Nem sempre O entendo, não me canso de O procurar

| 1 Abr 2022

super pai foto c ana vasquez

“É preciso uma aldeia para educar uma criança. Por isso faço questão de, a cada ano, lembrar todos os Pais que, de alguma forma, tive e tenho – e aqueles que sei e vejo.” Foto © Ana Vasquez

 

No último Dia do Pai, dei comigo a pensar que na minha família nunca houve uma tradição muito forte na celebração destes dias evocativos. Da escola levávamos, no Dia do Pai, um pisa-papéis feito de massinhas mal pintadas que, mais tarde, iríamos encontrar esquecido (mas não desfeito) no fundo de uma gaveta na escrivaninha da sala. No Dia da Mãe, levávamos num tabuleiro um pequeno-almoço composto por sumo de laranjas mal aproveitadas, pão e uns ovos mexidos demasiado passados. Tudo de qualidade inversamente proporcional à bagunça em que ficava a cozinha. O Dia da Criança era marcado pela cobiça. Invejávamos os colegas cujos Pais achavam que aquele era o dia dos seus filhos e não “de todas as crianças que ainda precisavam de paz, e comida e de ir à escola”, como éramos ensinados.

Hoje, o pisa-papéis mal amanhado em colagens é substituído por um telefonema ou visita que, normalmente, têm como resposta uma gargalhada e um “olha, já nem me lembrava!…” Tenho um Pai generoso, aberto, justo, amigo, presente, companheiro e protetor, “que sempre estará aonde eu vá.” Jamais direi que é “o melhor Pai do mundo”, ou “o maior exemplo de generosidade que conheci”, porque fico sempre a pensar que isso é presunçoso e indecente para os Pais dos outros, que também são “os mais do mundo”. Esse cuidado foi dele que recebi. E acho que isso diz tudo sobre a tinta que escreve estas palavras.

Por outro lado, tenho plena convicção de que “é preciso uma aldeia para educar uma criança”. E por isso faço questão de, a cada ano, lembrar todos os Pais que, de alguma forma, tive e tenho – e aqueles que sei e vejo.

O Avô paterno, de quem recebi de presente o gosto pelo estudo e a curiosidade, em forma de Enciclopédia. O Avô materno, a quem ainda dou a mão em pensamento quando preciso de trazer aos olhos um brilho de coragem. O tio Luís, padrinho de vida e de razão, que faz o melhor rosbife, dá os melhores conselhos e daqui a pouco está a tocar à porta para me levar ao teatro. O tio Fernando, cujo sorriso tenho agora que procurar numa moldura quando preciso de reviver os elogios, o impulso, o aplauso, a confiança e a crença de sempre numa luz que sempre viu mais brilhante do que eu. O tio Gonçalo, padrinho de batismo e de Lisboa, que tantas vezes me lembra de que Jesus viveu toda a vida de braços abertos.

Relembro os Pais que perderam filhos, e todos os filhos sem Pai. Alguns são meus amigos, e mesmo aos que não são, desejo ardentemente que fosse possível, com um abraço, dividir com eles o pesado fardo do vazio.

Trago à memória os Pais em guerra. Os que não conheço, mas sei, que se metem com os filhos em barcos, porque qualquer futuro é melhor do que um passado de violência, mesmo que isso signifique afundar o presente no mar da travessia mediterrânica. Os que entregam os filhos ao violento destino de matar ou morrer por razões que só um irracional conhece. O Pai da R., a peça que lhe faltava no coração remendado e que ao fim de anos pôde vir de Aleppo para tomar o lugar que sempre fora seu, ainda que noutras paragens. O Pai M., que todos os dias se esforça por sorrir e trabalhar, para que o T. não recorde deste tempo mais do que o calor e a amizade que encontraram numa casa tão longe de casa. O Pai da M., que se despediu da mulher, da filha bebé e do filho por nascer, mandando-os para longe da desolação que é ver desmoronar-se a liberdade que julgava poder oferecer-lhes.

Acabo, por fim, a pensar no Pai de todos. Nem sempre O entendo, confesso, mas não me canso de O procurar. E de pedir ao seu Filho que em todos os Pais que amam os filhos corra um pouco do seu consolo; que em todos os Pais que sentem a falta dos filhos repouse um pouco do seu amor; e que em todos, Pais e filhos, que lutam contra a tirania, a injustiça e a desigualdade, pulse um pouco da sua resistência.

 

Ana Vasquez trabalha em Comunicação e Marketing. Contacto: anapontovasquez@gmail.com

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