Ninguém tem tempo

| 15 Out 20

Tempo. Relógio. Leitura. Tecnologia. Computador

Foto © Kevin Ku/Unsplash

 

Entrei pela porta da secretaria do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra, onde trabalho, e na conversa com o pessoal administrativo veio à tona o tema da leitura, ao que diziam – não tenho tempo para ler”. Mais tarde, em conversa com a senhora do quiosque onde a minha filha foi fazer o seu passe, voltei a ouvir – antes conseguia fazer uma caminhada de duas horas no Choupal. Agora não tenho tempo.Ninguém tem tempo, e todos têm razão, porque o tempo não se possui. Por isso, qual a raíz desta queixa?

O tempo mede-se, gere-se, vive-se, mas não se possui. Pela sua direcção (em frente) está fora do nosso controlo. Portanto, querer “ter” tempo é irreal. O tempo existe por si mesmo. Podemos acolher o tempo, ou ir ao seu encontro. Podemos perceber melhor que percepção temos de tempo ou que propósito dar ao tempo que nos é dado, mas acredito não ser fácil abdicar dele. Aliás, não foi isso que aconteceu na parábola do Samaritano?

O Papa Francisco desenvolve o segundo capítulo da sua carta encíclica Fratelli Tutti [“Todos irmãos”] com base na parábola contada por Jesus sobre um samaritano que ajudou um homem ferido e abandonado, depois de saqueado por salteadores. O sacerdote e o levita, comenta o Papa, não foram capazes de perder uns minutos para cuidar do ferido ou, pelo menos, procurar ajuda. Apenas um samaritano, continua o Papa, deu-lhe algo que, neste mundo apressado regateamos tanto: o nosso tempo. (…) conseguiu deixar tudo de lado à vista do ferido e, sem o conhecer, considerou-o digno de lhe dedicar o seu tempo (FT 63). Mais tarde, senti que o Papa concluía esta questão do tempo com – a existência de cada um de nós está ligada à dos outros: a vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro (FT 66).

Quando alguém pensa não ter tempo para ler, a percepção que tem de tempo é a de um evento após outro, ou seja, um tempo cronológico. Na prática, a pessoa considera a leitura como mais um evento a encaixar na sua vida, já de si, fragmentada por outros eventos cronológicos.

O tempo que o samaritano dedicou ao homem ferido e abandonado, não era da mesma natureza que o tempo cronológico. Para o samaritano, o encontro com aquele homem era um encontro com o momento em si mesmo, o momento certo. O homem ferido tornou-se o momento presente do samaritano e poderíamos pensar que o samaritano foi ao encontro do homem, mas creio ter sido o contrário. Um homem ferido foi ao encontro do samaritano. Quantas pessoas vão ao nosso encontro com uma palavra e lhes dizemos com a indiferença – “não tenho tempo”?

A senhora do quiosque partilhou-me a falta de tempo porque recebi a sua conversa como o momento presente que veio ao meu encontro. Não costumo dar conversa por achar que preciso do tempo para outras coisas. Porém, aquele momento ensinou-me que acolher o pouco que o outro me quer dar com uma conversa, é um modo de aprender a viver o tempo certo.

Há quem pense que a pseudo-posse do tempo passa por desenvolver a melhor estratégia para o gerir. Por isso, vários autores escrevem sobre técnicas de gestão de tempo. Terá sido esse o problema do sacerdote e do levita? Embora o Papa refira como o samaritano deu o seu tempo, na prática, o momento certo pode não ser uma dádiva de tempo, mas de atenção, e essa podemos possuir. O samaritano prestou atenção ao homem ferido. Hoje, talvez seja mais lógico pensar na gestão da atenção, do que na gestão do tempo.

Quando afirmamos não ter tempo para ler, na realidade, a raíz da queixa está no pouco desenvolvimento da banda de atenção para ler mais. Há quem pense que ler é uma questão de gosto, mas creio ser antes uma questão de treino.

Todos temos dois minutos para ler seja o que for, e se aumentarmos 1% por dia esse tempo, não custa. Ao fim de um ano, esse aumento resulta em 1 hora, 15 minutos e 34 segundos seguidos a ler. Aumentámos o tempo para ler ou aumentámos a capacidade de prestar atenção? A atenção que despertou o coração do samaritano, pode despertar o nosso também. Basta treinar.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra

 

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