Crónica de Berlim

nazis, Israel/judeus, europeus: o que há por trás de certas caricaturas

| 20 Mai 21

 

Lá vamos nós outra vez: a tragédia Palestina/Israel agudiza-se, e recomeçam as caricaturas que comparam o que Israel faz aos palestinianos com o que os nazis fizeram aos judeus – o Holocausto em Gaza…

Fico sempre incomodada com este tipo de comparação, e passo a explicar porquê:

 

  1. O cinismo e a hipocrisia dos europeus  

 

sinal stop auschwitz holocausto

Sinal com ordem para parar, no campo de concentração de Auschwitz. Mais de metade dos jovens norte-americanos desconhece este local. Foto: Wikimedia Commons.

 

Foi um gravíssimo erro instalar um país novo no território dos palestinianos, algo que nunca devia ter acontecido e deu origem a uma sucessão de crimes contra aquele povo e contra a nossa ideia de Humanidade: quotidiana tragédia desde 1940, sem fim à vista e cada vez mais aguda.

Mas que não haja dúvidas: na origem desta catástrofe estão os europeus – o anti-semitismo dos europeus, a sua má vontade contra os judeus e a sua má consciência por causa do Holocausto. Os europeus e os seus pogroms contra judeus ao longo dos séculos; os europeus que participaram (em muitos casos de bom grado) na máquina do Holocausto e os que fizeram de conta que não viam nada do que acontecia, ou decidiram que não podiam fazer nada (a este nível, os EUA também não lhes ficaram atrás – veja-se por exemplo o caso do navio Saint Louis cheio de refugiados judeus, ou a recusa de bombardear os acessos ferroviários a Auschwitz); os europeus cujo anti-semitismo continuou de óptima saúde mesmo após a derrota dos nazis.

Os nazis não eram os únicos anti-semitas da Europa. Mesmo depois da guerra, em muitos países europeus os judeus continuaram a ser perseguidos e assassinados ou, pelo menos, mal vistos. Em 1945, o “problema dos judeus europeus” não era apenas o problema de centenas de milhares de sobreviventes profundamente traumatizados que precisavam de um território seguro para viver, mas sobretudo o problema de vários países que não queriam ter nada a ver “com essa gente”, e que desenharam uma solução confortável para si próprios à custa dos palestinianos.

Se a Europa não tivesse um forte interesse em ver-se livre dos judeus europeus, Israel nunca teria chegado a existir. Foram os países ocidentais que escolheram os palestinianos para pagar o preço dos erros cometidos ao longo dos séculos pelos europeus, e foram os países ocidentais que trataram os palestinianos como seres humanos de segunda, tal como antes já tinham feito com os judeus.

Se queremos acusar Israel de genocídio, lembremos então que um dos elementos centrais deste – a negação da humanidade do “outro”, que no caso dos palestinianos começou pela negação da sua própria existência (“uma terra sem povo para um povo sem terra”) – teve origem nos países ocidentais.

Portanto, desde já: a tragédia a que assistimos na Palestina não é só uma história de Israel contra os palestinianos – é o resultado directo do que, após a queda dos nazis, uma Europa anti-semita fez aos judeus e aos palestinianos para resolver o problema que ela própria tinha com os judeus europeus. Temos grandes responsabilidades nesta situação. E só por isso já devíamos pensar duas vezes antes de dizer que os judeus (ou Israel) é que são os maus da História, e de andar a partilhar caricaturas em que Israel aparece conotado como nazi.

 

  1. O sadismo dos europeus

Há algo de muito sádico e perverso no facto de pessoas do continente que mais mal fez aos judeus – os pogroms, as expulsões, o Holocausto – se servirem justamente deste crime contra a Humanidade, que nos devia envergonhar e aterrar para sempre, para fazer caricaturas com o objectivo de humilhar e envergonhar os judeus (ou Israel).

Bem sei que estas caricaturas pretendem apenas afirmar que Israel faz aos palestinianos o que os nazis fizeram aos judeus, mas, mesmo que a comparação fosse factualmente correcta (v. ponto seguinte), imaginem uma mulher que conseguiu não se dar conta de que o marido abusava sexualmente do seu filho, dia após dia, noite após noite, e desata a ralhar com o filho quando descobre que este, por sua vez, abusou de outras crianças, “Olha lá, isso é coisa que se faça? O raio do rapaz não tem vergonha de abusar dos mais pequenos! Então tu tens o desplante de fazer aos outros o mesmo que te fizemos a ti na nossa casa, seu grande mau carácter?!”

Nós, os europeus que desenhamos, apreciamos e partilhamos aquelas caricaturas de Israel, somos essa mulher.

 

  1. A equiparação dos crimes cometidos contra os palestinianos ao genocídio levado a cabo pelos nazis:

 

Auschwitz; Holocausto

Óculos das pessoas assassinadas no campo de concentração e extermínio de Auschwitz Birkenau (1941-1945). Foto: Paweł Sawicki, Auschwitz Memorial

 

– Penso que há uma diferença grande entre querer exterminar um povo e querer expulsar um povo do seu território. Lembro que a Alemanha nazi fechou as fronteiras para não deixar escapar mais nenhum judeu, porque os queria matar até ao último, enquanto Israel comete todo o tipo de crimes e atropelos com o único objectivo de dificultar ao máximo a vida aos palestinianos no seu território, de forma a que estes acabem por se ir embora. É um crime, mas não é o mesmo crime que os nazis cometeram contra os judeus.

– O genocídio dos judeus europeus (e, já agora, dos cristãos arménios, ou dos tutsi no Ruanda) resultou numa redução brutal dessa população na área onde vivia. No princípio do século XX havia 11 milhões de judeus na Europa, e seis milhões foram assassinados no Holocausto. Já na Palestina, passaram de 1,2 milhões em 1947 para quase cinco milhões em 2019. Em vez de reduzir drasticamente, a população quadruplicou. Tanto melhor, obviamente, mas seria o primeiro caso de genocídio no qual a população quadruplica em vez de ser dizimada.

– Quanto aos números de vítimas: em 75 anos, a ocupação da Palestina fez cerca de 14.000 vítimas no lado palestiniano. Esse número corresponde a um pouco mais de 1% da população palestiniana no início do conflito. Os nazis assassinaram mais de 50% da população judaica da Europa em cinco anos e meio. O que Israel fez ao longo de 75 anos, faziam os nazis em cinco dias.

Independentemente do número de vítimas, é sempre um crime contra a Humanidade. Mas não podemos afirmar que Israel está a cometer assassinatos em massa tal e qual como os nazis.

Se é para comparar com outros crimes semelhantes, o mais próximo que me ocorre é a invasão do Iraque pelos EUA. Segundo estimativas, só nas primeiras seis semanas da invasão o exército norte-americano terá matado entre onze mil e catorze mil iraquianos. O que Israel fez em 75 anos, fizeram os EUA em seis semanas (e foi apenas o princípio). O “problema” é que uma caricatura que compare Israel/Gaza a EUA/Iraque não funciona da mesma maneira, porque lhe falta um ingrediente forte: o anti-semitismo que rejubila ao ver os judeus humilhados por imagens do Holocausto aplicadas contra Israel.

– Quanto à brutalidade: quem afirma que Israel trata os palestinianos como os nazis tratavam os judeus, devia talvez relembrar as execuções em massa de centenas de mulheres, crianças e velhos nus em frente à sua própria vala comum; ou as pessoas metidas à força em carruagens de gado para fazerem viagens de vários dias, apinhadas e em pé, sem água nem comida; ou a triagem à chegada do comboio, e o envio directo de centenas de pessoas para câmaras de gás, dia após dia; ou o laboratório de experiências onde por exemplo se obrigava uma criança a beber ácido para ver o que acontecia no corpo dela e como se podia tratar.

 

Em suma: tenho dificuldade com estas comparações da Alemanha nazi com Israel porque isentam os europeus da sua própria responsabilidade histórica, porque dão, cinicamente, novo vigor ao anti-semitismo que ainda existe em nós, e porque não encontro paralelos nem nos objectivos, nem nos métodos, nem no número de vítimas.

Se querem chamar genocídio à perseguição ignóbil que Israel tem em curso contra os palestinianos e à assombrosa assimetria de forças, seja. Mas então inventem outro nome para o que fizeram aos judeus e aos ciganos na Europa do III Reich. Porque não é a mesma coisa.

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado.

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