
Uma das fotografias captadas pelo telescópio James Webb: “Olhar para esta imagem mostra-me mais o que desconheço e me é dado a poder conhecer do que qualquer outra coisa.” Foto © NASA, ESA, CSA, and STScI.
Quando contemplamos o céu estrelado, ficamos deslumbrados com a imensidão do universo. Recordo-me de quando dormi ao relento numa actividade de escuteiros, em plena serra de Sintra, e não havia qualquer candeeiro que ofuscasse a vista. Vi pela primeira vez a Via Láctea. Só não me havia apercebido de que a Via Láctea que observava não existia, por fazer parte do passado.
No Natal de 2021, da Guiana Francesa, o foguetão Ariane 5 da Agência Espacial Europeia levava consigo um telescópio revolucionário chamado James Webb (JWST – James Webb Space Telescope), em honra a um antigo director da NASA, que levou 20 anos a ser concebido e construído. Para compreendermos as razões de ser especial, importa salientar que a luz é feita de ondas electromagnéticas que se propagam no espaço. O objectivo deste telescópio é o de reduzir ao máximo qualquer fonte de ondas electromagnéticas (vindas do Sol ou do próprio telescópio) para receber, com a maior intensidade possível, a radiação que vem dos lugares mais distantes deste universo. Porém, isso significa que não vemos o universo tal como ele é, mas como era. Pois essa luz viajou pelo espaço até chegar a nós, pelo que nos mostra o universo como era há milhares de milhões de anos. Assim, com o JWST, procuramos reconstruir a história do universo para a compreender. E a esperança de muitos cientistas é a de que as imagens do JWST possam mudar a nossa visão do mundo. Conseguirá?
O JWST pode observar melhor outras galáxias, estrelas e exoplanetas, e muitos desejam que possamos observar o que jamais foi observado. Podem ser os primeiros sinais de vida inteligente noutros sistemas solares ou galáxias, ou novas estruturas cósmicas e eventos que desafiam as nossas teorias. Mas tudo isso faz parte da expectativa e do desejo, não da realidade (ainda). E mesmo a foto revelada que gerou grande entusiasmo pelos meios de comunicação social, e redes sociais, foi considerada por muitos como uma boa imagem de fundo para o desktop do computador. De facto, é uma imagem semelhante a muitas outras que vimos nos filmes de ficção científica, apesar de ser real. O astrónomo do Observatório do Vaticano, Guy Consolmagno, disse que “tais imagens são um alimento necessário ao espírito humano – não vivemos somente de pão – especialmente nestes tempos”. Mas com a banalização das imagens editadas, não estaremos a correr o risco de que esta se torne em “mais uma”?
Uma imagem valia mais do que mil palavras quando era rara. Assim como uma palavra, por exemplo, a primeira de um bebé, vale mais do que os mil sons que faz depois de nascer. O que se torna banal, deixa de ser raro, e até pode gerar um furor momentâneo, mas não se torna perene como quando William Anders tirou a primeira imagem do nascer da Terra (Earthrise), o nosso planeta azul, durante a missão Apolo 8. Depois dessa foto, a nossa percepção do mundo mudou e apercebemo-nos da sua fragilidade e grandiosidade. Ao olhar para as galáxias distantes deste universo não temos a mesma sensação por estarmos já cientes de como o universo é vasto e variado.
Consolmagno expressava que nem só de pão vive o homem, mas imagens a mais também não alimentam. Imagens a mais podem entreter, mas o efeito é efémero. Por um lado, pode estar em falta o sentido crítico relativo a toda a informação que nos chega, seja através de imagens como a do JWST, videos ou artigos. Por outro lado, pode estar também em falta o sentido de comunhão que imagens como a capturada pelo JWST pode suscitar. Hoje consumimos imagens e, por isso, essas tendem a tornar-se banais. Porém, quando começamos a partilhar com os outros o que essas imagens suscitam em nós, gerando comunhão, o efeito pode ser completamente diferente.
Se a imagem do JWST nos mostra o universo como era há milhares de milhões de anos, as vivas cores e a diversidade de formas parece conter em si a potência relacional da criação. Olhar para aquela imagem mostra-me mais o que desconheço e me é dado a poder conhecer do que qualquer outra coisa. Só é uma imagem como todas as outras se auto-limitar o alcance interior daquilo que os meus olhos contemplam. Atrevo-me a dizer que naquela imagem encontro um ícone trinitário permeado de vida escondida pela vastidão contida em tão pequena área do meu ecrã. Um fervilhar de cores que não cessa de deslumbrar e mostrar que a história do mundo faz-se em nós e continua para além de nós. Nem só de imagens vive o homem, mas sem a comunhão que essas suscitam, parece-me impossível sobreviver.
Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Para acompanhar o que escreve, pode subscrever a Newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao. Contacto: miguel@miguelpanao.com










