andar à chuva” (Alberto Caeiro)

O Pensador e a Porta do Inferno, de Auguste Rodin (Museu Rodin); foto Wikicommons

Esta  afirmação do heterónimo de Fernando Pessoa é desmentida pela Comunidade da Capela do Rato que, longe de se sentir incomodada, há quatro anos tem aderido entusiasticamente à proposta de diversos cursos onde se cruzam a filosofia, a literatura, a teologia e a espiritualidade.

Quando o padre Tolentino Mendonça, em 2016, me propôs a organização de um curso em que se pudesse falar de filosofia de modo a interessar um público  de “leigos”, achei que haveria um número razoável de  pessoas a aderir a esta iniciativa. A minha experiência em cursos deste tipo realizados na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa tinha sido positiva. Conhecendo muitos dos membros da Capela, pensava que seria fácil reunir uma vintena de pessoas que regularmente assistissem a sessões semanais. Com o dinamismo de uma equipa de excelência, ultrapassaram-se muitos obstáculos quanto à gestão e organização do curso. E manteve-se a exigência inicial de se abordarem assuntos complexos de um modo acessível, pois os auditores eram pessoas cultas mas sem formação filosófica.

No meu espírito esteve sempre subjacente o conselho de Ortega y Gasset para quem “A clareza é a cortesia do filósofo”. E procurei amigos “corteses” que amavelmente aceitaram o repto. Assim, em 2016, constituiu-se o primeiro curso subordinado ao tema Os filósofos também falam de Deus.Procurámos que a lista cobrisse todas as épocas, da Antiguidade aos nossos dias. A exclusão de alguns pensadores dependeu da  disponibilidade dos diferentes especialistas que generosamente aceitaram o nosso pedido de colaboração. O curso decorreu   semanalmente, de Janeiro a Maio, em doze sessões que contemplaram Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, S. Tomás de Aquino, Espinosa, Leibniz, Kant, Hegel, Nietzsche, Simone Weil, Paul Ricoeur e Agostinho da Silva [N.R. – O áudio das sessões está disponível aqui, clicando em cada uma das datas, entre Janeiro e Maio, com o título respeitante a cada filósofo] Para meu espanto, neste primeiro curso inscreveram-se 175 pessoas, um número que foi sempre aumentando nos anos seguintes.

O segundo curso, em 2017, teve como título Filosofar é também agire nele foram consideradas grandes correntes da ética ocidental. Em dezasseis sessões analisaram-se as Éticas da Virtude, as Éticas das Virtudes e Ambiente, a Bioética, as Éticas da Cidadania, a Ética Animal, as Éticas do Cuidado, a Ética da Responsabilidade, as Éticas Ambientalistas, as Éticas Consequêncialistas, as Éticas do Dever, a Ética da Justiça, a Ética Empresarial, as Éticas da Justiça e do Cuidado, as Éticas Feministas e a Ética dos Evangelhos. [registos áudio disponíveis aqui, no esquema já referido]. A adesão foi grande, pois o curso foi seguido por 210 participantes.

Tendo o público mostrado interesse em trabalhar obras literárias, o curso de 2018 foi intitulado Quando a filosofia e a literatura se cruzam. E nele foram apresentadas  obras de Platão, Santo Agostinho, Voltaire, Goethe, Nietzsche, Iris Murdoch, Camus, Milan Kundera, Umberto Eco,  Gonçalo M. Tavares, Martha Nussbaum, Paul Ricoeur e Clarice Lispector [registos áudios aqui]. Houve 230 participantes.

Em 2019,  sob o título Filosofia, Literatura e Espiritualidade, serão comentadas obras de autores como Bonhöffer, J.M. Coetze, Papa Francisco, Teolinda Gersão, Jean-Paul Sartre, Saint-Exupéry, Maria Gabriela Llansol, Etty Hillesum, Daniel Faria, Kafka, Joyce, Simone Weil, Shusaku Endo e Marguerite Yourcenar. E esperamos que D. José Tolentino Mendonça feche o curso, contando a sua experiência na Biblioteca do Vaticano.

Em todo este tempo, o acolhimento entusiástico  do padre Tolentino e o apoio permanente de uma equipa activa e coesa foram uma mais-valia, sem a qual os cursos não teriam atingido o sucesso obtido. No presente ano excederam-se as previsões, pois há 235 inscritos e uma lista de espera de 60 pessoas. [O curso, que se inicia nesta segunda-feira, 21 de Janeiro, tem as inscrições esgotadas desde o início do mês, mas o registo áudio irá ficando disponível aqui.]

É realmente uma Comunidade que gosta de pensar.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

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Cultura e artes

O pensamento nómada do poema de Deus novidade

Uma leitura de “Uma Beleza que Nos Pertence”, de José Tolentino de Mendonça.

O aforismo, afirma Milan Kundera na sua Arte do romance (Gallimard, 1986), é “a forma poética da definição” (p. 144). Esta, prossegue o grande autor checo, envolvendo-se reflexivamente numa definição da definição, é o esforço, provisório, “fugitivo”, aberto, de dar carne de visibilidade àquelas palavras abstratas em que a nossa experiência do mundo se condensa como compreensão.

Pedro Abrunhosa a olhar para dentro de nós

É um dos momentos altos do concerto: no ecrã do palco, passam imagens de João Manuel Serra – o “senhor do adeus” que estava diariamente na zona do Saldanha, em Lisboa, a acenar a quem passava – e a canção dá o tom à digressão de Espiritual, de Pedro Abrunhosa, com o músico a convidar cada espectador a olhar para dentro de si.

Pedro Abrunhosa a olhar para dentro de nós

É um dos momentos altos do concerto: no ecrã do palco, passam imagens de João Manuel Serra – o “senhor do adeus” que estava diariamente na zona do Saldanha, em Lisboa, a acenar a quem passava – e a canção dá o tom à digressão de Espiritual, de Pedro Abrunhosa, com o músico a convidar cada espectador a olhar para dentro de si.

Trazer Sophia para o espanto da luz

Concretizar a possibilidade de uma perspectiva não necessariamente ortodoxa sobre os “lugares da interrogação de Deus” na poesia, na arte e na literatura é a ideia principal do colóquio internacional Trazida ao Espanto da Luz, que decorre esta sexta e sábado, 8 e 9 de Novembro, no polo do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Pessoas

Manuela Silva: “Gostei muito de viver!”

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“Diz aos meus amigos que gostei muito de viver.” Nos derradeiros momentos de vida, já no hospital, Manuela Silva pegara na mão da irmã que a acompanhou nos últimos meses, olhando-a e, com plena consciência de que vivia os instantes finais, deu-lhe o último recado: “Vou partir, mas diz aos meus amigos que gostei muito de viver.” A sua memória será recordada nesta segunda-feira, 14, às 19h15, na Capela do Rato, numa eucaristia presidida pelo patriarca de Lisboa.

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Entre margens

As cartas de D. António Barroso…

“António Barroso e o Vaticano”, de Carlos A. Moreira de Azevedo (Edições Alethêia, 2019), revela 400 cartas inéditas, onde encontramos um retrato de corpo inteiro de uma das mais notáveis figuras da nossa história religiosa, que catalisa a rica densidade da sua época.

A morte não se pensa

Em recente investigação desenvolvida por cientistas israelitas descobriu-se que o cérebro humano evita pensar na morte devido a um mecanismo de defesa que se desconhecia.

O regresso da eutanásia: humanidade e legalidade

As Perguntas e Respostas sobre a Eutanásia, da Conferência Episcopal Portuguesa, foram resumidas num folheto sem data, distribuído há vários meses. Uma iniciativa muito positiva. Dele fiz cuidadosa leitura, cujas anotações aqui são desenvolvidas. O grande motivo da minha reflexão é verificar como é difícil, nomeadamente ao clero católico, ser fiel ao rigor “filosófico” da linguagem, mas fugindo ao «estilo eclesiástico» para saber explorar “linguagem franca”. Sobretudo quando o tema é conflituoso…

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