[Margem 8]

Nem amnistia nem multas de trânsito

| 6 Ago 2023

Ilustração © Aquarela original de Susana Braguês para esta publicação.

 

As palavras que usamos contam. E há um sonho de esperança inesgotável que a palavra “amnistia” não é capaz de contar. Por sorte, temos uma outra: jubileu. Ou redenção, se me der para puxar a brasa redentorista à minha sardinha.

Amnistia vem do grego “esquecer” (como amnésia); “não lembrar”, literalmente. Nas últimas semanas foi uma palavra muito lida e ouvida no contexto da vinda do Papa. Sem entrar nas contingências das propostas concretas que estiveram em cima da mesa desta vez, quero trazer a pergunta “Porque se associa a vinda do Papa a Portugal com uma amnistia concedida a quem está nas nossas prisões?”

Sobrevoemos apenas a grande história bíblica e o sonho experimentado de liberdade que lhe dá origem. Toda a mundividência hebraica nasce da “saída dos nossos pais do Egipto, quando Deus nos foi buscar”. Tudo começa a ser interpretado, para trás e para a frente, à luz dessa Páscoa imensa, desde os mitos da origem às grandes profecias da criação culminada.

Mas a liberdade inaugurada no êxodo tinha de ser treinada, praticada, vigiada e, ciclicamente, renovada. Havia três ritos fundamentais, marcando os ritmos de uma libertação nunca concluída: de sete em sete dias, de sete em sete anos, depois de um tempo de sete vezes sete anos (o quinquagésimo ano). Estes três ritos, escritos em poucas linhas, chamam-se “sábado”, “ano sabático” e “jubileu”.

O sábado tem a função de verificar semanalmente a liberdade: quando não puderes descansar, deixaste de ser livre. Quando não permitires descanso aos que estão contigo, deixaste de ser da liberdade. Adorar Deus no Sábado: santificar o descanso é declarar santa a liberdade. O rito semanal é uma verificação prudente e sempre necessária da liberdade que não podemos dar por garantida em nenhum momento. Como um dom, precisa de cuidado. Como uma beleza, precisa de curadoria.

O descanso sabático (lembro-me tão bem de o meu avô ter ainda esse cuidado do pousio das terras) é um rito de liberdade e acção de graças pelo qual se explora um terreno apenas durante seis anos, e se deixa descansar no sétimo. Nesse ano, não se semeia nem se colhe o que o terreno continuar a dar espontaneamente. Para quê? Para não acontecer a ilusão da posse e, sobretudo, para que os mais pobres tenham sempre onde ir buscar alimento. O “proprietário” não pode colher, mas também não pode impedir que os pobres colham. Com as terras em pousio, os pobres teriam sempre a mesa posta em Israel, de bens variados, assim como os animais selvagens. É claro que os hebreus dessa época sabiam, como nós sabemos, que o pousio da terra tem também a ver com o descanso necessário para a terra se regenerar mineral e nutricionalmente, mas é tão mais poético – e, por isso, sério – colocar a justificação no ponto certo: liberdade e solidariedade.

O jubileu, esse sim é um dos sonhos programáticos mais ousados da história da escritura. Por isso, desde sempre fizemos e fazemos de conta que não está lá. Ou, no máximo, fazemos de conta que é uma fábula do tempo em que os animais falavam ou uma utopia para quando voltarem a falar. No fundo, consiste nisto: perdão das dívidas! Todas! De todos! A acção do perdão das dívidas provoca o efeito imediato da liberdade de todos os que estão prisioneiros e também o retorno às famílias originais daquelas propriedades que foram sendo confiscadas durante os quarenta e nove anos anteriores. Exige-se um reset na partilha de terras entre as doze tribos de Israel e entre as diversas famílias e clãs. Nunca ninguém levou isto verdadeiramente a sério, apesar de ser um mandato meridionalmente expresso na Torah.

Era uma vez um galileu, de Nazaré, que levou isto muito, muito a sério. A ponto de o tornar programa de vida. Sim, o grande sonho de Deus foi por ele transformado em programa de vida concreto. Quando iniciou esta paixão-missão, foi à sinagoga da sua terra para declarar a inauguração do ano do jubileu, o tempo da graça. Pegou no rolo de Isaías e procurou até encontrar, e leu até lá chegar: “ungiu-me, enviou-me, para libertar os prisioneiros, descerrar os cativos, abrir os olhos aos cegos, anunciar a boa notícia aos pobres, mandar em liberdade os oprimidos, e proclamar o Ano da Graça do Senhor!” Sabemos o resto, não sabemos? Jesus parou aqui, exactamente aqui, fez o silêncio que ratifica a solenidade da palavra seguinte, e pousou-a: “É hoje. Começa. Agora. Hoje mesmo cumpre-se esta escritura que acabais de ouvir”.

Quando rezava, era isto que rezava, o perdão das dívidas: “…perdoa as nossas dívidas como nós perdoamos a quem nos deve…” Foi o evangelista Lucas, não hebreu, que traduziu dívidas por ofensas, e nós fomos todos atrás dele.

Porque está o Novo Testamento inteiro cheio de anjos por toda a parte tocando trombetas e cornetas? Porque esse é o grande sinal do jubileu: “Quando chegar o décimo dia do sétimo mês, depois de teres contado sete semanas de anos, vais fazer ressoar fortemente a trombeta. Esse é o dia do grande Perdão, e o som da trombeta há-de fazer-se ouvir na vossa terra inteira!” (Lv 25, 8-9) Lemos em todo o Novo Testamento, continuamente as cornetas soam e as trombetas ressoam, desde o nascimento de Jesus contado por Lucas às visões imensas do Apocalipse, desde a kerigmática pregação de Pedro em Jerusalém às coloridas cartas de Paulo. O ressoar do jubileu é permanente, o trombetear do tempo da Graça é inextinguível. E também vemos na arquitectura das nossas igrejas durante séculos, nas cornijas exteriores ou nos barrocos interiores, esculpidos e pintados, em afrescos de Botticelli ou em taipais pintados à minhota: anjos com trombetas e cornetas, sempre a alardear o mesmo e único anúncio bíblico!

O Papa Francisco vem a Portugal como alguém que traz a boa notícia, e esta é sempre a mesma: “a gloriosa liberdade dos filhos de Deus”! Todos, todos, todos, TODOS! A amnistia de que ouvimos falar não é uma benesse governativa pela visita de um chefe de Estado, mas um gostinho de Jubileu, um anúncio do sonho de Deus para o mundo, um aperitivo do Banquete da igualdade, uma alvorada ensaiada de Dia do Grande Perdão, uma Parábola de Reino de Deus, uma concretização do Pai Nosso… Diz como quiseres, chama-lhe como quiseres, usa a imagem que mais gostares. Mas não deixes de saborear a visão que está dentro de um sinal destes, não deixes que a conversa fique no nível das multas de trânsito.

Temos sorte com o Papa Francisco, que nos gestos que tem tido e nas palavras inspiradas que tem oferecido, está a manifestar fielmente o sentido desse sinal da amnistia que prenuncia o Jubileu: o Perdão incondicional, a Liberdade inegociável, a Graça que, afinal, é tudo.

 

Nota: estes estonteantes mandamentos estão espalhados por toda a bíblia, mas o que aqui está dito do jubileu está bem visível no capítulo 25 do livro do Levítico. Sobre o Sábado: no capítulo 5 do livro do Deuteronómio, os versos 12 a 16. Sobre o Descanso Sabático: no capítulo 23 do livro do Êxodo, os versos 9 a 13.

 

Rui Santiago é missionário redentorista e presbítero católico.

 

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