Depois da França é agora a Igreja Católica dos Estados Unidos que se prepara para celebrar a Páscoa batizando o maior número de adultos dos últimos anos. A tendência não resulta apenas da diminuição de batismos de crianças nem da retoma da vida comunitária presencial pós-pandemia. Mas entre as várias explicações adiantadas pelos bispos de um e outro lado do Atlântico nenhuma parece explicar de modo convincente o fenómeno.
“É claro que acreditamos que seja a ação do Espírito Santo”, disse à jornalista Elizabeth Dias do New York Times o cardeal Robert McElroy, de Washington, “mas estamos meio sem saber o que pensar.” Os números reunidos pela jornalista mostram que nesta arquidiocese serão batizados na próxima Vigília Pascal (noite de 4 de abril) 1.755 adultos, “um aumento em relação às 1.566 do ano passado, que já era o maior número em pelo menos 15 anos”.
No primeiro ano após a eleição de Leão XIV, o primeiro Papa originário dos Estados Unidos, os números de batizados batem recordes por todo o país. “A arquidiocese de Detroit receberá 1.428 novos católicos, o maior número em 21 anos. A arquidiocese de Galveston-Houston terá o maior número em 15 anos. Na diocese de Des Moines, o número aumentou 51% em relação ao ano passado, passando de 265 para 400 pessoas (…) Em Filadélfia, o novo total é o dobro do registado em 2017. Em Newark, 1.701 pessoas serão batizadas nesta Páscoa, em comparação com mil em 2010.”
“Qual é o teu número? Qual é o teu número?” – perguntavam-se os bispos entre si, à margem de uma conferência recente, escreve Elizabeth Dias, reproduzindo o relato que o cardeal McElroy lhe fez sobre os corredores dessa reunião.
Em França vive-se um fenómeno semelhante. No ano passado foram batizados durante a Vigília Pascal mais de 17.800 catecúmenos, adultos e adolescentes (mais 45% do que no ano anterior), e tudo indica que este ano o número de adolescentes, jovens e adultos a receberem o primeiro sacramento de iniciação cristã superará o registado em 2025. Esta é, pelo menos, a convicção da jornalista de La Croix, Malo Tresca, que recolheu dados relativos ao número de catecúmenos em várias dioceses de França e se pergunta: “2026 será o ano em que se atingirá a marca simbólica de 20.000 catecúmenos, entre adultos e adolescentes?”
Batismos de adolescentes e adultos continuam a aumentar em França
Em qualquer caso, o padrão etário dos novos batizados coincide em ambos os países: são as pessoas entre os 18 e os 35 anos quem mais contribui para este crescimento significativo dos adultos que solicitam o batismo.
Isolamento, ansiedade e casamento
O arcebispo Mitchell Thomas Rozanski, de St. Louis (EUA), arquidiocese onde o número de catecúmenos não era tão alto desde 2016, avançou ao New York Times uma explicação para esta procura crescente: “Numa era como a nossa de incerteza e de grande ansiedade, há uma sede e uma fome de Deus e da estabilidade que a fé traz para a vida das pessoas.” E recordou “duas mudanças sociais significativas que transformaram o senso de comunidade humana nos últimos anos, impulsionando as pessoas em direção à fé católica: a tecnologia isolou-nos uns dos outros; e a covid veio amplificar esse isolamento”. “Estamos a tomar consciência de que muitos dos males de nossa sociedade, particularmente a ansiedade e a depressão, surgem desse isolamento” – concluiu.

A razão principal (49%) para as conversões ao catolicismo teve a ver com o casamento e o facto de o parceiro ser católico, diz sondagem de 2025. Na imagem, a pia batismal da Catedral do Apóstolo São Mateus, em Washington. Foto © Almonroth, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Os resultados de uma sondagem publicada pelo Pew Research Center, em junho de 2025, mostravam que apenas oito por cento dos católicos americanos eram ‘convertidos’. Todos os outros (92%) viam-se como ‘católicos de berço’ – pessoas que foram criadas em famílias católicas. A razão principal (49%) para as conversões ao catolicismo teve a ver com o casamento e o facto de o parceiro ser católico. Na resposta ao inquérito de suporte àquela sondagem as afirmações mais comuns foram: “casei com alguém de uma família católica” e “casei com um católico e tornei-me católico depois disso”.
Uma proporção maior de convertidos, em comparação com católicos de berço, afirma receber a comunhão sempre que participa da missa. Politicamente, os convertidos são um pouco mais republicanos do que os ‘católicos de berço’ e têm praticamente a mesma probabilidade de, ideologicamente, se descreverem como conservadores.
Em termos gerais, o ano de 2022 parece ter sido o momento de inflexão no crescimento do número de americanos adultos que diziam não terem qualquer religião. Naquele ano, de acordo com os inquéritos conduzidos pelo Pew Research Center, 31 por cento dos adultos viam-se como pessoas ‘sem religião’, quase o dobro do que acontecia 15 anos antes (16%, em 2017). A partir de 2022, este grupo deixou de crescer e até dá sinais de estar em regressão, pois, em 2024, eram apenas 28 por cento.
Os que mais contribuem para esta redução dos ‘sem religião’ são os cristãos (todas as confissões). O seu permanente decréscimo registado nas últimas décadas parece ter atingido o ponto mais baixo em 2022, ano em que “apenas” 60 por cento dos americanos se diziam cristãos, valor que compara, por exemplo, com os 78 por cento de 2007, mas que se enquadra já num patamar iniciado em 2019 (63%). No ano de 2024, os números apresentam um crescimento de três pontos percentuais, voltando em dois anos a atingir os 63 por cento. Valor que sugere um aumento sustentado, ainda que lento, dos americanos que se identificam com alguma das confissões cristãs.










