“Nefasto” e acusado de encobridor, núncio no Chile é nomeado para Portugal

| 29 Ago 19 | Cristianismo - Homepage, Destaques, Igreja Católica, Newsletter, Últimas

O arcebispo italiano Ivo Scapolo, nomeado para novo núncio da Santa Sé em Portugal. Foto: Direitos reservados

 

O arcebispo italiano Ivo Scapolo, 66 anos, actual núncio apostólico no Chile, foi nomeado esta quinta-feira, 29 de Agosto, como novo representante do Papa e da Santa Sé, em Portugal. Deixa atrás de si uma sensação de alívio no Chile, onde era apontado como “nefasto” e visto como uma das pessoas que ajudaram a encobrir os casos de abuso sexual do clero e, nomeadamente, do padre Fernando Karadima.

“O Vaticano tira do Chile, por fim, o núncio Ivo Scapolo e envia-o a Portugal”, titulava o jornal digital Kairos, publicação católica independente criada em Julho, dirigida por jornalistas, teólogos e outros leigos católicos.

Em Portugal, a nomeação foi recebida com uma saudação da Conferência Episcopal Portuguesa, que deseja ao novo núncio “um frutuoso ministério pastoral como representante da Santa Sé junto da Igreja em Portugal e nas relações diplomáticas com o Estado Português”.

Num comunicado assinado pelo padre Manuel Barbosa, secretário da CEP, e citado pela Ecclesia, o episcopado português ainda deixa um recado indirecto: “Evocando alguns preceitos simples e elementares que o Papa Francisco formulou em forma de decálogo no recente encontro com os núncios apostólicos, desejamos que D. Ivo Scapolo exerça a sua missão entre nós como ‘homem de Deus, de Igreja, de zelo apostólico, de reconciliação, do Papa, de iniciativa, de obediência, de oração, de caridade ativa, de humildade’”.

Ivo Scapolo nasceu em Pádua, a 24 de julho de 1953, e foi ordenado em 1978. Em 1984 entrou no serviço diplomático da Santa Sé e já tinha trabalhado na nunciatura em Portugal, além de Angola e Estados Unidos da América. Enquanto núncio apostólico, esteve na Bolívia (2002-2008), Ruanda (2008-2011) e Chile (2011-2019).

Em 2018, no auge da crise dos abusos sexuais no Chile, surgiram várias acusações ao agora novo núncio em Portugal: teria sido ele um dos principais encobridores das situações de abuso do padre Karadima e da protecção por este recebida do bispo Juan Barros; e Scapolo teria estado também envolvido em iniciativas que pretendiam torpedear a missão dos dois enviados do Papa ao Chile, conduzida no Chile por Jordi Bertomeu e Charles Scicluna, para averiguar a extensão dos abusos e do encobrimento. Na sequência da crise, o Papa chamou ao Vaticano todos os bispos chilenos, mas o núncio não esteve presente, sem que as razões para tal tenham ficado cabalmente esclarecidas.

Na altura da investigação no Chile, Scicluna – que tutela a luta contra os abusos, no Vaticano – contrariou mesmo desejos do núncio, falando com vítimas e mostrando-lhes solidariedade, ao contrário do que Scapolo teria feito, segundo os sobreviventes. Luis Badilla, director do Il Sismografo, publicação digital que acompanha o noticiário do Vaticano e do catolicismo mundial, caracterizava-o ainda como tendo uma “personalidade autoritária”.

Logo depois da nomeação ter sido conhecida, o Kairospublicava a notícia e dizia: “Aqui informamos à Igreja de Portugal sobre o ‘prontuário diplomático’ deste nefasto personagem.” O coordenador da Rede de Leigos e Leigas [católicos] do Chile, Juan Carlos Claret, enunciava, entre outros factos que nunca teriam sido explicados pelo próprio ou por qualquer outra instância, o boicote de Scapolo à saída do bispo Barros, em 2014, quando a nomeação deste foi muito contestada. As investigações sobre o ex-núncio Luigi Ventura, em França, ou do secretário pessoal de Scapolo, que em 2013 voltou para a Colômbia, também terão ficado por explicar.

 

Má informação ao Papa

O facto mais grave, entretanto, terá sido a má informação prestada ao Papa por Scapolo, na sua função de núncio. Marcial Sánchez, professor de História da Igreja e apontado no Kairos como “reconhecido analista eclesial”, diz que a passagem de Ivo Scapolo pelo Chile foi “lamentável”, pois o núncio foi “um dos piores que teve a história do Chile”. E acrescentava, de acordo com a mesma fonte: “É um dos piores núncios porque não foi capaz de compreender e entender o que necessitava a Igreja chilena durante muitos anos. (…) não esteve à altura do que o Papa lhe pedia e inclusivamente ocultou informação ao Papa como ficou absolutamente claro em alguns dos últimos acontecimentos.”

Martin Sánchez diz ainda, na mesma declaração: “Scapolo deixa um rasto bastante pobre no Chile. Ele não desencadeou a crise [dos abusos] mas fez parte dela. Scapolo é a crise porque foi um homem que não foi suficientemente coerente entre o que significa ser um sacerdote e um núncio apostólico.” E faz votos para que a vinda do diplomata para Portugal possa ajudar a esclarecer, através de investigações, o papel de Ivo Scapolo como eventual encobridor de casos de abuso sexual.

Scapolo foi formado na escola diplomática do cardeal Angelo Sodano, que foi igualmente núncio no Chile entre 1978 e 1988 (durante o período da ditadura de Pinochet) e seria depois secretário de Estado do Vaticano – e que, também foi  já acusado de ter ajudado a encobrir os crimes do padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo.

Além de Sodano, o Kairos cita outros “nomes nefastos” para a Igreja Católica no país, que ali estiveram nas últimas décadas. Mas também em Portugal, o antecessor de Scapolo, Rino Passigato, não deixou saudades entre muitos sectores, incluindo vários bispos que, nos bastidores, se queixavam de vários comportamentos, como há dois anos foi noticiado, na sequência da morte do então bispo do Porto, António Francisco dos Santos.

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