AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Um grupo de pastores evangélicos reza por Donald Trump e pelas forças armadas norte-americanas, na Sala Oval, a 6 de março. Imagem reproduzida a partir de vídeo da Casa Branca
Um grupo de pastores evangélicos reza por Donald Trump e pelas forças armadas norte-americanas, na Sala Oval, a 6 de março. Imagem reproduzida a partir de vídeo da Casa Branca.

[Justamente católica]

No conflito de Trump com o Irão, o evangelho da prosperidade enfrenta o Alcorão

| 30/03/2026

Filosofias opostas, extraídas de dois textos sagrados antigos, estão a colidir de forma terrível.

 

O colapso da monarquia iraniana em 1979 coincidiu com a publicação do livro de grande sucesso de Christopher Lasch, A Cultura do Narcisismo, uma crítica à celebridade americana, à grandiosidade e ao vazio espiritual. Em retrospetiva, o livro explica as razões pelas quais os jovens radicais iranianos se revoltaram contra o regime do Xá e os resultados da revolução que colocou o primeiro aiatola, Ruhollah Khomeini, no poder. Pode também explicar as razões da guerra atual.

Nos Estados Unidos, um “culto do eu” narcisista, como diz Lasch, tendia então (e tende claramente agora) para o auto-engrandecimento e um foco doentio na imagem pessoal e no consumo. A atual administração é um caso de estudo do problema, mesmo que se enquadre no chamado nacionalismo cristão.

No Irão pré-revolucionário, a riqueza avassaladora da monarquia, combinada com uma modernização agressiva, apresentou aos iranianos uma visão do mundo inclinada para um consumismo inatingível. Derrubaram o Xá e os seus ornamentos de petrodólares e substituíram-no pela presença austera do líder supremo, uma posição que agora parece ter-se tornado hereditária.

A face dos Estados Unidos é a de um presidente narcisista – há quem diga sociopata – que, embora eleito, só se pode dizer que reina a partir da Sala Oval, rodeado de folhas de ouro e bilionários. A face do Irão é a do terceiro de uma série de clérigos de linha dura, Mojtaba Khamenei, que substituiu o seu pai, o aiatola Ali Khamenei, que por sua vez substituiu Khomeini.

Há quem chame a isto a guerra de Israel. É certo que os interesses dos Estados Unidos e da Europa no Golfo Pérsico são suficientes para manter as balas a voar, mas não se iludam. Trata-se de dinheiro. O evangelho da prosperidade está vivo e de boa saúde, prometendo coisas boas, incluindo benefícios materiais reais, para aqueles que acreditam na justiça da “causa”. Neste caso, a causa é suspeitosamente semelhante à das Cruzadas medievais.

O Alcorão permite que os muçulmanos combatam a agressão, desde que os não combatentes não sejam prejudicados, mas o novo líder supremo do Irão afirma que a sua nação continuará a vingar “o sangue dos mártires [do Irão]”. Filosofias opostas, destiladas de dois textos sagrados antigos, estão a colidir de formas horríveis, tanto a nível macro como micro.

O que têm em comum a administração Trump, a liderança iraniana e Israel?

Nada e tudo. O Irão derrubou a sua monarquia resplandecente e substituiu-a por uma teocracia severa. Os Estados Unidos sofrem com uma autocracia dourada, impregnada de apocalipticismo cristão. O líder de Israel parece determinado a esmagar as sociedades dos seus vizinhos, independentemente de quem se lhe atravesse no caminho. A constituição de cada país parece ter-se reduzido a meras palavras.

Os perdedores de todos os lados são os jovens de cada país. Por baixo de todos os escombros em Israel, Gaza, Líbano, Irão e noutros locais do Médio Oriente estão pessoas. Presos no atoleiro da guerra estão homens e mulheres, rapazes e meninas, cujas esperanças, sonhos, vidas e membros foram prejudicados. Tudo isto é o resultado do que podem muito bem ser violações do direito internacional, se não da doutrina religiosa, independentemente da religião de que se trate.

Nos Estados Unidos, o mais grosseiro promotor do conflito, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, queixa-se do que denomina “regras de combate estúpidas”. O novo líder supremo do Irão é apelidado de “o seu pai em esteróides”. Benjamin Netanyahu, de Israel, vangloria-se: “Ainda não acabámos.” Na verdade, é bem possível que já tenhamos acabado.

 

Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado no Religion News Service e é aqui reproduzido por cedência da autora e daquela publicação ao 7MARGENS.

 

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This