“Natureza humana” e “condição humana” em tempos de pandemia

| 7 Jan 21

Nas margens da Filosofia (XXVIII)

“A acção é o núcleo essencial da condição humana pois por ela nos demarcamos da animalidade e da escravidão.” Foto: Cícero R. C. Omena – Condição humana / Wikimedia Commons

 

O conceito de natureza humana fez carreira ao longo da história da filosofia sendo usado durante séculos sem levantar problemas. A época moderna foi fértil em livros dedicados a esta temática que poderíamos incluir no rol das ideias geradoras de que nos fala a filósofa Susan Langer.[1] Trata-se de conceitos fundadores que determinadas épocas elegem, tematizam e desenvolvem, mantendo-os inquestionáveis ao longo de um tempo mais ou menos longo.

Acontece que esses conceitos se desgastam e deixam de responder às próprias expectativas que criaram. A contestação avoluma-se e a dada altura percebemos que a unanimidade se perdeu e que são mais os críticos do que os utilizadores de tal terminologia. Isto aconteceu com o conceito de natureza humana. Esta ideia geradora, trabalhada sem problemas ao longo de séculos começou a ser posta em causa na contemporaneidade, devido às suas conotações essencialistas e fixistas. De facto, ao falarmos de uma natureza humana parecia que lidávamos com algo de inalterável, uma tese que ameaçava o dinamismo inerente à situação dos seres humanos num mundo em permanente mudança.

Hannah Arendt foi uma das vozes que subscreveu este olhar crítico. Na sua obra intitulada A Condição Humana [2] a filósofa sustenta que embora seja lícito falar da natureza das coisas nada nos leva a supor a existência de uma natureza humana. Arendt contesta este conceito que nos definiria a partir de determinadas características essenciais e admite que continuamos a ser homens e mulheres mesmo que sejam radicalmente alteradas as circunstâncias em que nos foi dado viver. As condições variam de acordo com o lugar que habitamos, com a época histórica em que nos situamos, com a cultura que partilhamos com os nossos semelhantes.

Para ela, os traços essenciais para que a nossa humanidade se mantenha podem ser alterados quando há mudanças, sem que, no entanto, abandonemos o estatuto de humanos que somos. E assim propõe-nos como exemplo possível a ocorrência de uma catástrofe que nos obrigasse a fugir para um outro planeta. Esta situação hipotética não implicaria o fim da humanidade dos fugitivos, pois eles continuariam sujeitos a determinadas condições.

Pode então haver seres humanos que não partilhem das condições que consideramos essenciais para a vida humana, mas que no entanto mantêm a sua humanidade. E, segundo a filósofa, há três actividades que a asseguram: o labor (labour), o trabalho (work) e a acção (action). Pelo labor crescemos, ultrapassamos doenças e integramo-nos no ciclo da vida. Pelo trabalho afirmamo-nos como donos e senhores da natureza. Pela acção relacionamo-nos uns com os outros e conseguimos que o mundo humano se transforme em morada. A acção é o núcleo essencial da condição humana pois por ela nos demarcamos da animalidade e da escravidão. A sua expressão mais alta é a política, uma actividade nobre que se estabelece na relação e na pluralidade.

A condição em que hoje vivemos devido à pandemia que nos afecta alterou as relações que habitualmente estabelecíamos uns com os outros. Sentimos na pele os seus efeitos negativos, quer fisicamente pelo perigo que a doença representa para quem é infectado, quer psiquicamente pela insegurança e pelo temor que passaram a fazer parte das nossas vivências quotidianas.

Não falando nas mutações sociais provocadas pela epidemia, nomeadamente o desemprego e a consequente perda de qualidade de vida, lembramos as profundas alterações no que respeita à afectividade, essa constante essencial das nossas vidas. Desabituámo-nos de tocar, de abraçar e de beijar; as saudações permitidas transformaram-se em acenos de cabeça ou em manifestações agressivas como cotoveladas e murros, um tipo de saudação cada vez mais comum.

O rosto, que o filósofo Levinas considerara essencial para a escuta e o acolhimento, aparece-nos parcialmente escondido pelo uso obrigatório das máscaras. A sociabilidade e a hospitalidade são encaradas com desconfiança e habituamo-nos a receber pessoas no limiar das portas. Os encontros sociais evitam-se, os espectáculos culturais estão desertos, as celebrações realizam-se com um número diminutos de pessoas, as igrejas estão vazias e muitos dos gestos rituais foram banidos. Paulatinamente vamo-nos transformando de actores em espectadores, recebendo ordens e orientações através dos telejornais.

Recorrendo de novo a Hannah Arendt lembramos que, para a filósofa, as condições da nossa existência não explicam o que somos, apenas mostram como vivemos. E o modo como vivemos é construído por nós, seres humanos criativos e responsáveis. Quando fala em condição humana, Arendt engloba neste conceito tanto aquilo que é dado e que necessariamente suportamos, quanto o que construímos, por mais adversas que sejam as situações. Para ela os humanos são responsáveis pela criação contínua das suas próprias condições.

Aplicando as suas teses à situação que presentemente vivemos, constatamos que nem tudo é negativo e que a criatividade de que nos fala tem dado fruto, sendo visível nos inúmeros gestos de cuidado, de solidariedade e de compaixão a que temos assistido. O que nos leva a encarar este período probatório como um desafio para uma nova maneira de viver, mais consciente das nossas fragilidades, mais atenta aos outros e mais solidária com a Terra que habitamos.

 

[1] “Generative ideas” in Susanne LANGER, Philosophy in a New Key. A Study in the Symbolism of Reason, Rite and Art, Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 1996 (1942), p. 8.
[2] Hannah Arendt, The Human Condition, Chicago, The University of Chicago Press, 1989, pp. 9-10 (ed. port.: A Condição Humana, ed. Relógio d’Água)

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

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