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Natal 2020: regresso da anormalidade

| 22/12/2020

 

Calem-se os profetas da desgraça e corrijam-se os anúncios que noticiam não haver natal, este ano. Claro que será Natal outra vez, porque Natal não é quando o homem quer, mas quando e como Deus quiser. Por isso, também este ano teremos Natal, se Deus quiser e com a mesma graça!

Será, é verdade, um Natal diferente e fora da normalidade, como, aliás, sempre foi. Já há 2020 anos tudo decorreu à margem da normalidade: uma família em busca de teto, uma mãe grávida sem acesso à hospitalidade esperada; um menino nascido fora de casa e fora de horas; um parto sem aglomerados nem festejos familiares; um recém-nascido a quem se fecham as portas, e uma família sob o confinamento de Herodes!

Será, sim senhor, Natal outra vez e em semelhantes moldes. Um Menino nascerá do ventre de sua mãe Maria, sem intervenção de José: não porque este estivesse em teletrabalho, ou andasse muito ocupado e sem tempo para a família; mas porque aquele Menino é o Filho de Deus.

Nasceu, porém, como tantos outros meninos, filhos de tantas Marias, enquanto seu pai adotivo foi – dizem os antigos apócrifos (a literatura cor-de-rosa de então) – em busca de uma experiente parteira. Mas sem sucesso: consta que todas as profissionais de obstetrícia tinham sido colocadas em lay-off pelo próprio Herodes.

Nasce, de novo, em Belém, cidadezinha de irrelevante significado escriturístico, mas que depressa se apercebeu do impacto turístico que o caso viria a ter. Mormente depois que uma estrela especialmente brilhante anunciou que essa era uma noite diferente, ao indicar a mísera “estalagem” em que Jesus nascera. Assim surgiu o costume de classificar os albergues, pousadas e afins com estrelas. Mas para aquele que era o Sol de Justiça e a Luz dos Povos, não houve uma porta aberta.

Perante a Boa Notícia do nascimento do Salvador, anunciada pelos anjos que trabalham dia e noite, sem direito a férias, um destes, de nome Rafael (que significa: “Deus cura”) decretou as seguintes regras sanitárias, para bem da nossa saúde e salvação:

– Os pastores poderão visitar o Menino, desde que não ultrapassem o número de três de cada vez.

– Todos os que têm animais ao seu cuidado, especialmente os pastores de ovelhas, poderão circular, mas só entre a tercia e a quarta vigília, isto é, até ao cantar do galo. Este, por sua vez, está proibido de cantar três vezes, e antes dessa hora.

– Dentro da gruta, são permitidas apenas seis pessoas, incluindo a Mãe e o Menino. A porta da gruta deve estar sempre aberta e, no seu interior, todos estão obrigados a usar máscara, exceto o Divino Infante, assim como o jumento e o boi; estes últimos, por razões óbvias: devem garantir o aquecimento do neonato. Embora não esteja comprovado que sejam portadores do dito vírus, o boi e o jumento devem comer em manjedouras separadas e manter o ambiente devidamente higienizado.

– São ainda desaconselhados os ajuntamentos, festas, bandas tradicionais; e quanto a coros, só os angélicos! Por ser “o primogénito de muitos irmãos” convém que a sua numerosa família se alegre em toda a terra, mas festeje com moderação.

– Ficam também interditas as festas dos reis, por estarem fora de moda e poderem ser objeto de aproveitamento político por parte de Herodes e seus partidários.

– Quanto aos Magos, poderão e deverão vir adorar o Menino-Rei, mas mais tarde, não necessitando, dado o seu estatuto, de qualquer autorização para circular entre províncias e regiões. Efetivamente, no Reino deste Rei dos Reis foram abolidos todos os muros e fronteiras que separavam os povos; fica ainda proibida toda a discriminação racial e até o distanciamento social será desaconselhado.

– A Virgem Maria lembra que o seu Filho não precisa que lhe tragam presentes. Ele é que é o grande Presente de Deus para todos nós. Mas os que insistirem em fazê-lo, que sigam o exemplo dos Reis Magos: ofereçam presentes com algum significado!

– Recomenda-se que os avós de Jesus, Joaquim e Ana, por fazerem parte de grupo vulnerável ou de risco, não visitem o recém-nascido. É preferível que vão comunicando através das redes cordiais. A mãe do Menino é muito boa nisso!

– Os demais familiares de Maria e de José devem evitar a pressa da prima Isabel (mulher de Zacarias), aguardando também suas visitas para mais tarde; não faltarão ocasiões, uma vez que este Menino veio para ficar entre nós.

Entretanto, Herodes acaba de anunciar, em comunicado do seu Governo, que não acatará nenhuma destas orientações, pondo em risco a vida de todos nós, ao pôr em perigo a vida daquele Menino que nasceu para nos curar da pandemia que dura em todo o mundo desde que o mundo é mundo: a morte.

No mesmo comunicado, Herodes manda reforçar e prolongar para os próximos tempos as restrições à circulação entre províncias, a fim de evitar qualquer fuga para o Egito.

Enquanto isto, chegou-nos a notícia que divulgamos, sem motivo de lágrimas: o velho Simeão acaba de falecer na paz do Senhor, por não querer esperar pela vacina, depois de ter lido fake news segundo as quais os idosos ficariam, outra vez, para o fim. Antes de partir, deixou este último desejo: “Que todos vejam como eu vi a salvação, preparada para os povos, e nada volte à normalidade!”

 

Isidro Lamelas é franciscano (Ordem dos Frades Menores) e docente de Patrologia na Universidade Católica. Entre os livros que publicou, conta-se Os Padres da Igreja. Dos Apóstolos a Constantino (UC Editora, 2020). 

 

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