Nem só de ecrã vive o Homem

| 19 Ago 2021

“O Facebook criou uma equipa focada nas “parcerias da fé”. As orações são já consideradas por esta empresa como um ‘novo produto’ ”. Imagem: Montagem com facebook e religião. Foto © Pixabay

 

O Facebook tem mais utilizadores que cristãos existentes no mundo. A receita financeira pela captura da nossa atenção atingiu já um trilião de dólares, mas o Facebook não está ainda satisfeito. O seu novo alvo é a religião.

A jornalista Elizabeth Dias fez uma síntese para o New York Times do percurso realizado pelo Facebook de se aproximar das comunidades religiosas e introduzir na sua plataforma a experiência dos crentes. Dias diz que “o Facebook está a definir o futuro da própria experiência religiosa, como fez para a vida política e social” – e pensem no que isso resultou (desinformação, manipulação dos comportamentos, etc.). A perspectiva é pouco animadora e a culpa é nossa. Por isso, também por nós passa a solução.

Durante o confinamento, o Facebook foi a plataforma que muitas organizações religiosas usaram para chegar aos seus fiéis e oferecer-lhes momentos de oração e celebrações. No discurso de Mark Zuckerberg, isso encontra-se em linha com o manifesto do Facebook de conectar o mundo, tendo criado uma equipa focada nas “parcerias da fé”. As orações são já consideradas por esta empresa como um “novo produto”, li na Reuters.

Um produto de partilha de oração uns pelos outros que começou durante a pandemia. Mas durante o evento ao vivo com vários líderes religiosos americanos, com emojis e corações a voar pelo ecrã, a directora de operações Sheryl Sandberg discute o futuro desta iniciativa referindo como envolver mais ainda os fiéis através das ferramentas da realidade virtual e da realidade aumentada. Um exemplo desta última poderia ser apontar o tablet para uma mesa e o ecrã coloca uma custódia com o santíssimo para podermos usufruir de uma momento de adoração. Mas é virtual.

Lembro-me de em jovem ter experimentado que a espiritualidade que vive imersa nas coisas invisíveis passa pela visíveis e reais que temos diante de nós. Por isso, através de um cântico em comunidade, do comer da hóstia, do calor e luz da vela, do ajoelhar e sentir o chão, isto é, as experiências sensíveis faziam crescer na interioridade o nosso relacionamento com Deus. Quando penso no uso das realidades virtual e aumentada ao serviço da fé, fico na dúvida se isso não nos desliga das experiências sensíveis com impacto profundo na vida espiritual. Não posso cheirar ou sentir o calor de uma vela projectada num ecrã. E se ficar sem bateria no meio de um momento de oração, temo que o reconhecimento de que a experiência, afinal, é virtual, gradualmente, nos afaste da experiência real.

Não tenho muitas dúvidas de terem havidos muitas experiências virtuais positivas durante o tempo da pandemia. Muitos sentiram força para superar as dificuldades através dos encontros virtuais, e a possibilidade de poder acompanhar as eucaristias foi bem melhor do que o vazio que o confinamento nos deixaria se não houvesse essa possibilidade. Mas ao longo dos últimos meses, apercebi-me como essa experiência (como esperamos que seja a pandemia) é passageira. E a demonstração disso está na saturação gradual que sentimos diante dos eventos online.

No final de Julho participei, pela primeira vez, numa conferência científica virtual e não posso dizer que a experiência foi um sucesso. É verdade que pudemos partilhar os mais recentes avanços científicos nas nossas áreas, mas as conferências existem para que as pessoas interajam umas com as outras. Muitas vezes, tínhamos a sensação de estar a falar para o vazio, pois ninguém interagia; e como não tinha a possibilidade de activar o microfone, todas as questões eram feitas por escrito e como somos mais lentos a escrever do que a falar, não conseguia ter tempo para interagir. Foi uma desilusão. Porém, o positivo dessa experiência foi o valor maior que passei a dar à possibilidade de contactar face-a-face outras pessoas quando estamos numa conferência, o que nem sempre era explorado convenientemente ou a que dava o real valor.

Os entusiastas da possibilidade de captar a atenção que plataformas como o Facebook oferecem, vêem nisso uma via possível para a Nova Evangelização. Mas quando falta a electricidade ou a bateria, quando os servidores estiverem em baixo para fazerem uma manutenção, o que resta de toda essa experiência? Permitam-me o cepticismo em relação a estes “entusiasmos”, cuja palavra na sua etimologia significa “cheio de Deus”. Pois, o que nos enche verdadeiramente de Deus é o amor, uma vez que Ele é Amor. E o amor vive-se intensamente na presença real que as experiências sensíveis nos oferecem.

Nem só de ecrã vive o Homem; por isso, as comunidades virtuais serão sempre passageiras no sentido de serem uma passagem para a vivência real daquilo que nos une, face-a-face e em segurança. Pouco a pouco, poderíamos voltar a encontrar os espaços de encontro reais. Pode ser com menos pessoas, mas creio que a experiência espiritual é mais profunda do que a virtual, que parece atingir muitos olhares, mas duvido que atinja o mesmo número de corações.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.

 

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