Natal sem tempo

| 26 Dez 19

Em memória do António Fournier (1966 – 2019), nascido e falecido no dia de Natal

 

Sempre que quero explicar aos meus alunos o que é o Natal, socorro-me da língua inglesa. Não sendo eu professor de tal idioma, os miúdos estranham, mas depois lá vão entendendo as veredas tortuosas por onde me proponho levá-los. Normalmente, ao fim de alguns minutos, abrem os olhos ou a boca e começam a entender.

Mesmo que não sejam cristãos ou tenham uma família cristã, percebem o que está em causa e começam a joeirar o lixo de que se vêem rodeados todos os dias, encontrando o que é mais importante. Acontece-lhes mais ou menos o mesmo quando, usando a de novo a língua dos anglos (que, como disse São Gregório Magno, andam bem próximos dos anjos, ainda que deles se esqueçam), os levo a entender quem foi aquele homem que a água suja do tio Sam vestiu de vermelho para desprezar o Encarnado, trocando a generosidade por milhões de dólares.

O Natal trata de um nascimento e do nascimento de alguém que mereceu ser chamado Cristo ou Messias. De um nascimento que mudou a humanidade e, sendo Ele caminho, continua a mudar, mesmo quando não damos por isso. A atenção é uma virtude que se vai desfazendo e é, por isso, normal que andemos de cabeça no ar, muito preocupados com imensas coisas, esquecendo a mais importante. Se Ele, através do ínfimo que é, não continuasse a oferecer-nos a mudança e, por ela, algo de inefável a que podemos chamar “esperança”, “amor”, “justiça” ou “paz”, não valeria a pena deixarmo-nos incomodar pela Sua presença. Mais valeria voltarmo-nos para um altar panteísta ou argentário, para um qualquer bezerro contemporâneo (que os há em abundância e muito sedutores) e aí praticar as nossas devoções. Ou então ajoelhar perante a nossa fotografia ou perante o espelho, cultivando o mais extremo egoísmo e a mais abissal vaidade.

Dir-me-ão que isso mesmo está sucedendo nos nossos dias, em dimensão cada vez mais grave e preocupante. Que sempre foi esse o cerne da humanidade. Que isso nos está levando para a desgraça. Talvez seja verdade. Por isso mesmo, creio, é tão importante fitarmos o ínfimo que é Jesus menino e desprotegido numa manjedoura ou, se fosse hoje, numa qualquer tenda usada pelos sem-abrigo deste mundo, tenha ela a forma que tiver. Não interessa se a celebração é a 25 de Dezembro, recordando-O como “Sol da Justiça”, ou se a põem noutro dia qualquer. É indiferente o calendário. O que não é indiferente é o seu carácter de semente, de divina semente, que nos dá esperança quando ela parece extinguir-se, que nos garante que “há mais mundos” (como diria o Régio) além da erodida existência quotidiana que nos rasteira e engana. O Natal não tem por isso tempo, porque Ele, bebé nascido para nos recordar – através das Suas chagas e da Sua morte horrenda – que Deus está connosco e com as nossas dores, nasce todos os dias, mesmo que não consigamos dar por isso. Incomoda-nos com a Sua presença. Chateia-nos. Espicaça-nos. Só por isso vale a pena deslocarmo-nos do nosso Eu e encontrarmo-nos com o Outro nos outros, deixando de ver o que nos rodeia como Isso, como um monte de coisas que bem podem ser descartadas e atiradas para a lixeira. Está nesse encontro talvez a nossa última hipótese de salvação. Será bom não andarmos distraídos.

 

Ruy Ventura é poeta, ensaísta e investigador, autor de Sob os braços da azinheira – leituras de Fátima e organizador da Antologia Poética, de Frei Agostinho da Cruz.

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