
Desenho: Êxodo, Alberto Teixeira
Em sociedades complexas, como a portuguesa, a celebração do Natal é marcada pelo consumo e ligação às festas de Fim de Ano e Ano Novo. Existe um certo regresso ao paganismo, que a dogmatização da data do Divino Nascimento quis combater a partir do século terceiro.
A actual e generalizada prática social destas festas, não deixa de se ligar a um aspecto fundamental do judaísmo e do cristianismo que é a questão do Êxodo.
No Livro do Êxodo assistimos a diferentes episódios, como a Teofania (19:1-25 e 20:18-21), a Proclamação do Decálogo (20:1-17), o Código da Aliança (20:22-23, 19), a Partida e Entrada na Terra Prometida (23:20-33).
Desde a primeira parte daquele livro, que podemos perceber diversos rituais e negociações, entre o Povo Eleito e Deus, entre as personagens referidas e os povos que encontram, induzindo-nos numa viagem de libertação.
No Novo Testamento, a figura do Êxodo pode ser identificada em alguns acontecimentos da vida de Jesus: a fuga para o Egipto, o Baptismo, a Tentação no Deserto, a Páscoa e Última Ceia, ou afastamento para lugares solitários para orar, ou regiões seguras para ensinar.
No Novo Testamento encontramos a fuga à perseguição de Herodes, similar à libertação, a iniciação e consagração, as quarentenas purificadoras, o sacrifício do Cordeiro de Deus, a morte e ressurreição e o desprendimento material para um caminho espiritual.
Nas Epístolas, identificamos o Êxodo nas exortações à libertação da escravidão do pecado, para encontrar a Graça de Deus (Rm 6:17-18), o baptismo como passagem simbólica similar à travessia do Mar Vermelho (1Cor 10:1-2), ou o deserto como período de desafio espiritual contra o endurecimento do coração (Hb 3:7-19).
Os textos apócrifos também contêm bastantes abordagens sobre o assunto.
O deserto é um motivo recorrente e associado à vida de Jesus, quer como retiro de oração, para ensinar, ou retiro após curar.
Nos dias de hoje, as celebrações caracterizam-se por movimentos (deslocações) massivos para as compras nas grandes superfícies e festejos de rua e algumas reuniões familiares nos locais de origem.
A histórica deslocação de zonas rurais para locais de polarização industrial, comercial e serviços, tem nesta época um grande movimento de retorno, de um lugar para o outro, para reagrupamento familiar ou turismo.
Sob o ponto de vista individual, estes movimentos exploram a tensão e desejo de liberdade e fuga, que até podem consistir numa certa procura de abrigo afectivo.
As comunidades que acolhem os viajantes, por reagrupamento ou turismo, reconhecem o direito de aquelas pessoas perturbarem as suas rotinas diárias e até o desejam, como se de refugiados se tratassem.
Cada indivíduo participante nestes movimentos de deslocação tem oportunidade de redefinir identidades e o seu lugar no mundo a partir do momento em que inicia a sua viagem, independentemente da distância e objectivos, reais ou ficcionados por cada mente.
Nestes diferentes tipos de êxodo são engendradas uma variedade de respostas emocionais e cognitivas em cada participante, quer no que se desloca, quer no que acolhe. Servindo, tanto para o reagrupamento familiar, como para o comercial ou em turismo.
Nos diferentes “êxodos” podem ocorrer níveis elevados de stress em massa ou individual, ansiedade, traumatismos em razão do jogo de incertezas e até rotura e perdas emocionais que a separação pode causar na estabilidade individual ou de grupo, como encontramos nos relatos bíblicos.
Em todos os casos, há sempre a oportunidade para estratégias de adaptação e resiliência, que não deixam de contribuir para a saúde mental de todos.
Os festejos quase pagãos actuais do Natal e a sua ligação ao Fim de Ano e Ano Novo, não deixam de ser uma exploração simbólica de sentido para as coisas da vida e uma ocasião de procura interior e identidade, com as dimensões mais profundas do Ser, com ritmos e capacidades diferenciadas.
Assim, assistimos a uma associação ao sagrado e à atribuição de relevância à transformação espiritual, numa viagem simbólica no espaço e no tempo, onde a perseverança e a esperança inspiram um sentimento de resiliência, como o fez o Êxodo com o Povo Eleito.
A natureza divina, nesta viagem da alma, é um mistério da existência humana, mesmo que o caminho espiritual se revista de desejos e acontecimentos materiais, numa certa procura sem entraves e libertação da escravidão que cada um sente.
Talvez alguns de nós prefiram uma certa renúncia do mundo material, mas está ao alcance de todos, pelo exemplo de vida em Cristo e acolhimento dos outros, encontrar a sua Festividade.
Alberto Teixeira é cristão ortodoxo.










