Nhinguitimo ou vento sul: o que é que nos trazes, desta vez?

| 14 Ago 20

O nhinguitimo irrompe pelo vale e varre instantaneamente a poeira que enche o ar.
Célere, vasculha as matas, derruba os pés de milho
e dobra as micaias, que gemem de aflição.
Luís Bernardo Honwana, Nós Matamos o Cão-Tinhoso (2008: 127) [1964].

 

Mãos. Lavar mãos. Água. Covid.

Depois da epidemia de cólera, lavar as mãos voltou a estar na ordem do dia. Foto © Beat Ruest/Wikimedia Commons

 

Há dias fui à Rádio Moçambique falar sobre hábitos e opções de vida, no que toca às lições que as sociedades aprendem através da covid-19. Imagino que haja e haverá uma série delas, algumas das quais são antigas, aprendidas nos tempos de grandes surtos de cólera em Moçambique: “lavar as mãos”, algo que estava na ordem do dia. Além disso, outras foram as lições que o HIV-sida ensinou: usar o preservativo masculino, sempre; e hoje: devemos usar a máscara, sempre.

Não sei se a vida voltará a ser a mesma que antes. Mas uma coisa é verdadeira, aprenderemos a não ter certezas sobre seja o que for. “O futuro a Deus pertence.” E haverá que imprimir novas dinâmicas de vida. A covid-19 provou que a ciência falha e, às vezes, é lenta. Ninguém sabe(ia) como debelar a doença. Nem através da ciência, nem através dos diferentes tipos de conhecimentos populares que detemos. Ouvimos, não poucas vezes, a Organização Mundial da Saúde a apresentar avanços e recuos, nas orientações que nos dá(vam) sobre a prevenção. Ficou claro que, só se conhecia a doença e a sua estirpe, o SARS-CoV-2. Nada mais. As pesquisas ainda vão no adro. Consta-nos, a partir de Bruna Lima, do Correio Brasiliense, de 3 de Agosto, a existência de testes de 164 imunizações, 25 das quais em fase de desenvolvimento e ainda assim, o que é apontado como uma grande aposta é a prevenção e não a certeza de uma vacina eficaz. Além disso, em alguns países europeus, a doença vai na sua segunda vaga e, em Moçambique, os casos positivos estão em recrudescimento.

Isso nos revela que terão de ser tomadas opções, hábitos, competência e comportamentos e, mais do que o livre arbítrio, deverá haver um chamamento a uma consciência de cuidado colectivo. Penso que poderemos estimular mais a nossa criatividade e compreensão sobre as novas formas de se estar na vida.

 

O mundo desacelerou, a vida acelerou

Ouvi e li várias vezes, por estes dias, que o mundo se desacelerou, mas isso foi, a meu ver, no nosso quotidiano físico, porque passou a haver menos lugares para frequentar. Entretanto, para os intelectuais e infoincluídos, a vida acelerou. Aqueles foram os maiores clientes no ciberespaço. A vida passou do espaço físico para o mundo virtual e isso exigia mais leituras, mais produção, mais interacção, sobretudo, mais atenção, porque falar, veicular conhecimento, com a cara incluída, requer mais cuidado. E qual é a lição que fica, nestes casos? A consciência de propalar ou de trabalhar para mais e melhor qualidade, nas suas áreas de actuação. Ou, se vencidos pelo cansaço, condenar-se à exclusão, porque hoje, existir é estar no ar.

O teletrabalho não foi novidade para alguns, mas foi-o para muitos e ter de adaptar casas particulares a escritórios não é/foi tarefa simples, uma vez que há que se acomodar o mundo do emprego no espaço privado, sem deixar que os conteúdos e processos de um invadam o outro. Os próprios indivíduos envolvidos neste tipo de trabalho, muitas das vezes tiveram dificuldade em se desligarem psicologicamente de um regime de trabalho, ligado ao seu emprego, para o doméstico e vice-versa. E há uma aprendizagem a fazer-se nisto tudo: gerir e separar agendas.

A indústria do turismo foi entrando em decadência, por causa do confinamento obrigatório, e muitos empregos foram ficando perdidos. Muitas pessoas viram-se obrigadas a refazerem as suas vidas: os take-aways e os restaurantes observaram um decréscimo, em favor de uma maioria que aguçou os seus hábitos de culinária, cozinhando em suas casas e o consumismo desenfreado abrandou. A indústria costureira foi-se impondo. Vimos aparecerem vários tipos de máscaras, que enriqueceram a produção ou a procura da capulana. Esta passou a ser a nossa principal riqueza económica, embora já fosse um dos objectos culturais mais utilizados. A sua popularidade aumentou. E a opção, nestes casos, passou a ser prestar a atenção aos alertas sobre a padronização da costura da máscara, para poder produzir e vender mais. Essa produção transformou alguns vendedores de rua, dos que comercializavam os mais diversos artigos, em negociantes de máscaras. Fica como lição a batalha sobre como cuidar e utilizar a máscara. Esta que passou a ser um artigo tão essencial à vida, quanto um preservativo masculino. E aí não há opção: ou usar ou usar. Essa impossibilidade de escolha deveria alargar-se aos produtos alimentícios comercializados na rua, que deveriam ser cobertos: o pão, as badjias e as bebidas tradicionais têm sido os produtos mais expostos.

Ainda do ponto de vista das actividades comerciais e ligado à criatividade dos moçambicanos, os primeiros objectos que me chamaram a atenção, logo após sermos assolados pela pandemia, foram baldes plásticos ou potes de barro com tampa, que passaram a ter uma adaptação, porque se lhes embutiu uma torneira, através da qual, várias pessoas poderiam lavar as mãos, à entrada de qualquer recinto, público ou privado, sem contaminarem a água. Além de baldes plásticos e de potes de barro, vi surgirem tabuleiros nos quais se coloca uma manta embebida de desinfectante, para se limpar os pés. Este processo já era utilizado em tempos de cólera, altura na qual, tal como agora, foi adoptada a cinza do carvão ou da lenha ou limão, para serem utilizados como desinfectantes para as mãos, por alterarem o pH do vírus. Enquanto não houver uma vacina, a lição e a luta será neutralizar o pH do vírus, sempre que possível.

 

Lições aprendidas, hábitos para mudar

Pessoalmente, neste período, aprendi uma grande lição, a partir de saberes não científicos. Percebi que deveria limpar os pertences nos quais mais toco, algo também já referido aquando da epidemia de cólera, altura na qual as mãos sujas eram um grande problema. Assim, a nova lição foi a de que deveria passar a limpar os óculos, o telemóvel e as esferográficas, objectos pessoais que mais utilizo. Também deixei de usar anéis nos dedos, por se assumir que também podem esconder vírus.

Muitos hábitos terão que ser mudados, como por exemplo, o respeito pela privacidade do outro: se estivermos numa bicha num banco, ou numa farmácia, não temos que ficar às cavalitas de quem estiver à frente e ouvirmos sobre a sua vida privada. Além disso, do ponto de vista da nossa actuação cultural, os aglomerados nos grandes banquetes, nos funerais ou em recintos de diversão, terão de ser repensados. Há que se rever como é que isso será realizado, sem atentarmos ao fundamental do ser humano, que é o facto de os homens serem seres gregários. Mas a opção acabará sendo reduzir multidões ou aglomerados. Até naquilo que julgávamos ser essencial nas nossas vidas, como um grande grupo de pessoas (íntimas ou não) visitarem um doente, o que assumíamos que lhe dava calor e alento, parecendo mal não o fazer. A opção passou/rá a ser o doente receber os seus entes-queridos mais próximos. Os outros terão de aprender a ouvir informações em diferido. A ideia da família alargada ser envolvida em tudo está posta em causa. Mas deverá ser compreendida.

Ainda no que toca a modos de fazer, f(s)omos, em Moçambique, durante muitos anos dependentes da África do Sul, no que concerne a bens de consumo, sobretudo os de primeira necessidade. Até aqueles que parecem de produção fácil, como hortícolas e aves. Hoje, somos convidados a estimular a produção local de produtos alimentares, sob pena de morrermos à fome, tendo bastante terra arável. E quanto ao vestuário, enquanto as fronteiras não forem reabertas, acabaremos aprendendo que, para além dos xitiques, dos lobolos, dos xiguianes ou das fardas nos nossos sectores de serviço, a nossa capulana, muito provavelmente, passará a ser usada no dia-a-dia de mais pessoas urbanas, já que este é o vestuário mais comum no campo. Será que o calçado e a produção de próteses ou de extensões capilares sofrerão o mesmo impacto, forçando-nos a optarmos por penteados naturais, tal como tem estado a acentuar?

 

O nhinguitimo não nos dará tréguas

Uma coisa é certa, teremos de nos refazer e precaver. Escrevo este texto no dia em que terminei a releitura da obra clássica moçambicana, Nós Matámos o Cão Tinhoso, do escritor Luís Bernardo Honwana. É um livro antigo mas sempre actual e fui relê-lo, dados os inúmeros cães tinhosos que ela sugere que matemos. E vejo agora que o nosso cão tinhoso actual é o coronavírus. Acabei por desviar o meu foco de actuação, quando ia fazer o levantamento dos tipos de cães sugeridos na obra, porque um deteve a minha atenção: o conto Nhinguitimo. Nele, ficamos alertados para estarmos à beira de um fenómeno desses e de duas maneiras: os ventos-sul, os nhinguitimo ipsu facto, que têm lugar entre Agosto e Setembro, que são velozes e poeirentos, e ainda a entrada para o provável pico de propagação do coronavírus em Moçambique. Tradicionalmente, Agosto é um mês poeirento, seguido de ventos em Setembro, e depois a sementeira, em Outubro.

Em Agosto, as poeiras deixarão muitos de nós constipados. E, em alguns momentos não saberemos qual é a estirpe da constipação, nem se ela transitará para uma simples gripe ou para a covid-19. O aumento de números de casos positivos da covid-19 já nos sugerem que o nhinguitimo não nos dará tréguas, tão já. A menos que, por volta de Outubro, possamos iniciar uma nova fase das nossas vidas, nas quais possamos começar a plantar novas esperanças. Haja forças!

Tendo o cão tinhoso nos deixado devastados, não há muitas opções de vida. Uma delas é a mudança de comportamento. E que o lavar as mãos ou colocar máscaras na cara não seja um cavalo de batalha, até porque, nas nossas tradições moçambicanas, lavar as mãos é mais do que um momento de limpeza. É um cerimonial com ritos próprios, sem os quais há quebra de etiqueta. Recordo que, mesmo em casa nas quais jorre água nas torneiras, quando recebemos pessoas mais velhas, especialmente a sogra, temos de lhe levar uma jarra com água morna e sabão, uma bacia e uma toalha, e pô-la a lavar as mãos onde ela estiver, sem maçá-la para que se movimente para os lavabos. É considerado um acto carinhoso. Que seja afectuoso o acto de lavarmos as nossas mãos, com frequência. E que o nhinguitimo passe rápido, sem nos varrer os pés.

 

Sara Jona Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica, em Maputo e participante do movimento Graal, em Moçambique. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

 

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