Denúncia do bispo de Kaduna

Nigéria: “Sete dos meus padres foram raptados”

| 16 Jun 2022

Arquidiocese católica do Estado de Kaduna. Foto © Anasskoko, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons.

Arquidiocese católica do Estado de Kaduna. Foto © Anasskoko, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

 

O arcebispo nigeriano de Kaduna denunciou o falhanço do governo do país no combate à violência e à corrupção, exemplificando com o facto de a Igreja estar também no centro de uma onda de sequestros violentos.

Falando numa conferência online, promovida pela Fundação AIS Internacional, D. Matthew Man-Oso Ndagoso explicou que este é, de facto, um dos mais graves problemas que a Igreja enfrenta hoje em dia na Nigéria. “Nos últimos três anos, sete dos meus padres foram raptados, dois foram mortos e um está em cativeiro há três anos e dois meses. Quatro foram, entretanto, libertados.” 

O relato é completado com a descrição do dia-a-dia em muitas das áreas desta diocese que se situa no quarto maior estado do país, no centro-norte da Nigéria. “Em 50 das minhas paróquias, os padres não podem ficar nas suas residências, porque são um alvo, são vistos como uma fonte fácil de dinheiro pelo resgate. Não posso ir a visitas pastorais como costumava fazer, os padres não podem ir às aldeias e celebrar missas. As pessoas não podem ir às suas quintas e, por isso, não podem alimentar-se. Com esta insegurança, as pessoas estão a ficar também carentes dos sacramentos.”

Para o arcebispo, a responsabilidade é do Estado: “O governo falhou completamente; é a ausência de um bom governo que está a causar isto. Bandidos, o Boko Haram, raptos, todos estes são sintomas de injustiça, da corrupção presente no sistema. A menos que consigamos chegar à raiz da questão, estaremos a travar uma batalha perdida.” 

Estas palavras, um misto de revolta e alguma resignação, ganharam um sentido especial depois do brutal ataque contra a Igreja de São Francisco de Xavier, a 5 de junho, Domingo de Pentecostes, em que homens armados irromperam no templo, situado na localidade de Owo, no Estado de Ondo, durante a celebração da missa, disparando indiscriminadamente e fazendo pelo menos 40 mortos entre os fiéis.

De acordo com a AIS, este ataque ilustra bem o ambiente de violência e terror que se vive na Nigéria e que não poupa nada nem ninguém.

“Ninguém está seguro em sua casa, na estrada, nem mesmo no ar! Há dois meses, bandidos atacaram um avião na pista de Kaduna, e durante quase dois meses não tivemos voos”, acrescentou o arcebispo a jornalistas de diversos países e elementos da fundação pontifícia que acompanharam a conferência de imprensa. 

O Boko Haram, o grupo jiadista que procura a criação de um califado na região nordeste do país, não é a explicação única para o clima de violência na Nigéria. A questão é mais complexa, com muitos problemas relacionados com a violência. Além dos grupos terroristas do Boko Haram, regista-se a atuação cada vez mais agressiva de pastores nómadas Fulani e, desde há algum tempo, situações cada vez mais frequentes de rapto de pessoas para o pagamento de resgates. A violência transformou-se também num negócio.

D. Matthew Man-Oso Ndagoso. Foto Fundação AIS

D. Matthew Man-Oso Ndagoso. Foto © Fundação AIS

“Nos últimos 14 anos, a nação tem lutado com o Boko Haram, principalmente no nordeste. Enquanto estávamos a lidar com isso, tivemos a questão do banditismo; e simultaneamente tivemos a questão dos raptos para pedir resgate, situação que está a tornar-se cada vez mais difundida. E enquanto lutamos com isto, temos o velho conflito com os pastores Fulani”, descreveu D. Matthew Ndagoso. 

A Nigéria é o país pais populoso de África e está dividida sensivelmente entre cristãos, que vivem maioritariamente a Sul, e muçulmanos, situados no Norte. Os pastores nómadas Fulani são na maioria muçulmanos e há relatos de grupos que têm vindo a revelar-se cada vez mais violentos para com agricultores cristãos.

Valor mais alto angariado pela Fundação AIS

A Fundação AIS anunciou ter angariado o valor mais alto para a sua missão de apoio à “Igreja que sofre” e aos cristãos perseguidos no mundo. A nível global, segundo os dados revelados, a fundação pontifícia recebeu cerca de 133 milhões de euros, valor que ganha uma expressão significativa se comparado com os dados obtidos no ano anterior, quase 123 milhões de euros, e tendo em conta as dificuldades económicas provocadas pela pandemia global da covid-19. Portugal também registou um valor inédito, com aproximadamente 3 milhões e oitocentos mil euros.

No total, a ajuda obtida pela Fundação AIS permitiu financiar 5298 projetos em 132 países onde a Igreja sofre mais perseguições ou onde a pobreza é mais extrema, o que significou um apoio direto a 1181 dioceses.

 

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