[O flagelo que não acaba – iii]

Nem tudo é abuso sexual (há mais)

| 9 Jan 2023

abusos sexuais, Catarina Barbosa

Ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7Margens.

 

O abuso de poder, temo-lo repetido e continuaremos a insistir nisso, é a origem de todas as outras formas de abuso na Igreja. O abuso de poder é a principal fonte da maldade moral e da corrupção moral. É o uso pervertido e ilegítimo do poder para fazer dano a alguém.

O escritor Oscar Wilde dizia que na vida tudo tinha a ver com o sexo, menos o sexo que tem a ver com o poder. E está certo. A maioria dos escândalos dos últimos tempos, sejam de que tipo forem e aconteçam na instituição que acontecerem, estão capturados em imagens e gravações onde os seus protagonistas foram apanhados em deslizes, festas e até orgias sexuais muito difíceis de explicar. Se a informação é poder – e é evidente que é –, a informação temperada com sexo é o poder do poder.

Quando comecei a escrever este artigo, tornaram-se públicos os abusos cometidos por Marko Rupnik, um sacerdote jesuíta conhecido pelos seus impressionantes murais de mosaico que ornamentam inúmeras igrejas e até capelas do próprio Vaticano. É o penúltimo – o último está sempre por chegar – escândalo de abuso sexual na Igreja e, além disso, com dupla acusação. O abuso sexual e espiritual, em si mesmo, das religiosas de uma comunidade de Liubliana (Eslovénia) e o escândalo de ver como mais uma vez o abusador fica impune porque o crime prescreveu, segundo informou o Dicastério para a Doutrina da Fé, manifesta o que fica por fazer e corrigir na luta contra os abusos. Além disso, soubemos mais tarde que tinha sido excomungado pelo crime de ter obrigado uma das suas vítimas a confessar-se com ele e a dar-lhe a absolvição, também temperada com sexo e que, ao ter manifestado arrependimento e ter pedido perdão, lhe tinha sido levantada a excomunhão apenas um mês depois.

Chama a atenção que outros clérigos por delitos semelhantes já tenham sido afastados do “estado clerical”… Estaremos a assistir ao aparecimento de abusadores VIP?

Os abusos sexuais – de crianças, jovens e adultos – são do mais execrável que existe; porém, não são os únicos que se cometem, nem os únicos que merecem essa qualificação. Todos eles descrevem uma instituição mais preocupada consigo própria do que com as vítimas; mais empenhada em salvaguardar os seus muros do que em cuidar das pedras vivas que a compõem; e, finalmente, uma instituição onde a própria estrutura faz parte do problema.

Vou enumerar alguns desses abusos não sexuais porque citá-los a todos tornaria este artigo interminável; contudo, haverá no final uma ideia de conjunto, que creio ser acertada.

É um abuso de poder do pároco, sob a forma de ausência, quando nas paróquias não existe um Conselho Pastoral, nem um Conselho Económico; e é também um abuso de poder que, mesmo existindo, esses sirvam apenas para dar o seu consentimento às propostas do pároco, sem nenhuma possibilidade de sugerir ideias diferentes ou de manifestar que não se está de acordo com a proposta dele. O mesmo ocorre nas dioceses quando os seus conselhos – episcopais, presbiterais, económicos e pastorais – apenas servem para assentir as propostas do bispo.

Quando ele, o bispo, salta todos os passos consultivos nas nomeações paroquiais e vai impondo nos cargos mais relevantes da diocese pessoas com uma única linha de pensamento, sem possibilidade de tornar visível uma diversidade que dê forma à complementaridade e à riqueza de diferentes visões, está a incorrer em abuso de poder.

É claramente um abuso de poder que o bispo ou o pároco se recusem a falar com algumas pessoas, pela simples razão de não quererem falar com elas por suspeitarem ou saberem que não são da sua linha de pensamento pastoral.

Neste tempo sinodal, é um abuso de poder por parte dos párocos e bispos – o que evidencia tanto o seu desconhecimento da sinodalidade quanto o seu desprezo por ela – o ter criado obstáculos à fase diocesana do Sínodo sobre a sinodalidade, 2021-2024, e continuarem a colocar barreiras às fases sucessivas onde se requer a participação laical. O abuso de poder, e continuando com o tema sinodal, também se dá na manipulação das sínteses diocesanas e na implementação nula do que aí foi recolhido para, pouco a pouco, ir mudando a forma de actuação nas dioceses. Na fase continental que agora estamos a viver, é um abuso de poder muito claro que em algumas, para não dizer em bastantes dioceses, a parte em que os leigos podem e devem intervir seja redigida pelos bispos e, em alguns casos, pelos seus conselhos episcopais.

E é um abuso de poder, tanto por parte dos párocos como dos bispos, não fomentar uma sólida formação dos leigos que os torne capazes de pensar por si mesmos e continuar a mantê-los submetidos à única formação do Catecismo da Igreja Católica, que só permite dizer sim ao que ali se apresenta, sem dar a menor possibilidade de formar critérios próprios.

As congregações religiosas não escapam ao abuso de poder já que, pelo menos algumas, passaram a reproduzir, de modo quase milimétrico, as formas de clericalismo dentro delas. E o clericalismo é a maneira óbvia de abuso de poder. Agora, quando está a acontecer uma saída em grande escala de muitos dos seus membros, ninguém se lembra de pensar na estreita relação que existe entre essas saídas e o abuso de poder? Não ver isto é simplesmente não querer ver.

Há também aquelas formas de abuso de poder tão assumidas e nunca questionadas que praticamente acontecem como algo natural, e onde a expressão “porque sempre foi assim” ganha toda a sua força. Estas formas acontecem, sobretudo, por parte do clero em relação às mulheres, que uma boa parte dos sacerdotes considera como mão de obra barata para paróquias onde apenas são o que as deixam ser: empregadas de limpeza, assistentes pessoais (vai ali e compra-me, vai lá e leva isto da minha parte…) e subalternas litúrgicas. No Vaticano ainda ocorre a cruel realidade de que muitas religiosas, que em princípio vão a Roma para estudar, acabam sendo criadas (sem remuneração nem benefícios) de alguns cardeais.

O abuso de poder na vida religiosa – seja apostólica ou contemplativa – é uma realidade que aos poucos vem à tona. Dentro deste tipo de abuso, destaca-se o abuso de consciência que ocorre na vida contemplativa – tanto feminina como masculina – onde as pessoas abusadas chegam a acreditar que estão a agir livremente. Chega a este ponto a forma de manipulação.

Tanto assim é que, quando estas vítimas se apercebem e reagem (e ainda bem que o podem fazer), o normal é deixar a vida religiosa. Depois, diante da realidade de se verem abandonadas, literalmente abandonadas, junta-se o sentimento de fracasso e desorientação, a baixa autoestima e um sentimento de culpabilidade sempre presente. Quando conseguem ir ganhando distância e com ajuda psicológica na maioria das vezes, reconhecem que tudo aquilo que sentiram ao deixar a vida religiosa foram sentimentos perfeitamente implantados e nutridos por aqueles que deveriam ter sido os seus guias espirituais, que semearam – sem que a vítima se apercebesse até chegar o momento – dúvidas sobre a retidão dos seus pensamentos, decisões e ações. E se a vítima não se via capaz de abandonar a vida religiosa, caía cada vez mais numa dependência patológica do seu abusador, em quem procurava incessantemente refúgio.

O abuso de consciência vai condicionando as respostas que as pessoas dão a si próprias em determinadas circunstâncias, acreditando que agem livremente. Acaba por ser uma reeducação da sua capacidade de resposta que as irá manter submissas à vontade do seu abusador (sem que haja ideia de abuso sexual posterior), simplesmente para satisfazer a necessidade de domínio de quem abusa dela.

O abuso espiritual define-se facilmente lendo as declarações de uma das vítimas de Rupnik. Neste tipo de abuso, fica claro que o abusador não conhece nenhum limite para subjugar a sua vítima. Neste abuso, há mesmo a intenção de ir para o abuso sexual e, para isso, é capaz de usar e distorcer até os princípios teológicos mais sagrados.

E, por último, há um tipo de abusos do qual pouco se fala, mas que não são menos importantes. São os abusos laborais dentro da Igreja. O curioso destes abusos é que se movem dentro da legalidade, mas à beira da questão: o legal é sempre moral?

Este tipo de abuso passa por questões que contrariam a Doutrina Social da Igreja (até a lei é violada como tal) e, no entanto, ninguém parece dar-se conta disso. Os trabalhadores encontram-se, mais frequentemente do que pensamos, sem qualquer possibilidade de reacção porque à “empresa” custa-lhe menos despedi-los, ainda que seja sem justa causa e pagar a correspondente indemnização, do que satisfazer reivindicações laborais mais justas e equitativas. Curiosamente, neste tipo de abuso, considera-se que o trabalhador deve estar grato à Igreja por permitir que ele trabalhe para ela, mesmo que não se respeitem muitos direitos laborais.

Todo o abuso nasce do abuso de poder, fruto de um clericalismo que, embora não gostemos, ainda está muito presente na Igreja. Denunciar todas as formas de abuso é a única maneira de poder limpar o flagelo que não acaba.

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Tradução de Júlio Martin.

 

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