Natal: a celebração de uma contradição

| 25 Dez 2022

Trindade, Andrei Rubliov

A Hospitalidade de Abraão, ou a Trindade segundo Andrei Rubliov: não é problemático ou absurdo acreditar em contradições lógicas das doutrinas centrais do cristianismo.

Aparentemente os cristãos acreditam em doutrinas logicamente inconsistentes e contraditórias. Por exemplo, no Natal os cristãos celebram a encarnação. Mas será essa uma doutrina consistente do ponto de vista lógico? Parece que não, pois ao celebrarem o Natal os cristãos proclamam que Jesus Cristo é essencialmente o Deus omnipotente e omnisciente que, como todos os humanos, exemplifica essencialmente a natureza humana com as suas inúmeras limitações, incluindo o poder e conhecimento imperfeito, a compreensão imperfeita, etc. Assim, a contradição é vívida: no Natal os cristãos estão a celebrar que Jesus Cristo é simultaneamente omnipotente e não omnipotente, omnisciente e não omnisciente. Pode-se mostrar essa contradição ou inconsistência lógica de forma explícita ao resumirmos a doutrina da encarnação no seguinte conjunto de proposições:

  1. Tudo o que é Deus é omnipotente.
  2. Nenhum humano é omnipotente.
  3. Jesus Cristo é Deus e humano.

O problema é que esse conjunto de proposições é logicamente inconsistente, dado que essas três proposições não podem ser simultaneamente verdadeiras. Pelo contrário, se aceitarmos duas delas como verdadeiras, a outra terá de ser falsa. Por exemplo, se aceitarmos as duas primeiras proposições, temos de negar a terceira de forma a termos um conjunto consistente. Aliás, se tivermos como premissas 1 e 2, podemos concluir validamente que não é verdade que Jesus Cristo é Deus e humano e, dessa forma, a doutrina da encarnação é falsa. Ou seja, é uma consequência lógica de 1 e 2 a falsidade da doutrina da encarnação. A derivação da contradição é simples: se algo ser divino implica ser omnipotente (como se afirma na proposição 1) e se algo ser humano implica que não se seja omnipotente (como se afirma na proposição 2), segue-se logicamente pela proposição 3 que Jesus Cristo é simultaneamente omnipotente e não omnipotente, sendo assim a doutrina da encarnação contraditória. O mesmo problema surge com outra doutrina central que os cristãos acreditam: a doutrina da trindade. As proposições centrais da doutrina da trindade são, entre outras, as seguintes:

  1. Há um só Deus.
  2. O Pai é Deus.
  3. O Filho é Deus.
  4. O Pai não é o Filho.

Bastam estas quatro proposições para se derivar uma contradição lógica e, dessa forma, para se provar logicamente que essa doutrina é inconsistente. Há várias formas de se provar logicamente a contradição. Por exemplo, pela proposição 6 podemos derivar, com a regra lógica da simetria, que “Deus é Filho”. E com esta última proposição justamente com a proposição 5, pela regra lógica da transitividade, podemos derivar que “O Pai é o Filho”. Ora, pela conjunção desta última proposição que acabamos de derivar com a proposição 7 pode-se derivar logicamente que “O Pai não é o Filho e o Pai é o Filho” (que é uma contradição). Como a partir da doutrina da trindade se originou uma contradição, essa doutrina é inconsistente.

Se as doutrinas centrais do cristianismo, como a encarnação e a trindade, são logicamente inconsistentes (tal como se provou nos parágrafos acima), significa isso que são irracionais, falsas, absurdas e que devem ser abandonadas? O filósofo católico Jc Beall no livro The Contradictory Christ (Oxford University Press, 2021) avança com uma solução original para estes problemas lógicos que as doutrinas cristãs enfrentam. Ao passo que grande parte dos filósofos cristãos que analisam estes problemas (tal como Peter Geach, Eleonore Stump e Peter van Inwagen) procuram mostrar que as contradições e inconsistências lógicas nestas doutrinas são meramente aparentes e não genuínas, Jc Beall aceita simplesmente que essas doutrinas cristãs são genuinamente contraditórias, mas não há qualquer problema com isso. Tal como refere Jc Beall explicitamente na página 3 desse seu novo livro: “os pensadores cristãos devem aceitar a contradição de Cristo. Cristo é um ser contraditório”; ou seja, algumas afirmações são simultaneamente verdadeiras e falsas sobre Cristo. Por exemplo, é verdade que Jesus Cristo é omnipotente (dado que ele é divino), mas simultaneamente é falso que Jesus Cristo é omnipotente (dado que ele é humano). O mesmo sucede aplicando os predicados de “impassível,” “imutável,” “imaterial,” “omnisciente,” etc.

Mas por que razão não é problemático ou absurdo acreditar em contradições lógicas como essas? Porque, seguindo o argumento de Jc Beall, a lógica não é neutra, dependendo da própria realidade ou metafísica. Ora, se algumas entidades na nossa metafísica são elas mesmas contraditórias, então a própria lógica terá de ser capaz de modelar esses casos (reconhecendo, assim, que algumas frases são simultaneamente verdadeiras e falsas). Numa tal situação a lógica clássica (com o seu princípio da não-contradição, lei do terceiro excluído, ou princípio da bivalência) não será plausível; mas continuamos a dispor de lógicas não-clássicas e paraconsistentes para lidar com esses casos em que na própria realidade há entidades que exemplificam propriedades contraditórias. Essa é uma possibilidade lógica que não pode ser ignorada pelos filósofos nem teólogos.

É verdade que do ponto de vista lógico, e como princípio metodológico, não devemos buscar contradições, mas devemos estar abertos aos raros casos que as motivam. Ora, a proposta de Jc Beall é que o papel único de Jesus Cristo na mundividência cristã motiva um relato contraditório, uma lógica não-clássica paraconsistente, em que não é problemático nem absurdo afirmar e acreditar simultaneamente que “é verdade que Jesus Cristo é omnipotente” e “é falso que Jesus Cristo é omnipotente”. Isso pode parecer chocante e, de certa forma, misterioso, mas o próprio cristianismo sempre evidenciou o papel de Jesus Cristo e do Natal para ser exatamente assim: chocante e misterioso.

 

Domingos Faria é professor auxiliar no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

 

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